26.2.09

bioindicando rastro antropogênico

os bioindicadores, como o nome sugere servem pra indicar a qualidade do ambiente através de manifestações que ocorrem nos seres vivos, essa técnica pode ser desenvolvida em qualquer ambiente desde que utilizada espécies apropriadas para o que se deseja. por exemplo, predadores de topo de cadeia são particularmente bons para indicar bioacúmulo.
a presença de certas espécies pode indicar boa ou má qualidade de determinado ambiente, pois indica que ali apresenta condições ótimas para sua presença.
isso nos permite avaliar as modificações que geralmente provêem do antropismo.

segundo um artigo da folha, o biólogo marcos césar de oliveira santos (o qual é professor da unesp de rio claro e que há alguns anos dava um mini-curso de cetáceos pelo io da usp) associou a manifestação de micose em botos no norte do paraná (que apresentam feridas de até 25 cm no dorso) à poluição do mar, que devido à proximidade com portos como o de santos (causadoras de poluição por óleo, águas de lastro contendo micróbios de origens longinquas), e da carcinicultura que ocorre por aquela região, manifesta em forma de feridas as consequências de uma água poluída.

ainda não se sabe a extensão e a gravidade deste problema, mas a falta de fiscalização por parte do ibama perpetua problemas como estes.
santos, que identificou este problema através de fotoidentificação, já havia publicado um trabalho anos antes indicando o potencial do boto como bioindicador, no qual encontrou acúmulo de ddt em camadas de gordura destes animais.

mas não é preciso nem sair de grandes centros urbanos pra ver potenciais bioindicadores de qualidade ambiental. na cidade é possível verificar níveis de poluição atmosférica utilizando animais que consideramos praga como roedores e pombos.
pode-se analisar níveis de acúmulo de substâncias como os metais pesados - provenientes principalmente de escapamentos de carros -, que é um alimento altamente tóxico para os predadores de roedores (isto inclui gatos domésticos) e de pombos (como aves de rapina), podendo até matá-los por intoxicação.
este problema de bioacúmulo também ocorre no controle químico inapropriado de populações de pragas, pois espécies não-alvo podem ser prejudicadas por envenenamento secundário, que é o que ocorre na prática quando um animal preda esses que acumulam substancias nocivas.

além de acumular metais pesados, nos roedores pelo menos, ocorrem modificações na formação de espermatozóides, que se apresentam em padrões bizarros. o espermatozóide normal de rato é como este aqui abaixo:

espermatozóides saudáveis de ratos - fonte

o espermatozóide saudável apresenta este gancho na ponta, mas as alterações podem chegar em níveis em que o gancho some, ou a cabeça do espermatozóide fica totalmente redonda ou triangular, além disso pode se transformar em uma célula sem forma, sem ao menos apresentar a cauda, ou mesmo com a cauda enrolada no corpo celular. um animal deste com certeza apresentaria dificuldades de se procriar, e se conseguir provavelmente tenha filhotes bastante alterados fisicamente.
a questão na verdade nem é tanto o efeito no potencial de reprodução, mas no risco genético que o ambiente apresenta direta (pelo contato com o ambiente) ou indiretamente (pela predação destes animais) e a partir disto, obviamente, podemos inferir que nós também sofremos tais alterações (pelo menos as diretas) em maior ou menor grau.

aliás, há várias doenças relacionadas à qualidade ambiental, sendo as mais comuns, doenças principalmente respiratórias, cardiovasculares e cânceres potencializadas pela poluição do ar, proveniente de veículos e indústrias.

desvairo visual da paulicéia num dia sem chuva - fonte

mais uma vez podemos inserir aquele discurso que sai do ambito do ecochato e passa a ser um alerta real de saúde pública para repensarmos nosso estilo de vida, utilizando mais racionalmente os meios de transporte, a fim de respirar menos fumaça e mais ar limpo (ou no caso de sampa, um ar menos sujo)


fontes consultadas:
- doença de boto revela poluição do mar, via ambiente brasil
- trabalhos de mauro cristaldi com estudo de roedores como bioindicadores de poluição urbana na itália

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