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9 de abril de 2020

Perspectiva alimentar da produção capitalista e a externalidade de mais uma pandemia

Esse texto é um ensaio em construção baseado em um entrevista que dei.

Rever os sistemas de produção alimentar é essencial para a promoção de uma alimentação saudável, com produtos provenientes da agricultura familiar e camponesa que garanta o acesso por todos. O modelo massificante e padronizante é o causador ou incubador de muitos dos problemas sociais, ambientais e alimentares que enfrentamos na atualidade. A comida esconde muita coisa que passa despercebido a olhos pouco treinados. Ressignificar as narrativas e tornar o invisível visível continua sendo um dos maiores desafios nesse campo, principalmente por conta das complexidades envolvidas.

É comum relacionar a problemática com o mercado de carnes ‘exóticas’ por ser algo diferente da nossa realidade, o que torna essa visão preconceituosa, ainda mais se associada ao perigoso discurso de guerra à virose (conforme alerta o antropólogo Umberto Pellecchia), como tem ocorrido em muitos canais de comunicação, induzindo a busca por um inimigo causador. A verdade é que o modelo que permite o surgimento dessas doenças é o próprio modelo intensivo (conforme a tese de Rob Wallace, autor de ‘Big Farms Make Big Flu' em entrevista ao Climate and Capitalism), muito praticado em países europeus, nos Estados Unidos e mesmo no Brasil, aqui principalmente com granjas gigantescas de frangos engaiolados. 

O modelo industrial vigente é o absurdo da agricultura que vai marginalizando as produções menores que vão sendo engolidas pelas grandes produções que visam a todo custo gastar menos e produzir mais, resultando em genéticas monótonas e que fornecem tais características em detrimento de diversidade, de rusticidade, de sabor, de saúde, de qualidade. Com isso vai-se naturalizando gradualmente práticas diversas e impensáveis (ou que eram impensáveis até um passado não muito distante) em produções de pequena ou média escala, tais como o uso compulsivo de antibióticos, de confinamento de grande quantidade de animais em espaços muito restritos, de privação dos comportamentos naturais esperados desses animais, da naturalização de mutilações para evitar os perigos dos comportamentos totalmente alterados pelas condições em que os animais vivem, de critérios de saúde animal que visam a sobrevivência em condições sanitárias extremamente higienistas e tecnificadas uma vez que pequenos problemas que surjam podem tomar proporções desastrosas. São diversas as externalidades negativas que valem o risco correr, já que os problemas são sempre democraticamente socializados, já que a real pandemia é o capitalismo.

Políticas públicas efetivas e ecologicamente adequadas são imprescindíveis para promover essas alterações no modelo produtivo, que por sua vez promoveria a soberania alimentar e genética.

Sem dúvida é difícil com um olhar ocidental, sobre uma cultura bem diferente da nossa, dizer o que outro país deve fazer. Dizer isso seria leviano e colonialista. De fato esses mercados são vitais para a subsistência e segurança alimentar e nutricional de milhões de agricultores familiares, comerciantes e consumidores. Ainda assim, parece haver uma fetichização e mercantilização do consumo de animais silvestres, seja para alimentação ou medicação, não sendo possível generalizar que este seja um hábito de todas as pessoas da maior população humana da Terra.

Mas ao recapitularmos um pouco, temos um impulsionamento desse tipo de produção numa história muito recente. O modelo mercadológico ao qual esses produtos foram adaptados são sem dúvida muito mais nocivos do que os produtos em si. Evidências científicas divulgadas em publicação na Lancet indicam a possibilidade do mercado de Wuhan sequer ter sido a origem do contágio em humanos do Covid-19 ou ainda que poderia ter havido mais de uma origem, o que torna ainda mais difícil condenar esse tipo de prática. 

A produção brasileira de carnes figura dentre as principais commodities produzidas e exportadas pelo país, motivo pelo qual o poder econômico e político do setor é gigantesco. No entanto se avaliarmos os diversos custos ambientais, sociais, culturais, tributários e de saúde pública, para nos ater a apenas alguns aspectos, temos enormes externalidades negativas que são totalmente negligenciadas e que superam os ganhos econômicos com que o setor possa por ventura contribuir. 

Mesmo na situação dos mercados molhados (wet markets) da China onde os animais silvestres são comercializados, temos a lógica da expansão sobre as matas primárias, tanto pela expansão da fronteira agropecuária como pelas incursões de busca e captura de espécimes silvestres para o comércio, aumentando o fluxo de pessoas e outros animais, colocando-os em contato muito próximo. Isso junto ao confinamento em massa e condições sanitárias precárias são condições ideais para a incubação das mais diversas viroses, permitindo o transbordamento de doenças de uma espécie a outra, como foi o caso do novo coronavírus.

A alternativa já defendida e praticada por muitos é a manutenção da floresta em pé. Essa é a forma como, desde há milênios, alimentos em abundância são fornecidas para seres humanos nesses ecossistemas. Desde que bem manejada ela pode continuar a oferecer alimento como um subproduto florestal imprescindível para os povos que ali vivem. No entanto, mesmo havendo um manejo adequado, um dos maiores desafios do abastecimento na região amazônica são as distâncias, com logística muito complexa e custosa. Daí a relevância de se fortalecer as cooperativas e centrais de comercialização da agricultura familiar a fim de superar tais dificuldades. Além disso, políticas públicas adequadas que garantam o Direito Humano à Alimentação Adequada, prevista em nossa Constituição Federal, também é essencial para amenizar tais custos, que poderiam vir, por exemplo, na forma de subsídios e renúncias fiscais e outras diversas facilidades concedidas a setores economicamente dominantes.

As atividades de desmatamento, promovidas por setores do agronegócio (junto a madeireiras e mineração) vão, em poucos anos, trazer enormes prejuízos para o próprio setor, colapsando o regime de chuvas nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do país, que são bastante expressivas na produção agropecuária. Muito se fala na Amazônia em termos de desmatamento, mas essa é também uma dura realidade da financeirização das terras em todo o país, e talvez até mais gravemente num dos biomas mais antigos do planeta, o Cerrado, que também sofre gravemente com impactos desse setor produtivo e não apresenta condição ecológica suficiente para se regenerar. Ainda assim projetos como o Matopiba – de expansão da fronteira agropecuária sobre o Cerrado dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – seguem a todo vapor devastando toda sociobiodiversidade lá existente. O Brasil é o país mais megadiverso do planeta e culturalmente aprendemos desde cedo a não dar muito valor a essa diversidade, e por isso muitas vezes perdemos uma infinitude de formas de vida muito antes de conhecer suas potencialidades. 
Matopiba: Terra arrasasda no Cerrado nordestino
Sem dúvida que a produção e consumo de carnes precisam ser reduzidas drasticamente, comer menos e melhor ('less, better'), como prenuncia a campanha Slow Meat. A agricultura familiar e a agroecologia são bons exemplo da alternativa possível e necessária da forma de se produzir, de organizar socialmente, de comercializar e dar acesso a alimentos diversificados, em sua maioria produtos vegetais, mas também de derivados de origem animal. Boa parte do abastecimento já é realizado pela agricultura familiar e pelos  empreendedores agrícolas de pequena e média escala, muitos desses acabam utilizando o pacote tecnológico fomentado pela indústria química e de sementes por falta de assistência técnica que busque eliminar a dependência desses insumos. 

A solução não seria uma dieta baseada exclusivamente em vegetais, mas numa baseada em biodiversidade ('biodiversity-based diet' para contrapor o 'plant-based diet', que muitas vezes são apropriadas pelas grandes indústrias, inclusive agrotóxicos e de carnes). Quando se tem um modelo produtivo biodiverso, há menor ocorrência de doenças na produção, menos consumo de insumos, mais mão de obra empregada, mais nutriente ingerido, circuitos de comercialização mais curtos, respeito à sazonalidade. Passamos a nos reconectar com os ciclos e limitações da natureza, a qual custamos em entender que integramos, aumentamos nossa saúde e resiliência e também a dos sistemas produtivos. 
Toda cidade tem em seu território ou no seu entorno  agricultores familiares, agroecológicos, produtores artesanais e de pequena escala. Geralmente eles são a solução que temos próximos mas que nem sempre estão facilmente acessíveis por não terem canais de comercialização estruturados. 

Em tempos de pandemia, com as entregas em domicílio em alta, os grupos e células de consumo responsável tem se tornado uma estratégia importante para manter o abastecimento da cidade e da renda no campo e assim enxergarmos o invisível: o valor de quem produz o alimento que comemos três vezes por dia.


Algumas iniciativas de âmbito nacional que valem destacar é da rede jovem do Slow Food (SFYN), do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) ou ainda o Open Food Brasil. Localmente diversas outras iniciativas também têm surgido e vale buscar pelas organizações e movimentos atuantes em cada território para saber mais.

Existem muitas realidades da quarentena, desde pessoas que estão em família ou numa estrutura comunitária (das mais diversas classes sociais) onde há suporte mútuo entre as pessoas, aquelas que estão confinadas em apartamentos minúsculos nas metrópoles ou ainda da realidade das periferias onde não é possível realizar adequadamente as recomendações de quarentena nem de higiene por falta de saneamento básico e acesso à água potável. Desse último grupo ainda é necessário grande solidariedade de outros grupos sociais pois são os primeiros que sofrem com o avanço da pobreza e fome e desmonte das políticas sociais. Vale acompanhar o G10 das Favelas, que tem ainda uma campanha de financiamento coletivo para estruturar os empreendimentos locais e dar apoio assistencial. Organizações da sociedade civil ligadas aos temas da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e de agroecologia têm cobrado ações do Estado para que essa situação não se agrave ainda mais. Leia as cartas do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) e da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) para saber mais.

As possibilidades alimentares são de toda natureza e aquelas que não sabem cozinhar e não têm ninguém com essa aptidão no círculo social mais próximo tende a piorar sua alimentação.

É claro que se você tem aptidões culinárias e está disposto pode aprender muita coisa e se esse é seu caso, precisa buscar saber mais o que você alimenta quando se alimenta. Comer pode ser um processo educativo permanente onde é possível conhecer coisas novas a todo momento. E nesse sentido expandir o olhar para além do alimento em si, e pensar mais amplamente de onde vem, quem e como produziu, qual o impacto na saúde e no meio ambiente são reflexões importantes que esse momento pode potencializar para alguns públicos específicos.

A ruptura do modelo produtivo é o mais desejável já que 'não podemos voltar a normalidade já que a normalidade é o problema', como dizia a projeção no Chile ou é 'uma crise mortal' como diz Naomi Klein. No entanto o que está em acirrada disputa são pelo menos outros dois modelos, de este ser uma momento excepcional e voltar à 'normalidade', ou de acelerar os problemas uma vez que para as classes dominantes, eles ainda são insuficientes, vale a leitura da reflexão de Rafael Evangelista em A distopia da aceleração está a caminho?.

No entanto, se atendo à perspectiva mais otimista, a da ruptura, essa é sem dúvida uma oportunidade sem igual na história recente onde as classes mais privilegiadas estão em quarentena e tendo que lidar com um cotidiano caseiro com o qual muita gente não estava preparada nem habituada. Se de fato conseguiremos aproveitá-la para melhorar a alimentação e as relações de exploração que estão postas, será possível avaliar somente retrospectivamente. Pelo menos na alimentação, muitas pessoas estão recorrendo a aplicativos de comida pronta com entrega em domicílio (que muitas vezes são de alimentos não-saudáveis) e ultraprocessados (que definitivamente fazem mal a saúde), que geralmente ainda são alimentos sem proveniência rastreável. O conforto dessa alimentação é o conforto da alienação, onde as pessoas são habituadas apenas a conhecer o preço que aparece no caixa do supermercado e da alienação para o descaso é um pulo, como lembra Michael Pollan em O Dilema do Onívoro. A alienação é peça fundamental para que uma alimentação adoecedora e geradora de pandemias continue acontecendo com frequência cada vez maior.

Então precisamos somar esforços para as escolhas individuais influenciem esferas maiores e que o consumo de alimentos in natura e minimamente processados produzidos pela agricultura familiar contribua para a estruturação duradoura de cadeias curtas de distribuição e comercialização, e que aproximação a produtores fortaleçam laços e de políticas públicas adequadas para superação da insegurança alimentar e nutricional se tornem perenes. A mudança que era impossível pode se tornar inevitável nas próximas semanas.

Precisamos acabar com essa equação maldita: destruição de habitats (onde patógenos ocorria como espécie secundária e sem causar problemas) + expansão de fronteira agropecuária (interface entre tais doenças e atividades humanas como também com setor madeireiro e da mineração) + pecuária intensiva (onde incuba e alastra as doenças) + alienação sobre os sistemas produtivos (que garante a manutenção do modelo que gera o problema) = combinação perfeita pra surgimento de pandemias e sua recorrência.

Cabe a cada um e à coletividade fortalecer para que esses aprendizados não sejam ocasionais, se assim de fato conseguirmos consolidar tudo isso, passamos a ter um futuro um pouco mais promissor adiante.

10 de julho de 2018

Agroecologia na FAO, Catedral da Revolução Verde


- "agroecology is not a set of tools or practices than can be used to make large-scale and capital-intensive agriculture systems more sustainable."

- "importance of scaling-up open-source information systems for small-scale farmers, strengthening the participation of often marginalised communities (such as pastoralists) in policy-making forums, and demanding equal representation of women in leadership positions of rural institutions."

- "highlighted the fact that local knowledge systems are essential for maintaining agroecological production, and therefore participatory research methodologies are needed to fully understand the range of benefits of these production systems and then effectively translate those findings into policy spheres."

"it is clear that the further institutionalisation of agroecology in FAO’s “Cathedral of the Green Revolution,” as named by the FAO Director General during the First International Agroecology Symposium in 2014, casts an uncharted, but certainly contested, policy future for agroecology. It’s up to agroecologically-orientated farmer organisations and social movements to keep pressure on policy makers to embed this promising approach."

para ler o texto de jordan treakle na íntegra, acesse http://www.arc2020.eu/institutionalising-agroecology-in-the-cathedral-of-the-green-revolution/.

para ler mais sobre o segundo simpósio de agroecologia da FAO, acesse http://www.fao.org/about/meetings/second-international-agroecology-symposium/es/

Documentos chave:
Iniciativa para ampliar la escala de la agroecología - Una propuesta con motivo del segundo Simposio
Second International Symposium on Agroecology - Chair's Summary

16 de agosto de 2016

Precisamos falar sobre alimentos adequados para o consumo


Sim, ainda é muito pouca a informação difundida na sociedade a respeito de alimentos saudaveis e adequados para o consumo.

Somos o país que mais consome agrotóxicos (7,2L per capita anuais), incluindo mais de uma dezena de compostos venenosos já banidos em outros lugares do mundo.

Enquanto esses alimentos forem focados num nicho de mercado é isso que continuará sendo.
Precisamos subsidiar a produção sem veneno ao invés dos próprios venenos, precisamos mostrar outras possibilidades de adquirir alimentos como Grupos de Consumo Responsável ou as Comunidades de Suporte a Agricultura, precisamos valorizar a atividade agrícola e fixar as gerações mais novas no campo, não apenas deixando-os às margens da sociedade.

Precisamos ressignificar o alimento para muito além de mera mercadoria. Há muito mais dimensões no alimento do que o econômico. Mais do que sonha nossa vã filosofia, motivo pelo qual necessitamos valorizar muito os conhecimentos tradicionais regenerativos milenares em detrimento de um conhecimento tecnicista de poucas décadas cheio de externalidades negativas.
Precisamos massificar o consumo de alimentos agroecológicos, livres de agrotóxicos e de engenharia genética.

Precisamos valorizar a agrobiodiversidade e a cultura alimentar e agrícola de verdade.
Precisamos valorizar cadeias curtas e diretas, a sazonalidade e a biodiversidade local.
Vivemos no país mais megadiverso do mundo e chega a ser patética que nossa alimentação seja eurocentrada, baseada em culturas agrícolas de clima temperado.
Mas ainda assim sou otimista, não porque o cenário esteja favorável, muito pelo contrário, mas por entender que apesar desse modelo destrutivo estar crescendo, ele está cada vez mais próximo de seu fim que, como um câncer, tentará comprometer cada vez mais recursos e a velocidades cada vez maiores.

Então, inevitavelmente, muita desgraça está por vir (corporações minando a governança de Estados, aumento de desigualdades, genocídios e ecocídios e perda dos saberes diversos relacionados, dentre tantas outras desgraças), numa escala nunca antes vista e talvez nunca imaginada.
Por outro lado os modelos que prezam pela regeneração do sistema já estão em curso e ganhando cada vez mais espaço.

Parafraseando Bill Molison, se quisermos destroçar esse sistema, nao podemos depender dele para garantir nossa comida e abrigo, se uns 10% de nós focarmos nessas coisas, tamo garantido.

9 de março de 2016

um antídoto contra a amnésia biocultural

Paulo Petersen, sobre amnésia biocultural, modelo agrícola e a atual crise de civilização que passamos.
trecho de "Agroecologia: um antídoto contra a amnésia biocultural.", texto de abertura da edição brasileira do livro "A memória biocultural - A importância ecológica das sabedorias tradicionais", de Víctor M. Toledo e Narciso Barrera-Bassols

Interpretadas pelo prisma hegemônico da teoria da modernização essas resistências locais são consideradas arcaicas e irracionais, colocando-se, portanto, como obstáculos ao desenvolvimento a serem removidos. Ao enxergar irracionalidade onde existem outras racionalidades, os arautos da modernização reproduzem o que o sociólogo Boaventura Sousa Santos denominou de razão indolente, uma forma de apreensão do mundo insensível às ricas e diversificadas experiências sociais que milenarmente alimentaram (e ainda alimentam) a heterogênese das agriculturas no planeta.
(...)
Essa perspectiva positivista da História que encontra sua síntese na noção de modernização agrícola funcionou como uma alavanca ideológica para legitimar novos mecanismos de coesão social no mundo rural. Com isso, cria-se uma miragem de um futuro supostamente virtuoso, que depende mais da ciência e menos das memórias e identidades coletivas. Dessa forma, na orientação do devir histórico, a racionalidade dos meios técnico-científicos se sobrepõe à racionalidade dos fins subjacentes aos projetos de sociedade. A partir dessa inversão entre fins e meios, fenômeno que Max Weber denominou racionalização, a tecnociência assume papel preponderante como força social na conformação do futuro
(...)
Nessa nova gramática do tempo, as memórias bioculturais tornam-se elementos supérfluos e descartáveis, enquanto a modernização agrícola se mostra um experimento duplamente descontrolado. De um lado, porque suas promessas não se confirmaram. Ao contrário, a imposição de um padrão metabólico que desconectou os sistemas agroalimentares da natureza e das culturas regionais desencadeou verdadeiras tragédias sociais e ecológicas. Por outro lado, o descontrole se verifica na ausência de mecanismos de regulação institucional que impeçam o crescente controle dos sistemas agroalimentares por um número limitado de empresas que se movem globalmente e à revelia dos interesses da sociedade, impondo-se como verdadeiros impérios alimentares.
As bases culturais e ecológicas que permitiram que a civilização chegasse ao estágio atual vêm sendo dilaceradas, gerando um perigoso aumento da vulnerabilidade das modernas sociedades. Reconstruir essas bases é uma condição urgente pára a superação da crise de civilização que ameaça o futuro da espécie.
Produzir antídotos contra a amnésica biocultural, é, portanto, um elemento chave para a construção de um paradigma alternativo que permita criar atalhos para a saída da crise. Utilizando a imagem empregada por Sousa Santos, trata-se, antes de tudo, de dilatar o presente por meio do reconhecimento e da revalorização das experiências sociais desenvolvidas a partir da coprodução natureza-cultura. Essas experiências vêm sendo literalmente desperdiçadas como fontes de sabedoria e inspiração para a superação dos críticos impasses civilizacionais.
(...)
A agricultura camponesa é a principal força social que molda dialeticamente essas construções bioculturais. Sempre que operando com margens de liberdade suficientes para reproduzir seus modos de produção e de vida, o campesinato estabelece metabolismos socioecológicos de elevada sustentabilidade e resiliência, uma vez que seus arranjos técnico-institucionais se baseiam em um conjunto de princípios comuns ao funcionamento da natureza: a diversidade; a natureza cíclica dos processos; a flexibilidade adaptativa; a interdependência; e os vínculos associativos e de cooperação.
Esses princípios inscritos nas memórias bioculturais são vetores que impulsionam as trajetórias da inovação camponesa. Essa é a razão pela qual os autores ressaltam a importância das sabedorias tradicionais como elos entre o passado, o presente e o futuro da Humanidade. Defender as memórias e cultivar as sabedorias são tarefas urgentes que cobram um enfoque científico pautado por uma epistemologia fundada no diálogo de saberes: a Agroecologia
o livro ao qual petersen se refere
em espanhol,
la memoria biocultural

17 de dezembro de 2015

sobre dietas e seus impactos

A despeito de toda confusão iniciada pelo artigo do ScienceAlert, que enviesa o estudo pra 'combater' o vegetarianismo - e replicado acriticamente internet afora - alguns fatos básicos da agropecuária devem ser esclarecidos.
Em termos de produção, independentemente do que se produza, o problema na geração de impactos depende muito mais da técnica utilizada do que do produto obtido.
Tanto a agricultura como a pecuária podem ser destrutivas ou regenerativas. ambas podem depredar qualidade de água, solo, ar, sociobiodiversidade, etc ou podem aumentar a qualidade destes.
É claro que se v for comparar em quantidade de calorias (que é o parâmetro utilizado) de um bacon e equivaler a mesma quantidade de calorias em alfaces, precisaríamos de uma quantidade sobrehumana do vegetal.
Além disso os modelos produtivos predominantes no Brasil ainda são altamente destrutivos.
A produção alimentar é 70% proveniente da agricultura familiar mas na pecuária a predominância, em nível comercial, acaba sendo dos grandes latifúndios mesmo.
O cerne do problema está na escala de produção, na concentração de terras e na falta de diversidade do sistema, que refletem em diversas externalidades não consideradas nessa visão reducionista e simplista.
Uma abordagem mais completa é necessária para avaliar sistemas complexos como os agrícolas.
E bacons provenientes de produções agroecológicas podem muito bem gerar impactos mais positivos ambiental, social e economicamente do que vegetais cultivados em monoculturas químico-dependentes em solos exauridos e mortos.
Comer é um ato agrícola, ecológico e político.
Fomente cadeias produtivas mais coerentes com suas escolhas de vida.
Conheça minimamente de onde vem e como e por quem é produzido o que chega no seu prato/armário e onde mais tiver produtos agrícolas.
(Só espero que seu desejo não seja concentrar ainda mais terras e poderes nas mãos de latifundiários :P)



O Departamento de Meio Ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira analisou o estudo recentemente publicado na revista ...
Posted by Sociedade Vegetariana Brasileira - SVB on Quarta, 16 de dezembro de 2015

14 de agosto de 2013

Rede Mobilizadores promove oficina online sobre agricultura urbana


[De acordo com projeções de especialistas, cerca de 80% da população mundial viverá nas cidades até 2030. Diante deste cenário, a ideia de produzir alimentos nos grandes centros de consumo vem sendo uma tendência mundial, podendo representar não só uma forma de garantir a segurança alimentar das populações, como também um campo de oportunidades para novos modelos de negócio e estímulo ao consumo consciente.
Mas em que locais é possível praticar a agricultura urbana? Em que ela difere da agricultura convencional, realizada no campo? De onde retirar os nutrientes para que ela seja, de fato, produtiva? Como ela pode contribuir para a destinação correta de resíduos orgânicos e para o estímulo ao consumo consciente? Qual o papel da agroecologia neste tipo de agricultura? Estas e outras questões estarão em pauta na oficina online Agricultura Urbana, que a Rede Mobilizadores Coep realiza de 19 a 23 de agosto no site www.mobilizadores.org.br.
Para facilitar a oficina, a rede convidou o engenheiro agrônomo Marcos José de Abreu, presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina (Consea-SC) e coordenador do eixo urbano do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro).
Marcos José coordenou a implantação do projeto A Revolução dos Baldinhos , numa comunidade de baixa renda de Florianópolis. A iniciativa, baseada na gestão comunitária de resíduos e na produção de fertilizante natural, viabiliza o plantio de alimentos por meio da agricultura urbana e vem transformando a realidade local.
Para Marcos José, o projeto traz diversos benefícios para a comunidade. Ao plantarem parte de seus alimentos, os moradores poupam dinheiro. Sem lixo nas ruas e com verduras frescas na mesa, há também melhoria na saúde das pessoas , explica, acrescentando que a iniciativa pode ser facilmente replicada.
As inscrições podem ser feitas de 13 a 19 de agosto, gratuitamente, no site www.mobilizadores.org.br. As vagas são limitadas. Todos os que participarem do minifórum da oficina receberão certificado.
A oficina tem apoio do Banco do Brasil, Fundação Banco do Brasil e Eletronuclear.
Mais informações: (21) 2528-3352.
Fonte: Coep Nacional

Assessoria de Comunicação
(61) 3411.3279 / 3483
www.presidencia.gov.br/consea
ascom@consea.planalto.gov.br
Redes Sociais

30 de maio de 2013

O alimento e sua centralidade

Faz muito tempo que não escrevo um post de verdade neste blógue.

Muita coisa importante tem sido deixado de ser dito por minha negligência, mas acho que agora é hora de retomar este hábito.

Sempre me impressionei com o potencial humano para coisas bacanas assim como pra coisas catastróficas. Comecei este blógue principalmente para divulgar assuntos relacionados com animais que convivem com o homem (sejam em ambientes naturais ou modificados pelo homem), assim como sua ecologia e comportamento.

Teve até uma época que queria estudar profundamente a ecologia de ratos de esgoto no ambiente urbano de São Paulo, mas por falta de quem me orientasse nesse tipo de estudo, acabei desistindo.

Comecei um mestrado na USP, no programa de Neurociências e Comportamento, no Instituto de Psicologia, estudando a ecologia comportamental da pomba-amargosa, uma famosa ave-praga que fazia ninhos nos enormes canaviais (que mimetizavam a vegetação espinhosa da caatinga) e tinha enorme fartura de alimento ao explorar os grãos de cultivos adjacentes. Os grãos eram provenientes da ineficiência do maquinário agrícola, que chegava a desperdiçar 30% do que produzia. Essas populações da amargosinha (como também é chamada a ave Zenaida auriculata) encontrava condições que só encontra em agroecossistemas, em que os fatores abrigo, alimento e água a permitiam manter superpopulações (colônias) reprodutivas.

*leia mais sobre esta ave em dois posts que escrevi há muito tempo atrás [parte 1 e parte2]


Acabei por abandonar este mestrado por uma série de motivos que não cabe aqui dizer. Mas antes aprendi uma série de coisas importantes, assim como comecei a minha busca por alternativas produtivas.

Foi nessa busca que conheci o movimento Slow Food (que em princípio é uma contraposição ao modelo alimentar de Fast Food, mas abrange toda complexidade do sistema alimentar), que me trouxe à tona, direta ou indiretamente, uma série de questões como a agrobiodiversidade, o uso intensivo de agrotóxicos na alimentação, a má distribuição de alimentos, segurança alimentar e nutricional, cultivos tradicionais e sua progressiva extinção, comércio justo, economia solidária, produção e consumo local e principalmente, agroecologia.

Atualmente estou tentando organizar melhor as ideias relativas ao alimento, este que se tornou um assunto bastante prioritário para mim. Biologicamente pode-se dizer que alimentação e reprodução são os dois comportamentos mais importantes de um animal como nós.
Compreender como modelamos o nosso complexo sistema alimentar é uma forma também de entendermos melhor a nós mesmos, como espécie, como populações, como indivíduos.
Entender um pouco melhor as tecnologias mais utilizadas na produção industrial, seus propósitos, seus impactos nocivos e alternativas produtivas serão os pontos que mais pretendo abranger.

Que este seja apenas o recomeço.

3 de janeiro de 2013

links agroecologicos


The Achievements of Cuba’s “Ecological Agriculture”
by Miguel A. Altieri and Fernando R. Funes-Monzote
When Cuba faced the shock of lost trade relations with the Soviet Bloc in the early 1990s, food production initially collapsed due to the loss of imported fertilizers, pesticides, tractors, parts, and petroleum. The situation was so bad that Cuba posted the worst growth in per capita food production in all of Latin America and the Caribbean. But the island rapidly re-oriented its agriculture to depend less on imported synthetic chemical inputs, and became a world-class case of ecological agriculture.
(...)
 
The possibility of Agroecology in Supporting the world Meals Technique 
by david_m
Today's agricultural technique is never sustainable any more. At present, were relatively bound to around the world output model, that happen to be leading to you numerous fees, due to the fact plant range is quickly degrading.
Not long ago, there’s a desire to come up with brand-new universal meal procedure. Numerous globally agricultural types are usually advising a resurgence of Agroecology. Additionally the particular golden ticket involving liberty with the envisioned anger but it really has possibilities that will answer some inquiries put their hands up using this new foods catastrophe.
(...)

2 de outubro de 2012

soil to sky

Vejam este belíssimo infográfico comparando a produção industrial de alimento vs. agroecologia.
A imagem foi retirada daqui
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