25.11.09

pare de reciclar, comece a reparar: platform21's repair manifesto


Smith Island, abril de 1989, após o derramamento de petróleo do exxon valdez (fonte)


a questão do lixo e outros resíduos é cada vez mais preocupante, e é um fator intrínseco à ocupação humana. onde quer que estejamos sempre geramos resíduos provenientes de nossas atividades, desde o que vestimos, comemos, até os mais graves impactos que podemos causar, tais como vazamentos (em escala industrial) de radiação ou petróleo. todos os impactos são devido às nossas escolhas na forma que aceitamos ocupar o espaço. (sim, aceitamos, porque por mais que sejamos contra a exploração e degradação intensiva dos recursos naturais, nenhuma ou pouca coisa fazemos para mudar a situação no curto ou médio prazo. "pequenas ações que mudam o mundo" são frases criadas pelo marketing verde para v. acreditar que contribui para melhorar a situação, mas para mudar de verdade é preciso causar mudanças estruturais graves tanto nas pessoas como nas infinitas instituições que existem por toda humanidade, e isto, sinto dizer, v. não faz com "pequenas ações que mudam o mundo".)

isso tudo associado à nossa população ainda continuamente crescente só intensifica o problema gerado pelo lixo. pequenas ações que mudam a humanidade (e não o mundo) seria a de não ter filhos, pois a qualidade de vida de qualquer população conhecida pela biologia, é reduzida conforme a densidade populacional aumenta. em mamíferos, pelo menos, ainda existe um conceito, o qual não lembro o nome (mas que é usado na produção do gado leiteiro), de que cada indivíduo tem uma distância que necessita para se sentir bem espacialmente em relação a outros indivíduos. numa multidão, por exemplo, nos sentimos demasiado incômodo a não ser quando motivados por um fim que valha a pena (shows, festas, etc. cada um com suas preferências pessoais).

o problema do lixo é explícito em megalópoles (pelo menos de países em desenvolvimento). em São Paulo, por exemplo, o lixo adequadamente descartado é destinado a aterros particulares ou exportados a outros municípios (encarecendo o destino de 16 toneladas de resíduos gerados diariamente), já que todo local apropriado neste município transborda de lixo. parte nem recebe esta destinação correta e vai para os córregos e rios, ou abandonados em terrenos, avenidas e ruas. tudo de forma que deixa muito a desejar.


cena cotidiana: lixo à beira do córrego do ipiranga na av. ricardo jafet (fonte)

a reciclagem foi coroada a deus ex machina da tragédia humana, como uma solução final para as merdas que fazemos o nosso estilo de vida.  mas à reciclagem parece que está embutida uma idéia implícita de que sendo reciclável nenhum mal é cometido contra nossos preciosos recursos naturais, sendo mais uma motivação para o consumismo desenfreado que um fim adequado aos produtos do consumo.

na verdade este não é um simples bradar contra a reciclagem, mas um chamado contra a reciclagem como uma solução final. a reciclagem é apenas a forma mais apropriada de descarte de determinado material, mas a idéia principal é antes de mais nada reduzir o consumo das coisas, além de reutilizar o que já se tem em mãos (os clássicos 3R - reduzir, reutilizar e reciclar, nesta ordem, como todos aprendemos ainda no ensino fundamental).

neste contexto apresento-lhes o repair manifesto. este é um manifesto do grupo holandês platform21. segundo eles mesmos, são uma plataforma de design visando influenciar positivamente a relação entre usuário e produto.

as idéias deles sao bem simples. são as seguintes:

1. faça seus produtos durarem mais!
consertar significa a oportunidade de dar a um produto uma segunda vida. consertar não é anticonsumo: é antidesperdício.

2. as coisas têm que ser projetadas para poderem ser consertadas
designer de produtos: faça coisas consertáveis. forneça informações [sobre diy (do it yourself)] claras sobre como consertar.
consumidor: compre coisas que você sabe que podem ser consertadas, ou descubra por que elas não existem. seja crítico, faça perguntas.

3. consertar não é substituição
repor é jogar fora a parte que não presta. esse NÃO é o tipo de repare que estamos falando.amente.

4. o que não mata engorda (a expressão em inglês é muito mais feliz: o que não mata, fortalece)
toda vez que você conserta algo nos acrescentamos ao seu potencial, à sua história, à sua alma e à sua beleza inerente.

5. consertar é um desafio criativo
fazer reparos é bom para a imaginação. usando novas técnicas, ferramentas e materiais conduzimos a uma possibilidade ao invés a um beco sem saída.

6. conserto não sai de moda
reparo não é acerca de estilo ou tendências. não há datas de validade para produtos reparáveis.

7. consertar é descobrir
ao consertar objetos, você descobre coisas incríveis sobre como eles realmente funcionam. ou não funcionam.

8. conserte – mesmo quando a crise acabar
se você acha que este manifesto tem a ver com a recessão, esqueça. não estamos falando de dinheiro, mas de mentalidade.

9. coisas consertadas são únicas
mesmo falsificações se tornam originais quando você as conserta.

10. consertar é ser independente
não seja um escravo da tecnologia – seja seu mestre. se está quebrado, conserte e torne-o melhor. e se v. é um mestre, outorgue o poder aos outros.

11. você pode consertar tudo, mesmo um saco plástico
mas nós recomendamos arrumar uma sacola que dure mais, e então repará-la se necessário.

pare de reciclar. comece a reparar.

é isso.
por um mundo menos destrutivo e mais construtivo.
alguns podem pensar que é só questão de bom senso, mas explicitar é necessário.

para algumas informações oficiais sobre o destino do lixo na cidade de são paulo clique aqui

2 comentários:

alexandre disse...

nossa cara.
ou tá rolando um puta campo mórfico ou eu realmente tô foda.
hauehuaehauehauehaeuhaeuhaeue
não paro de pensar em fazer algo (propagandas, envia cartas, divulgar aos outros, etc.) para encher o saco das indústrias a construirem coisas que possam ser reparadas.
seu post caiu como uma luva.
junte a isso um "evite consumir se pode fazer" e acho que as coisas realmente começam a funcionar sustentavelmente.
very good di bão glennis.
weeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

glenn makuta disse...

é isso ae sangue.
lá fora é muito mais comum essa cultura de DO IT YOURSELF... infelizmente aqui no brasil essa coisa ainda tá engatinhando, mas como diz o provérbio: antes tarde do que mais tarde.