4.6.09

metal pesado nos jardins

não, isto não é sobre a divulgação de nenhum evento de metaleiros em praça pública.
aqui, o termo metal pesado se refere a metais tóxicos, no caso, As (arsênio), Ba(bário), Cr(cromo), Cu(cobre), Pb(chumbo), Sb(antimônio) e Zn(zinco). estes metais foram encontrados em diversos parques de São Paulo, por meio de um estudo sobre contaminação de metais nos solos dos parques da cidade¹.
a média das concentrações na cidade, é maior do que a mesma média para o estado, e em parques próximos a alto tráfego de veículos automotores, as concentrações de Cu, Pb e Zn eram mais elevadas.
a inalação da poeira proveniente do solo de parques e jardins públicos expostos a níveis significativos de poluentes, além da ingestão direta deste solo, tem efeitos tóxicos. crianças são mais sucetíveis aos efeitos adversos deste tipo de poluição, por dois motivos básicos: cuidados higiênicos e a fase do desenvolvimento (principalmente do sistema nervoso).
a região metropolitana de são paulo tem uma população estimada de 19 milhões de pessoas, e 7,8 milhões de automóveis circulando diariamente, sendo este a principal fonte de poluição na região. o crescimento desordenado da cidade causa uma ocupação caótica, na qual solo para agricultura e áreas de vegetação florestal foram dizimadas. neste cenário, os parques e jardins públicos tem grande importância no lazer da população local.

7 parques foram amostrados na capital: alfredo volpi (antiga fazenda de chá com significante remanescente da floresta atlântica); na região central, aclimação (área residencial), buenos aires, luz e trianon (áreas próximas a avenidas com alto tráfego de automóveis); ibirapuera (um dos maiores e mais visitados parques da cidade, na região sul); e raposo tavares (peculiar por ter sido construído sobre um aterro sanitário).
parque do ibirapuera, o maior e mais visitado de todos - foto

a amostra de solo coletado foi da parte superficial (0-5 cm de profundidade), sendo coletado a cada 10 metros, a fim de ter uma amostra representativa dos parques, os locais analisados foram principalmente os de recreação, como áreas de práticas de esportes e playgrounds. a superficialidade do solo amostrado abrange o estrato do solo que está em contato direto com os usuários destes locais.

para entender os níveis de poluição, foi utilizado o VRQ (Valor de referência de qualidade), da companhia de tecnologia de saneamento ambiental - CETESB², que indica as condições de um solo considerado limpo ou de águas subterrâneas em seu estado natural, constituindo uma base para os processos de avaliação dos riscos apresentados e de medidas de prevenção e controle a serem adotadas.
clique no link para consultar os valores orientadores para solos e para águas subterrâneas no Estado de São Paulo, a partir disso, são estabelecidos os seguintes valores:
valor de prevenção - VP é a concentração de determinada substância, acima da qual podem ocorrer alterações prejudiciais à qualidade do solo e da água subterrânea. Este valor indica a qualidade de um solo capaz de sustentar as suas funções primárias, protegendo-se os receptores ecológicos e a qualidade das águas subterrâneas. Foi determinado para o solo com base em ensaios com receptores ecológicos.
valor de intervenção - VI é a concentração de determinada substância no solo ou na água subterrânea acima da qual existem riscos potenciais, diretos ou indiretos, à saúde humana, considerado um cenário de exposição genérico. Para o solo, foram estabelecidos para cenários de exposição Agrícola-Área de Proteção Máxima - APMax, Residencial e Industrial.

um gráfico interessante e que resume muitas informações é este que segue abaixo.
este gráfico representa as concentrações nos locais amostrados (na ordem: ibirapuera, aclimação, buenos aires, alfredo volpi, luz, trianon, raposo tavares. seguido dos VRQ, VP e VIA-APMax), clique na imagem para vê-la ampliada.

um fato intrigante apontado pelo estudo é que concentrações de chumbo, elevado nos parques buenos aires, luz e trianon, não eram esperadas mesmo em regiões de intenso tráfego de automóveis, uma vez que combustível livre deste metal pesado existe no país desde 1983, mas o estudo ainda aponta a possibilidade de que essas emissões se devam a grande quantidade de carros velhos ainda em circulação. pessoalmente não entendo como isso é possível, uma vez que essa emissão deveria se relacionar ao combustível utilizado, e não ao carro. é provavel que a grande concentração deste metal se deva a um outro fator apontado no estudo: a baixa mobilidade (e consequente acúmulo) deste metal, associado ao fato destes serem os parques mais antigos da cidade.

"os resultados do estudo indicam que solos de parques públicos da são paulo apresentam concentrações de As, Ba, Cr, Cu, Pb, Sb e Zn mais altos do que os valores de referência para o estado, reportados pela CETESB. Exceto no parque alfredo volpi, As, Ba, Cr, Sb e Zn apresentaram níveis de concentrações próximo ou abaixo do VP. As concentrações mais altas de Cu, Zn e Pb foram obtidas nos parques localizados próximos a avenidas com grande tráfego de carros, caminhões e ônibus, sugerindo que estes três metais originam de emissões veiculares. as concentrações mais altas obtidas sugerem que o potencial dano à qualidade do solo pode afetar a saúde humana."

só para fins ilustrativos, fiz aqui uma lista de potenciais danos a saude que cada um destes metais tóxicos podem causar(via wikipedia).

As. utilizado para vários fins clínicos, porém já foi utilizada como arma química, altamente concentrada, devido a fatores vesicantes (que formam lesões cutâneas em forma de bolhas) e causador de irritação pulmonar. utilizado na formulação de inseticida e herbicidas. fisiologicamente afeta a síntese de ATP, além de aumentar a produtividade de peróxido de oxigênio (água oxigenada para os mais leigos), causando estresse oxidativo. estas interferências metabólicas podem levar a falência múltipla dos órgãos, morte celular necrótica, além de hemorragia severa.

Ba. em doses baixas funciona como um estimulante muscular, e em altas doses, afeta o sistema nervoso (bloqueando canais iônicos de potássio), causando irregularidades cardíacas, tremores, fraqueza, ansiedade, dispnéia e paralisia.

Cr. o cromo trivalente é necessário ao metabolismo normal de açúcar e lipídios, sua versão hexavalente no entanto apresenta potencial mutagênico se inalado, o contato deste último com a pele pode causar dermatite.

Cu. essencial a qualquer planta ou animal. a toxicidade do cobre é associada a utilização de materiais de cozinha feitos deste metal, o qual pode causa cirrose em crianças com certas anomalias genéticas. num corpo humano normal, o metal transita livremente, sendo excretado, não havendo relatos de complicações clínicas em pessoas sadias.

Pb. o chumbo é tóxico se ingerido ou inalado, podendo afetar todos os órgãos e tecidos, causa principalmente lesões neuronais e sanguíneas. as lesões neuronais podem levar a déficits cognitivos em crianças (mais facilmente) e adultos. altas concentrações do metal também é associado a puberdade tardia em meninas, além de comprometer a capacidade reprodutiva de mulheres.

Sb. em pequenas doses, o antimônio causa cefaléias, vertigem e depressão; em doses altas, vômitos violentos e frequentes,podendo levar a morte em poucos dias. a intoxicação é semelhante ao do arsênio.

Zn. o zinco apesar de necessário, pode, em altas dosagens, suprimir a absorção de ferro e cobre. o íon livre de zinco é extremamente tóxico para diversos invertebrados e inclusive alguns peixes, sendo concentrações micromolares suficientes para matar alguns organismos.

dica do harry (pança)

¹Figueiredo AMG, Enzweiler J, Camargo SP, Sigolo JB, Gumiero FC, Pavese AC, Milian FM, 2009. Metal contamination in urban park soils of São Paulo. Journal of Radioanalytical and Nuclear Chemistry, 280(2):419-425.
² site da CETESB, para mais informações sobre os valores orientadores para solo e água subterrânea, clique aqui

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