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23 de julho de 2013

Projeto tenta salvar da extinção alimentos que saíram de moda


post originalmente publicado em uol agronegócio, de Janice Kiss

[Há sete anos, Nuno Madeira, pesquisador da Embrapa Hortaliças, em Brasília, se dedica a recuperar alimentos que se perderam no tempo. Cará-moela, peixinho (ou lambari da horta), capuchinha, taioba, vinagreira, mangarito e ora-pro-nóbis estão entre as 40 espécies que compõem um projeto de preservação coordenado por ele.
Madeira comenta que a empresa, na época, decidiu fortalecer uma espécie de acervo que garante a manutenção de plantas importantes para o país.  "Nesse momento descobrimos que muitas hortaliças e raízes do passado não estavam contempladas", informa.
Segundo o pesquisador, esses alimentos são importantes para pequenos produtores e comunidades de diferentes regiões do país mesmo que não sejam mais encontrados como antigamente.
Conforme a Agência para Agricultura e Alimentação da ONU (FAO)  houve uma redução (de 10 mil para 170) do número de plantas comestíveis e usadas pelo homem nos últimos cem anos. Elas foram trocadas por outras de alta produtividade.
O próprio pesquisador começou a colaborar com a recomposição do acervo da Embrapa a partir de algumas plantas do quintal da própria casa. Madeira sempre teve interesse por essas "hortas antigas" desde quando era estudante de agronomia.
"São plantas rústicas que produzem bem em qualquer lugar e de forma quase espontânea", informa.
As mudas provenientes dos canteiros da Embrapa vão abastecer outros projetos semelhantes no país. Um deles pertence ao Polo Regional da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba. Uma área de 2.000 metros quadrados abriga 20 tipos de hortaliça classificadas como "não convencionais".
"Elas correm o risco de desaparecer por terem sido substituídas por outras de maior escala e que se tornaram comuns em nossas mesas", afirma a pesquisadora Cristina Maria de Castro.
A engenheira agrônoma afirma que esses alimentos jamais estarão em quantidade nos supermercados. "Nem por isso precisamos abrir mão deles", diz. O projeto da Apta atende os pequenos produtores na região de Pindamonhangaba.

A nutricionista que preserva alimentos que se perderam no tempo

A nutricionista Neide Rigo tem o hábito de andar por São Paulo sempre de olho em ervas e hortaliças que podem ser encontradas por cantos de praças e parques da capital. Por meio da coleta delas, Neide formou canteiros de hortaliças "não convencionais" em sua casa.
"Uns crescem plantados, outros largados e alguns de teimosos", diz.  É num pequeno espaço que Rigo colhe ora-pro-nóbis, mangarito e cará-do-ar. Tem também capiçoba (folha similar ao espinafre), jambu (a erva amazonense que amortece de leve os lábios), e sementes de vários lugares.
"Tenho um interesse histórico por alimentos, e por isso eles nunca perdem a importância para mim", diz.
Por resgatar alimentos à beira da extinção, Neide Rigo já contribuiu com o restabelecimento de alguns deles pelo país. Ela mandou para a região de Garanhuns, em Pernambuco, um tipo de melão (o cruá) que estava desaparecido por lá. Uma outra vez, recebeu de um produtor um punhado de farinha de araruta, que anda sumida do mercado.
Segundo ela, o que mais se encontra é o amido (fécula) de mandioca sendo vendido no lugar da outra. "Quem conhece sabe que os biscoitos de araruta são mais leves e branquinhos", afirma.
A dedicação aos alimentos quase desaparecidos levou a nutricionista a participar da Arca do Gosto, braço do movimento internacional Slow Food, que prega a recuperação da tradição de alguns produtos em seus respectivos países.]

30 de maio de 2013

O alimento e sua centralidade

Faz muito tempo que não escrevo um post de verdade neste blógue.

Muita coisa importante tem sido deixado de ser dito por minha negligência, mas acho que agora é hora de retomar este hábito.

Sempre me impressionei com o potencial humano para coisas bacanas assim como pra coisas catastróficas. Comecei este blógue principalmente para divulgar assuntos relacionados com animais que convivem com o homem (sejam em ambientes naturais ou modificados pelo homem), assim como sua ecologia e comportamento.

Teve até uma época que queria estudar profundamente a ecologia de ratos de esgoto no ambiente urbano de São Paulo, mas por falta de quem me orientasse nesse tipo de estudo, acabei desistindo.

Comecei um mestrado na USP, no programa de Neurociências e Comportamento, no Instituto de Psicologia, estudando a ecologia comportamental da pomba-amargosa, uma famosa ave-praga que fazia ninhos nos enormes canaviais (que mimetizavam a vegetação espinhosa da caatinga) e tinha enorme fartura de alimento ao explorar os grãos de cultivos adjacentes. Os grãos eram provenientes da ineficiência do maquinário agrícola, que chegava a desperdiçar 30% do que produzia. Essas populações da amargosinha (como também é chamada a ave Zenaida auriculata) encontrava condições que só encontra em agroecossistemas, em que os fatores abrigo, alimento e água a permitiam manter superpopulações (colônias) reprodutivas.

*leia mais sobre esta ave em dois posts que escrevi há muito tempo atrás [parte 1 e parte2]


Acabei por abandonar este mestrado por uma série de motivos que não cabe aqui dizer. Mas antes aprendi uma série de coisas importantes, assim como comecei a minha busca por alternativas produtivas.

Foi nessa busca que conheci o movimento Slow Food (que em princípio é uma contraposição ao modelo alimentar de Fast Food, mas abrange toda complexidade do sistema alimentar), que me trouxe à tona, direta ou indiretamente, uma série de questões como a agrobiodiversidade, o uso intensivo de agrotóxicos na alimentação, a má distribuição de alimentos, segurança alimentar e nutricional, cultivos tradicionais e sua progressiva extinção, comércio justo, economia solidária, produção e consumo local e principalmente, agroecologia.

Atualmente estou tentando organizar melhor as ideias relativas ao alimento, este que se tornou um assunto bastante prioritário para mim. Biologicamente pode-se dizer que alimentação e reprodução são os dois comportamentos mais importantes de um animal como nós.
Compreender como modelamos o nosso complexo sistema alimentar é uma forma também de entendermos melhor a nós mesmos, como espécie, como populações, como indivíduos.
Entender um pouco melhor as tecnologias mais utilizadas na produção industrial, seus propósitos, seus impactos nocivos e alternativas produtivas serão os pontos que mais pretendo abranger.

Que este seja apenas o recomeço.