12.5.09

avoante ou pomba-amargosa (1/2)

com esta pomba iniciarei a série sinantrópicos notáveis, no qual falarei um pouco da biologia, ecologia, fisiologia, comportamento, etnobiologia, evolução, curiosidades e tudo mais que couber no assunto deste e dos próximos sinantrópicos.

os animais sinantrópicos são aqueles que potencialmente se tornam pragas que, devido a hábitos generalistas e oportunistas, encontram, na associação com o homem, as condições adequadas para sua manutenção (ocasionalmente explosão) populacional.

se encontram oportunidades em quaisquer brechas para a manutenção da população é porque, assim como nós, são plásticos, conseguindo regular seu comportamento a ambientes alterados. tudo isso é possível porque o ambiente ainda fornece a capacidade suporte para a manutenção dessas populações, oferecendo os recursos vitais.

avoante nidificando em vaso de xaxim. prova cabal de plasticidade.
Foto: Michelângelo Stamato

este texto está dividido em duas partes, sendo que nesta primeira abordarei o ambiente natural no qual o animal evoluiu para podermos entender várias de suas características biológicas, na próxima, abordarei os outros ambientes em que esta ave pratica a reprodução colonial, a qual explicarei um pouco aqui.
dito isto, vamos ao que interessa.

a nomenclatura científica deste animal do qual falarei é Zenaida auriculata, pertencente, como qualquer pomba existente, à família Columbidae, da Ordem Columbiformes.
a Ordem Columbiformes atualmente só apresenta a família Columbidae, porém a extinta família Raphidae, do famigerado dodô (escrachado pela divertidíssima animação era do gelo), também pertencia a esta ordem.

a avoante, como é conhecida popularmente no nordeste, é chamada aqui no sudeste de pomba-amargosa. a origem do termo "amargosa" é devido ao sabor levemente amargo de sua carne, muito apreciada pelo sertanejo.

biomas favoráveis a ocorrência da avoante, retirado Murton et al. 1974

nativa da América do Sul (região biogeográfica Neotropical), ocorre naturalmente em campos abertos de ambientes áridos e semiáridos, se adaptando facilmente a ambientes alterados com vegetação baixa, áreas agrícolas e urbanas. devido a estas características sua distribuição geográfica abrange (vide figura acima) Caatinga (1), Pampas (2) , Cerrado (3), e Chaco (4), sendo limitadas pelas Florestas Tropicais Amazônica e Atlântica (pois evita áreas com florestas densas)¹; além de ocorrer na costa do Oceano Pacífico, na região das Guianas, no Sul do Caribe e na ilha de Fernando de Noronha. porém o frequente desmatamento e a crescente expansão das fronteiras agrícolas e áreas de pecuária extensiva aumentam cada vez mais as áreas habitáveis por esta espécie.

Zenaida auriculata, Uruguai. Foto: Carlos Redondo

por ocorrer naturalmente em ambiente semiárido, os primeiros lugares nos quais foram feitos estudos a respeito da biologia desta ave foram na Caatinga e no Chaco. a peculiaridade do semiárido reside nos longos períodos secos com chuvas ocasionais concentradas. o período de seca pode durar até anos e é quebrada com a chuva, quando a produtividade biológica aumenta enormemente. quando esta oportunidade surge, as sementes de planta germinam, fornecendo alimento abundante a fauna local ou migrante.

é neste contexto que ocorre uma das coisas mais espetaculares da biologia desta ave. a formação de colônias reprodutivas gigantescas, que chegam a proporções quilométricas, ocupando uma área média de 1km x 5km, com milhões de indivíduos nela. isto ocorre pois a chegada da chuva permite que o seu principal alimento (Croton sp) na caatinga saia da dormência e germine.

Croton sp pertence à família Euphorbiaceae, constituída de diversas plantas consideradas espécies pioneirasG e portanto oportunistas. (euforbiáceas têm algumas características curiosas como a presença de substâncias carcinogênicas mas que não vêm ao caso.)

quatro meses após a passagem da chuva, as sementes produzidas por essas pioneiras já estão maduras, disponibilizando uma fonte de alimento muito abundante. esta abundância, porém, é efêmera e dispersa num espaço bastante amplo. para encontrar esse alimento é necessário um esforço de busca muita grande, o qual indivíduos solitários improvavelmente sejam capazes de encontrar, por isso formam-se colônias reprodutivas.

as colônias reprodutivas são essenciais para a busca do alimento pois elas funcionam como centros de informação². a idéia, apesar de controversa, é a que melhor explica a reprodução colonial de espécies do semiárido do mundo todo que se alimentam de recursos abundantes, efêmeros e dispersos.

basicamente um indivíduo que sai em busca do alimento e é bem sucedido informa outros de seu sucesso, aqueles que se deram mal na tentativa anterior, seguem estes que se deram bem e todos saem ganhando. o informante não tem nenhum motivo pra esconder este tipo de informação, uma vez que ele não conseguiria explorar tal recurso sozinho, não constituindo uma competição.

quanto maior o número de indivíduos, maior é a quantidade de informação trocada, e portanto maior a percepção à mudanças nos padrões da disponibilidade de recursos.

a formação destas colônias inicia-se com um bando de exploração, que busca um lugar adequado para a reprodução. uma vez que o local adequado é encontrado e a colônia estabelecida, outros bandos que avistarem esta colônia, se junta, de forma que a colônia tenda a ficar cada vez maior.
no entanto o ciclo reprodutivo (cópula, construção de ninho, postura, criação do filhote, abandono do ninhoG) é completo em aproximadamente 40 dias. desta forma, depois de pouco mais de um mês a colônia começa a "caminhar", uma vez que os bandos iniciais (na parte posterior da colônia) já terminaram o ciclo reprodutivo e saem dela, enquanto novos bandos que chegam vão se colocando a frente da colônia.

além deste aspecto dinâmico da reprodução da avonte, há uma movimentação numa outra escala. a reprodução ocorre enquanto houver recursos alimentares disponíveis, permitindo que vários ciclos reprodutivos se completem durante o ano. mas, devido a todas as características já citadas do recurso alimentar, a avoante realiza uma reprodução itinerante, acompanhando a maturação da vegetação, que por sua vez acompanha o sentido das chuvas. a reprodução itinerante ocorre no sentido sudoeste a nordeste.³

padrões de distribuição de vegetação e ninhos (esq) e chuva(dir) na Caatinga.
Fonte: Bucher1982


mais duas observações cabem neste post relativo aos hábitos da avoante na Caatinga: ninhos no chão e caça e conservação.

então vamos por partes, como dizia o velho jack.

uma característica peculiar de seu hábito reprodutivo na Caatinga é a construção de ninhos no chão, protegido por macambiras(Bromelia laciniosa, Bromeliaceae) e xique-xiques(Pilosocereus gounellei, Cactaceae), ambos característicos daquele ambiente xerofítico espinhento.

ninhos são construídos sob a proteção de xique-xiques e macambiras como estes. Foto: link


próximo destas plantas a pomba fica protegida (mas não livre) de predadores (o que constitui um risco considerável a ave), mas este é um fator secundário de seleção. Bucher³ considera que a nidificação no chão é favorecida pela seleção natural pois oferece algumas vantagens que superam o risco de predação. tal vantagem se encontra na simplicidade estrutural do ninho de chão o qual permite um período de construção menor, relacionado ao curto período de disponibilidade de alimento. juntamente a estes fatores, o enorme número de ninhos deve saciar os predadores locais, uma vez que a brevidade da permanência da colônia não permite o estabelecimento de uma nova população de predadores.

uma vez escolhido o local em que a colônia se reproduzirá, a pomba dificilmente sairá dele, apesar de que a pressão de caçadores possa forçá-las a abandonar o local, mas uma vez que os filhotes tiverem eclodido do ovo, as avoantes se tornam muito mais relutantes em mover-se para outro lugar.

nestas condições, os sertanejos aproveitam para caçá-la(tanto adultos, como ovos e filhotes) de forma superexploratória* além de comercializá-la, tudo ilegalmente e sem preocupações com a conservação da espécie. esta prática põe em risco a manutenção de populações naturais daquele ambiente.

a forma que a caça ocorre é bem rústica, sendo utilizada espingardas, pedaços de pau ou mesmo a retirada manual dos indivíduos. uma das várias técnicas consiste em esperar as avoantes irem aos bebedouros, e uma vez que a pomba começa a beber água, o sertanejo, de dentro da água, puxa-a afogando a pomba.

a exploração da avoante pelo sertanejo faz parte da cultura local, e é cercada de crendices e mitificações sendo vista como uma "esperança", pois traz os nutrientes necessários a sobrevivência, tão escassos em tempos de seca.


é uma situação socialmente complexa, pois o desamparo que o povo sertanejo sofre, não lhes dá muitas alternativas, e após a estiagem o desespero por uma "grana extra" pode ser facilmente compreendida. é claro que a mão-de-obra é superexplorada também: são muitas horas seguidas, visto que a presença da pomba é efêmera e abundante, em péssimas condições de higiene, ganhando pouco, além do uso de mão-de-obra infantil. geralmente são contratados por "donos de barracoes" e invadem terras particulares sem autorização, se preocupando apenas em retirar o maior número de indivíduos que conseguirem.4

criança morta (1944), de Cândido Portinari

os estudos conhecidos datam todos das décadas de 1970 e 1980, faltando dados atuais para o status desta espécie no nordeste brasileiro.
dados atuais relativos ao uso da terra no semiárido nordestino permite inferir que a pomba se torne uma potencial praga agrícola, a exemplo de outros casos conhecidos por toda a América do Sul, mas este é assunto para a segunda metade do post sobre a avoante.

*digo caça superexploratória, mas as pessoas comumente diriam caça predatória. não uso este termo pois predação é um fator extremamente necessário à manutenção de um ecossistema saudável. o ideal seria um termo como overhunt, a exemplo de overfishing (que seria a pesca acima da capacidade do ambiente repor a população). a exemplo da pesca, a caça também poderia ser permitida se houvesse meios de controlá-la.


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não encontrei nenhuma figura da avoante em colônias reprodutivas, mas para fins ilustrativos, achei o exemplo de outra ave. esta é a Phallacrocorax bougainvillii, conhecida como guanay no Peru. as fotos a seguir são de autoria de Ignacio García-Godo, ambas retiradas do site birding peru

o simpático guanay...

... forma colônias reprodutivas gigantescas assim:
... ou ainda, o caso dos pinguins, ironicamente mais familiar pra nós do que o da avoante devido a incansáveis documentários a respeito.

Colônia de pinguim-rei no continente antártico, Foto: Alex Snyder


¹Murton RK, Bucher EH, Nores M, Gómez E, Reartes J, 1974. The ecology of the Eared Dove (Zenaida auriculata) in Argentina.
² Ward P, Zahavi A, 1973. The importance of certain assemblages of birds as "information-centres" for food-finding.
³ Bucher EH, 1982. Colonial Breeding of Eared Dove in Northeastern Brazil.

4 Aguirre AC, 1976. Distribuição, costumes e extermínio da "avoante" do nordeste, Zenaida auriculata noronha Chubb.

Glossário
espécie pioneira é aquela que coloniza um novo ambiente, sendo as primeiras que aparecem numa sucessão ecológica
abandono do ninho é quando o filhote já tem capacidade de vôo e abandona o ninho.

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