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4 de agosto de 2016

Cuidado com a casa

Sofremos da amnésia biocultural.

Não sabemos mais ler nem modificar as paisagens para potencializar os recursos providos pela natureza.

Nos limitamos a uma tecnologia e ideologia pós-guerra que geram todos os grandes problemas social, ambiental, econômico, político, espiritual, comportamental contemporâneos e que ainda é vendida como a única solução viável.

Este é o cúmulo da negação do homem como animal e portanto pertencente e integrado à natureza.
a perda dessas (e outras*) habilidades é a perda daquilo que nos torna humanos**.


* outra grande habilidade que caracteriza o gênero humano (Homo sp) é a habilidade de criar e manejar o fogo.
** humano, etimologicamente tem a raiz equivalente de palavras como úmido, humus, humildade, características simbólicas muito profundas de nossa espécie.

4 de abril de 2016

Cosmovisão e regulação de recursos naturais

A cosmovisão é o fator de regulação do uso de recursos. e nossa cosmovisão míope enxerga recursos infinitos e melhorados por tecnologias.

Como diz David Attenborough: "Qualquer um que acredite no crescimento indefinido num planeta fisicamente finito ou é louco ou um economista"

Para os povos indígenas, a terra e, de modo geral, a natureza têm uma qualidade SAGRADA que é quase inexistente no pensamento ocidental. A terra é reverenciada e respeitada, e sua inalienabilidade se reflete em praticamente todas as cosmovisões indígenas. Os povos indígenas não veem a terra meramente como um recurso econômico. De acordo com suas cosmovisões, a natureza é a principal fonte de vida que alimenta, sustenta e ensina. A natureza é, portanto, não só uma fonte produtiva, mas o próprio centro do universo, o núcleo da cultura e a origem da identidade étnica.
No coração desse vínculo tão forte está a percepção de que todas as coisas vivas e não vivas e os mundos social e natural estão intrinsecamente ligados (princípio da reciprocidade). De particular interesse é a pesquisa feita por diversos autores sobre o papel exercido pela cosmologia de vários grupos indígenas como um mecanismo regulador do uso e do manejo dos recursos naturais.
Na cosmovisão indígena, cada ato de apropriação da natureza tem que ser negociado com todas as coisas existentes (vivas e não vivas) por meio de diferentes mecanismos, tais como rituais agrícolas e diversos atos xamânicos (trocas simbólicas). (...)
Paralelamente, as sociedades indígenas detêm um repertório de conhecimento ecológico que geralmente é local, coletivo, diacrônico e holístico. De fato como elas possuem uma longa história de utilização dos recursos, criaram sistemas cognitivos sobre os próprios recursos naturais de seu entorno, que são transmitidos de geração para geração por isso que o corpus é geralmente um conhecimento não escrito. A memória é, portanto, o recurso intelectual mais importante entre as culturas indígenas ou tradicionais.
(...)
O conhecimento indígena não se restringe aos aspectos estruturais da natureza ou a objetos ou componentes e sua classificação (etnotaxonomias), mas abrange também dimensões dinâmicas (de padrões e processos), relacionais (ligadas às relações entre os elementos ou eventos naturais) e utilitárias dos recursos naturais.
Trecho de 'A memória biocultura' de Toledo e Barrera-Bassols

9 de março de 2016

a memória biocultural

A despeito do que os autores dizem acerca das capacidades biológicas humana, uma coisa é certa: a capacidade de ter uma memória social.
Isso graças ao nível de capacidade de comunicação simbólica (e não à capacidade em si) e ao acúmulo de informação, principalmente pela oralidade e escrita.

Se o Homo sapiens conseguiu permanecer, colonizando e expandindo a sua presença na Terra, é porque foi capaz de reconhecer e aproveitar os elementos e processos do mundo natural, um universo que encerra uma característica essencial: a diversidade. Essa habilidade se deve à manutenção de uma memória, individual e coletiva, que conseguiu se estender pelas diferentes configurações societárias que formaram a espécie humana. Esse traço evolutivamente vantajoso da espécie humana tem sido limitado, ignorado, esquecido ou tacitamente negado com o advento da modernidade, que constitutiu uma era cada vez mais orientada pela vida instantânea e pela perda da capacidade de recordar.

Identificada pela velocidade vertiginosa das mudanças técnicas, cognitivas, informáticas, sociais e culturais que impulsionam umas racionalidade econômica baseada na acumulação, centralização e concentração de riquezas, a era moderna (consumista, industrial e tecnocrática) tornou-se uma época prisioneira do presente, dominada pela amnésica, pela incapacidade de se lembrar tanto dos processos históricos imediatos quanto daqueles de médio e longo prazo.

Essa deficiência está relacionada a uma ilusão alimentada por uma espécie de ideologia do progresso, do desenvolvimento e da mercantilização que não tolera nenhuma forma pré-moderna (e, em sentido estrito, pré-industrial), que é automaticamente qualificada como arcaica, obsoleta, primitiva e inútil. Essa avaliação ideológica, que faz da modernidade um universo autocontido, autojustificado e autodependente, volta-se contra sua própria existência ao suprimir sua capacidade de reconhecer o passado, isto é , ao abrir mão de uma consciência de espécie que é ao mesmo tempo uma consciência histórica baseada em características que vai além do fenômeno humano e alcança todas as dimensões da realidade do planeta: a diversidade.
 trecho de 'A Memória Biocultural', de Víctor M. Toledo e Narciso Barrera-Bassols.

um antídoto contra a amnésia biocultural

Paulo Petersen, sobre amnésia biocultural, modelo agrícola e a atual crise de civilização que passamos.
trecho de "Agroecologia: um antídoto contra a amnésia biocultural.", texto de abertura da edição brasileira do livro "A memória biocultural - A importância ecológica das sabedorias tradicionais", de Víctor M. Toledo e Narciso Barrera-Bassols

Interpretadas pelo prisma hegemônico da teoria da modernização essas resistências locais são consideradas arcaicas e irracionais, colocando-se, portanto, como obstáculos ao desenvolvimento a serem removidos. Ao enxergar irracionalidade onde existem outras racionalidades, os arautos da modernização reproduzem o que o sociólogo Boaventura Sousa Santos denominou de razão indolente, uma forma de apreensão do mundo insensível às ricas e diversificadas experiências sociais que milenarmente alimentaram (e ainda alimentam) a heterogênese das agriculturas no planeta.
(...)
Essa perspectiva positivista da História que encontra sua síntese na noção de modernização agrícola funcionou como uma alavanca ideológica para legitimar novos mecanismos de coesão social no mundo rural. Com isso, cria-se uma miragem de um futuro supostamente virtuoso, que depende mais da ciência e menos das memórias e identidades coletivas. Dessa forma, na orientação do devir histórico, a racionalidade dos meios técnico-científicos se sobrepõe à racionalidade dos fins subjacentes aos projetos de sociedade. A partir dessa inversão entre fins e meios, fenômeno que Max Weber denominou racionalização, a tecnociência assume papel preponderante como força social na conformação do futuro
(...)
Nessa nova gramática do tempo, as memórias bioculturais tornam-se elementos supérfluos e descartáveis, enquanto a modernização agrícola se mostra um experimento duplamente descontrolado. De um lado, porque suas promessas não se confirmaram. Ao contrário, a imposição de um padrão metabólico que desconectou os sistemas agroalimentares da natureza e das culturas regionais desencadeou verdadeiras tragédias sociais e ecológicas. Por outro lado, o descontrole se verifica na ausência de mecanismos de regulação institucional que impeçam o crescente controle dos sistemas agroalimentares por um número limitado de empresas que se movem globalmente e à revelia dos interesses da sociedade, impondo-se como verdadeiros impérios alimentares.
As bases culturais e ecológicas que permitiram que a civilização chegasse ao estágio atual vêm sendo dilaceradas, gerando um perigoso aumento da vulnerabilidade das modernas sociedades. Reconstruir essas bases é uma condição urgente pára a superação da crise de civilização que ameaça o futuro da espécie.
Produzir antídotos contra a amnésica biocultural, é, portanto, um elemento chave para a construção de um paradigma alternativo que permita criar atalhos para a saída da crise. Utilizando a imagem empregada por Sousa Santos, trata-se, antes de tudo, de dilatar o presente por meio do reconhecimento e da revalorização das experiências sociais desenvolvidas a partir da coprodução natureza-cultura. Essas experiências vêm sendo literalmente desperdiçadas como fontes de sabedoria e inspiração para a superação dos críticos impasses civilizacionais.
(...)
A agricultura camponesa é a principal força social que molda dialeticamente essas construções bioculturais. Sempre que operando com margens de liberdade suficientes para reproduzir seus modos de produção e de vida, o campesinato estabelece metabolismos socioecológicos de elevada sustentabilidade e resiliência, uma vez que seus arranjos técnico-institucionais se baseiam em um conjunto de princípios comuns ao funcionamento da natureza: a diversidade; a natureza cíclica dos processos; a flexibilidade adaptativa; a interdependência; e os vínculos associativos e de cooperação.
Esses princípios inscritos nas memórias bioculturais são vetores que impulsionam as trajetórias da inovação camponesa. Essa é a razão pela qual os autores ressaltam a importância das sabedorias tradicionais como elos entre o passado, o presente e o futuro da Humanidade. Defender as memórias e cultivar as sabedorias são tarefas urgentes que cobram um enfoque científico pautado por uma epistemologia fundada no diálogo de saberes: a Agroecologia
o livro ao qual petersen se refere
em espanhol,
la memoria biocultural