15.5.14

O mito da abundância da água e a crise contemporânea.

Atualmente vivemos uma crise sistêmica de várias naturezas: social, econômico, político e ambiental são os mais evidentes. Todos eles são tratados como crises pontuais mas são reflexos de um mesmo problema, que é o modo de vida adotado por boa parte da humanidade a partir da década de 1950, período pós guerras que instaurou o modelo de produção industrial massiva.

Abaixo uma reflexão de um trecho tirado de artigo de página 22, que fez uma edição dedicada ao tema da água.
“No momento em que os governadores começam a recorrer ao governo Federal em uma competição pela água, já fica demonstrado que os problemas do acesso aos recursos hídricos não está sendo tratado no âmbito da gestão”, comenta a consultora especializada em serviços ambientais Marussia Whately, ex-coordenadora do Programa Mananciais do Instituto Socioambiental (ISA). “A situação do Sistema Cantareira é muito grave e trata-se claramente de um problema de gestão. Já se sabia há uma década que era preciso diminuir a dependência desse sistema e em 2009 um estudo apontou que ele tinha déficits importantes. Foi irresponsável ficar contando com as chuvas”, afirma Marussia.

Mas, afinal, de quem é a responsabilidade? A incerteza sobre esse ponto revela que os problemas de gestão têm sua raiz na ausência de um arranjo adequado de governança (mais em entrevista com o ex-presidente da ANA José Machado). Na opinião de Marussia, a crise foi desencadeada por um evento climático extremo, que não foi previsto porque a Sabesp não fez um acompanhamento metodológico adequado. No entanto, não cabe à empresa de saneamento o papel de fazer essa gestão, já que se trata de uma companhia de economia mista que visa lucro.

“A Sabesp tem se mostrado eficiente nos investimentos para redução de perdas e aumento da capacidade de abastecimento – porque isso dá lucro. Mas se trata de uma empresa que vende água e não faz sentido que ela convença seus consumidores a reduzir o consumo e o desperdício, o que é fundamental na gestão sustentável da água”, afirma a consultora.

De acordo com Marussia, jamais poderia caber à Sabesp a decisão de fazer um racionamento, por exemplo. “A Sabesp jamais optará pelo racionamento, mesmo que todos os reservatórios estiverem secos. Temos uma agência reguladora, temos comitês de bacias hidrográficas. Como a decisão pode ser da Sabesp? Esse é o maior indício de desmantelamento do sistema e de uma governança precária”, disse Marussia.

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