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23 de junho de 2010

dica de site - isso não é normal

isso não é normal é um site sobre a cidade de sampa.
sobre os diversos problemas que  paulistano enfrenta.
tudo fruto de descasos históricos que foram plantados ao longo do tempo e que agora colhemos.
é uma rica fonte sobre poluição, urbanização, lixo, rios, pessoas, lugares, tudo bem ilustrado em fotos e infográficos bonitos.

como é definido no próprio site,

Este site é uma tentativa de discutir como poderíamos mudar o modelo urbano de São Paulo para resistir da melhor maneira possível às mudanças climáticas que já estão alterando nossas vidas. É também uma discussão sobre como melhorar a vida na cidade.
vale a pena dar uma olhada

31 de julho de 2009

vacina do cão

em minha opinião pessoal, o cão é um dos sinantrópicos mais notáveis.
como dono de duas cadelas, sou a favor da posse responsável de animais, prezando o bem-estar físico e psicológico deles.
para isto, uma das vacinas periódicas essenciais é a anti-rábica.
pra ter bastante adeptos, a campanha de vacinação da prefeitura de são paulo aproveita a antiga crendice de que o mês de agosto é o mês do cachorro louco. então a época de vacinação já está aí. ela ocorre no período de 03 a 16 de agosto.

se não vacinar, o bicho morde
foto tirada de worms and germs blog


v. pode levar seu gato ou cão para tomar esta vacina consultando a lista completa dos postos de vacinação (em pdf), que mesmo não sendo de fácil consulta, é útil. para mais informações e recomendações, consulte o site da COVISA(Coordenação de Vigilância em Saúde) ou ligue 156.

se não me engano, no tratado de animais silvestres, os autores dizem que a raiva é transmissível, e uma vez que ele começa a se desenvolver no hospedeiro mamífero, se torna incurável e (virtualmente)100% letal.

é bom lembrar que no ambiente urbano, as aglomerações populacionais apenas aumentam as possibilidades de contágio, por isso vacine seu cão. é uma questão não apenas de gostar dele, mas de saúde pública.

se v. ainda não tem seu cão, adote.

4 de junho de 2009

metal pesado nos jardins

não, isto não é sobre a divulgação de nenhum evento de metaleiros em praça pública.
aqui, o termo metal pesado se refere a metais tóxicos, no caso, As (arsênio), Ba(bário), Cr(cromo), Cu(cobre), Pb(chumbo), Sb(antimônio) e Zn(zinco). estes metais foram encontrados em diversos parques de São Paulo, por meio de um estudo sobre contaminação de metais nos solos dos parques da cidade¹.
a média das concentrações na cidade, é maior do que a mesma média para o estado, e em parques próximos a alto tráfego de veículos automotores, as concentrações de Cu, Pb e Zn eram mais elevadas.
a inalação da poeira proveniente do solo de parques e jardins públicos expostos a níveis significativos de poluentes, além da ingestão direta deste solo, tem efeitos tóxicos. crianças são mais sucetíveis aos efeitos adversos deste tipo de poluição, por dois motivos básicos: cuidados higiênicos e a fase do desenvolvimento (principalmente do sistema nervoso).
a região metropolitana de são paulo tem uma população estimada de 19 milhões de pessoas, e 7,8 milhões de automóveis circulando diariamente, sendo este a principal fonte de poluição na região. o crescimento desordenado da cidade causa uma ocupação caótica, na qual solo para agricultura e áreas de vegetação florestal foram dizimadas. neste cenário, os parques e jardins públicos tem grande importância no lazer da população local.

7 parques foram amostrados na capital: alfredo volpi (antiga fazenda de chá com significante remanescente da floresta atlântica); na região central, aclimação (área residencial), buenos aires, luz e trianon (áreas próximas a avenidas com alto tráfego de automóveis); ibirapuera (um dos maiores e mais visitados parques da cidade, na região sul); e raposo tavares (peculiar por ter sido construído sobre um aterro sanitário).
parque do ibirapuera, o maior e mais visitado de todos - foto

a amostra de solo coletado foi da parte superficial (0-5 cm de profundidade), sendo coletado a cada 10 metros, a fim de ter uma amostra representativa dos parques, os locais analisados foram principalmente os de recreação, como áreas de práticas de esportes e playgrounds. a superficialidade do solo amostrado abrange o estrato do solo que está em contato direto com os usuários destes locais.

para entender os níveis de poluição, foi utilizado o VRQ (Valor de referência de qualidade), da companhia de tecnologia de saneamento ambiental - CETESB², que indica as condições de um solo considerado limpo ou de águas subterrâneas em seu estado natural, constituindo uma base para os processos de avaliação dos riscos apresentados e de medidas de prevenção e controle a serem adotadas.
clique no link para consultar os valores orientadores para solos e para águas subterrâneas no Estado de São Paulo, a partir disso, são estabelecidos os seguintes valores:
valor de prevenção - VP é a concentração de determinada substância, acima da qual podem ocorrer alterações prejudiciais à qualidade do solo e da água subterrânea. Este valor indica a qualidade de um solo capaz de sustentar as suas funções primárias, protegendo-se os receptores ecológicos e a qualidade das águas subterrâneas. Foi determinado para o solo com base em ensaios com receptores ecológicos.
valor de intervenção - VI é a concentração de determinada substância no solo ou na água subterrânea acima da qual existem riscos potenciais, diretos ou indiretos, à saúde humana, considerado um cenário de exposição genérico. Para o solo, foram estabelecidos para cenários de exposição Agrícola-Área de Proteção Máxima - APMax, Residencial e Industrial.

um gráfico interessante e que resume muitas informações é este que segue abaixo.
este gráfico representa as concentrações nos locais amostrados (na ordem: ibirapuera, aclimação, buenos aires, alfredo volpi, luz, trianon, raposo tavares. seguido dos VRQ, VP e VIA-APMax), clique na imagem para vê-la ampliada.

um fato intrigante apontado pelo estudo é que concentrações de chumbo, elevado nos parques buenos aires, luz e trianon, não eram esperadas mesmo em regiões de intenso tráfego de automóveis, uma vez que combustível livre deste metal pesado existe no país desde 1983, mas o estudo ainda aponta a possibilidade de que essas emissões se devam a grande quantidade de carros velhos ainda em circulação. pessoalmente não entendo como isso é possível, uma vez que essa emissão deveria se relacionar ao combustível utilizado, e não ao carro. é provavel que a grande concentração deste metal se deva a um outro fator apontado no estudo: a baixa mobilidade (e consequente acúmulo) deste metal, associado ao fato destes serem os parques mais antigos da cidade.

"os resultados do estudo indicam que solos de parques públicos da são paulo apresentam concentrações de As, Ba, Cr, Cu, Pb, Sb e Zn mais altos do que os valores de referência para o estado, reportados pela CETESB. Exceto no parque alfredo volpi, As, Ba, Cr, Sb e Zn apresentaram níveis de concentrações próximo ou abaixo do VP. As concentrações mais altas de Cu, Zn e Pb foram obtidas nos parques localizados próximos a avenidas com grande tráfego de carros, caminhões e ônibus, sugerindo que estes três metais originam de emissões veiculares. as concentrações mais altas obtidas sugerem que o potencial dano à qualidade do solo pode afetar a saúde humana."

só para fins ilustrativos, fiz aqui uma lista de potenciais danos a saude que cada um destes metais tóxicos podem causar(via wikipedia).

As. utilizado para vários fins clínicos, porém já foi utilizada como arma química, altamente concentrada, devido a fatores vesicantes (que formam lesões cutâneas em forma de bolhas) e causador de irritação pulmonar. utilizado na formulação de inseticida e herbicidas. fisiologicamente afeta a síntese de ATP, além de aumentar a produtividade de peróxido de oxigênio (água oxigenada para os mais leigos), causando estresse oxidativo. estas interferências metabólicas podem levar a falência múltipla dos órgãos, morte celular necrótica, além de hemorragia severa.

Ba. em doses baixas funciona como um estimulante muscular, e em altas doses, afeta o sistema nervoso (bloqueando canais iônicos de potássio), causando irregularidades cardíacas, tremores, fraqueza, ansiedade, dispnéia e paralisia.

Cr. o cromo trivalente é necessário ao metabolismo normal de açúcar e lipídios, sua versão hexavalente no entanto apresenta potencial mutagênico se inalado, o contato deste último com a pele pode causar dermatite.

Cu. essencial a qualquer planta ou animal. a toxicidade do cobre é associada a utilização de materiais de cozinha feitos deste metal, o qual pode causa cirrose em crianças com certas anomalias genéticas. num corpo humano normal, o metal transita livremente, sendo excretado, não havendo relatos de complicações clínicas em pessoas sadias.

Pb. o chumbo é tóxico se ingerido ou inalado, podendo afetar todos os órgãos e tecidos, causa principalmente lesões neuronais e sanguíneas. as lesões neuronais podem levar a déficits cognitivos em crianças (mais facilmente) e adultos. altas concentrações do metal também é associado a puberdade tardia em meninas, além de comprometer a capacidade reprodutiva de mulheres.

Sb. em pequenas doses, o antimônio causa cefaléias, vertigem e depressão; em doses altas, vômitos violentos e frequentes,podendo levar a morte em poucos dias. a intoxicação é semelhante ao do arsênio.

Zn. o zinco apesar de necessário, pode, em altas dosagens, suprimir a absorção de ferro e cobre. o íon livre de zinco é extremamente tóxico para diversos invertebrados e inclusive alguns peixes, sendo concentrações micromolares suficientes para matar alguns organismos.

dica do harry (pança)

¹Figueiredo AMG, Enzweiler J, Camargo SP, Sigolo JB, Gumiero FC, Pavese AC, Milian FM, 2009. Metal contamination in urban park soils of São Paulo. Journal of Radioanalytical and Nuclear Chemistry, 280(2):419-425.
² site da CETESB, para mais informações sobre os valores orientadores para solo e água subterrânea, clique aqui

30 de maio de 2009

ar roto outonal

sinal alemão de trânsito: tráfego não permitido devido a smog

nesta semana que passou, tivemos uma névoa constante na cidade de São Paulo por (pelo menos) três dias seguidos, mesmo com chuvas nestes mesmos dias, hoje já faz uns dois dias que essa névoa se ausenta.
não sei qual a natureza dessa névoa, talvez um smogG...
numa rápida busca, não encontrei nenhuma informação que procurava, nenhuma notícia a respeito, nenhum blógue comentando...
acho que as pessoas já encaram isso de forma banalizada, uma trivialidade qualquer de uma pessoa preocupada com o ar que entra nos próprios pulmões. a única coisa que anunciam é o trânsito recorde e coisas do tipo, acho que isso resume um pouco as preocupações humanas atuais: tudo o que importam são os fatos, nem tanto as causas, tampouco suas consequências.

espero que o inverno seja mais ameno neste aspecto

G
smog(wikipedia): (smoke+fog) smog fotoquímico é tipo moderno mais comum de smog devido à poluição e é causada pela atividade antrópica, principalmente o trânsito das grandes cidades. esta reação com a luz solar origina diversas substâncias nocivas como óxidos de nitrogênio (NOx), compostos orgânicos voláteis (COVs), ozônio troposférico (ao nível do solo), nitratos de peroxiacil e aldeídos.

29 de março de 2009

é sempre lua cheia na cidade

ontem rolou a hora do planeta, promovida mundialmente pela wwf, esta foi a primeira participação da wwf tupiniquim neste evento.
segundo o site do wwf-br, o evento é um "ato simbólico (...) para demonstrar preocupação com o aquecimento global".
na paulicéia, os seguintes estabelecimentos/locais participaram oficialmente: ponte estaiada, monumento às bandeiras,viaduto do chá,estádio do pacaembu, teatro municipal, obelisco, parque do ibirapuera, fonte do parque independência, instituto butantan, museu de arte moderna, edifício copan, world trade center, sheraton hotel e sede da vivo.

apesar de alguns eventos terem sido promovidos aproveitando a pouca escuridão que se obtinha, muito provavelmente a maioria das pessoas que não tivesse conhecimento do evento, apenas estranhasse que alguns pontos estivessem menos iluminados que o normal.

por ser simbólico, muitas pessoas devem ter acendido velas por aí, para não iluminar, mas talvez parafina de velas seja bem mais poluentes que watts gastos eletricamente.

apesar do blecaute bem parcial da cidade ter sido em protesto aos danos indiretos da iluminação, aqui neste post falarei exatamente dos danos diretos que causamos com a iluminação.

poluição luminosa

a national geographic deste mês trouxe de brinde a edição de nov/08 em que a reportagem de capa era "o fim da noite", a matéria é escrita por verlyn klinkenborg, e logo de cara ele cita um fato evolutivo crucial pra existência de tanta luz: "se os seres humanos se sentissem de fato à vontade sob a luz da lua e das estrelas, atravessaríamos contentes a escuridão com o mundo da meia-noite tão visível para nós quanto ele é para um vasto número de espécies noturnas". o fato é esse mesmo, evoluímos de bichos diurnos e acendemos luzes para nos sentir mais a vontade.

a preocupação com a poluição luminosa começou devido às observações astronômicas, mas atualmente percebemos que o buraco é bem mais embaixo. boa parte da iluminação não é aproveitada onde deveria, pois a luz vaza para cima e para os lados, onde a iluminação pública não é útil para pessoas, que estão andando num nível abaixo dos postes.

acho que todos conhecem o fato de insetos se aglomerarem em fontes de luz, voando em torno de lâmpadas e holofotes. os fatores específicos que explicam este comportamento errático é bem complexo, envolvendo diversos efeitos, mas basicamente o que ocorre é que muitos animais se orientam a noite pela luz da lua, mas a invenção da luz gerou uma infinidade de fontes de luz tão ou mais fortes que o luar, desorientando tais animais.
a maioria destes animais ficam voando até a exaustão, quando, então, caem e morrem.

aquilo que popularmente chamamos de relógio biológico (e tecnicamente por relógio/ciclo/ritmo circadiano), que é responsável por respostas fisiológicas e comportamentais de acordo com as diversas situações que o ambiente proporciona, é também responsável por diversos aspectos do funcionamento normal do corpo, como ciclo sono/vigília, ciclos hormonais, atividades neurais, oscilações térmicas e tantas outras periodicidades que ocorrem em nosso corpo ao longo das 24h diárias. a iluminação gera alterações relevantes no funcionamento adequado, podendo levar a distúrbios como os de sono e até aumentar tendências a cânceres.

alterações desses ciclos obviamente ocorrem nos outros animais que também sejam expostos à luz. um dos casos que mais bem ilustra a gravidade da iluminação na fauna é o das tartarugas. as fêmeas de tartarugas fazem a desova em praias escuras, nos quais os filhotes, assim que eclodem, podem se orientar pelo luar, indo em direção ao mar. em áreas urbanas litorâneas, a luz da cidade confunde o bicho, e a luz, que é o gatilho biológico da tartaruga recém-nascida, a faz rumar para a cidade, lá são expostas a diversos perigos, desde carros, pessoas desatentas, animais domésticos, predadores oportunistas, e a morte por exaustão.

outro exemplo bem interessante são dos vagalumes, que necessitam da bioluminescência para a reprodução. mas sendo a iluminação artificial mais clara que a bioluminescência, estes animais não conseguem se comunicar eficazmente, reduzindo consideravelmente suas populações, podendo levá-las a extinção.

adaptações simples que evitem o vazamento da luz são possíveis, talvez tornando a poluição a luminosa o tipo de poluição mais fácil de remediar. bastando um desenho que otimize a luz para baixo.
toronto, canadá

em cidades superedificadas, os prédios iluminados a noite se tornam verdadeiros labirintos de luz. grupos como o flap (fatal light awareness program), programa de alerta para a luz fatal em inglês, tentam conscientizar e minimizar ameaças a aves que o meio urbano propicia. o flap estima que apenas na américa do norte, pelo menos 100 milhões de aves morram todos os anos em colisões com edifícios.

av. paulista

se compararmos a cidade de são paulo com grandes cidades do hemisfério norte, provavelmente não teremos tantos prédios altos (um skyline grandioso de prédios altíssimos de mais de 50 ou mais andares), tão comuns naqueles cantos do mundo, e provavelmente o impacto aqui seja menor, mas nenhum estudo do tipo jamais foi executado por essas bandas, sendo uma lacuna bem interessante que provavelmente ainda ficará aberta por um bom tempo.

uma das coisas que urbanização traz consigo é a fauna sinúrbica, animais especializados e adaptados ao meio urbano. morcegos que se especilizam em predar insetos sob luzes públicas é uma delas. e quando isto é novidade em algum lugar, estes animais provavelmente substituam a fauna original, reduzindo e até eventualmente extinguindo uma espécie do local. este se torna mais um tipo de invasão biológica promovida pelo homem e todo progresso urbano que levamos conosco, é nocivo a tantas outras formas de vida nativas.

efeitos de pilares de luz, devido ao reflexo de luz artificial
em locais bem gelados, para mais fotos, clique aqui


dentre tantos fenômenos belos como os pilares de luz (como na foto acima) ou catastróficos como a morte de milhões de animais, uma coisa é certa, a luz artificial noturna, como qualquer outra coisa, deve ser utilizada com moderação, caso contrário, poderemos ser nós quem veremos e viveremos as piores consequências de se adequar o ambiente que vivemos ao nosso bel prazer (e conforto), alterando tantos ciclos (circadianos e ultradianos), em tantas espécies (não apenas animais), que por milhões de anos permaneceram iguais, e que aos poucos a cronobiologia desvenda.

links relacionados
- ecological consequences of artificial night lighting - ucla institute of the environment and the urban wildlands group
- network features of the mammalian circadian clock - julie e. baggs, tom s. price, luciano di tacchio, satchidananda panda, garret a. fitzgerald, john b. hogenesch - plos biology (2009)
- of owls, larks and alarm clocks - melissa lee phillips, nature (2009)

26 de fevereiro de 2009

bioindicando rastro antropogênico

os bioindicadores, como o nome sugere servem pra indicar a qualidade do ambiente através de manifestações que ocorrem nos seres vivos, essa técnica pode ser desenvolvida em qualquer ambiente desde que utilizada espécies apropriadas para o que se deseja. por exemplo, predadores de topo de cadeia são particularmente bons para indicar bioacúmulo.
a presença de certas espécies pode indicar boa ou má qualidade de determinado ambiente, pois indica que ali apresenta condições ótimas para sua presença.
isso nos permite avaliar as modificações que geralmente provêem do antropismo.

segundo um artigo da folha, o biólogo marcos césar de oliveira santos (o qual é professor da unesp de rio claro e que há alguns anos dava um mini-curso de cetáceos pelo io da usp) associou a manifestação de micose em botos no norte do paraná (que apresentam feridas de até 25 cm no dorso) à poluição do mar, que devido à proximidade com portos como o de santos (causadoras de poluição por óleo, águas de lastro contendo micróbios de origens longinquas), e da carcinicultura que ocorre por aquela região, manifesta em forma de feridas as consequências de uma água poluída.

ainda não se sabe a extensão e a gravidade deste problema, mas a falta de fiscalização por parte do ibama perpetua problemas como estes.
santos, que identificou este problema através de fotoidentificação, já havia publicado um trabalho anos antes indicando o potencial do boto como bioindicador, no qual encontrou acúmulo de ddt em camadas de gordura destes animais.

mas não é preciso nem sair de grandes centros urbanos pra ver potenciais bioindicadores de qualidade ambiental. na cidade é possível verificar níveis de poluição atmosférica utilizando animais que consideramos praga como roedores e pombos.
pode-se analisar níveis de acúmulo de substâncias como os metais pesados - provenientes principalmente de escapamentos de carros -, que é um alimento altamente tóxico para os predadores de roedores (isto inclui gatos domésticos) e de pombos (como aves de rapina), podendo até matá-los por intoxicação.
este problema de bioacúmulo também ocorre no controle químico inapropriado de populações de pragas, pois espécies não-alvo podem ser prejudicadas por envenenamento secundário, que é o que ocorre na prática quando um animal preda esses que acumulam substancias nocivas.

além de acumular metais pesados, nos roedores pelo menos, ocorrem modificações na formação de espermatozóides, que se apresentam em padrões bizarros. o espermatozóide normal de rato é como este aqui abaixo:

espermatozóides saudáveis de ratos - fonte

o espermatozóide saudável apresenta este gancho na ponta, mas as alterações podem chegar em níveis em que o gancho some, ou a cabeça do espermatozóide fica totalmente redonda ou triangular, além disso pode se transformar em uma célula sem forma, sem ao menos apresentar a cauda, ou mesmo com a cauda enrolada no corpo celular. um animal deste com certeza apresentaria dificuldades de se procriar, e se conseguir provavelmente tenha filhotes bastante alterados fisicamente.
a questão na verdade nem é tanto o efeito no potencial de reprodução, mas no risco genético que o ambiente apresenta direta (pelo contato com o ambiente) ou indiretamente (pela predação destes animais) e a partir disto, obviamente, podemos inferir que nós também sofremos tais alterações (pelo menos as diretas) em maior ou menor grau.

aliás, há várias doenças relacionadas à qualidade ambiental, sendo as mais comuns, doenças principalmente respiratórias, cardiovasculares e cânceres potencializadas pela poluição do ar, proveniente de veículos e indústrias.

desvairo visual da paulicéia num dia sem chuva - fonte

mais uma vez podemos inserir aquele discurso que sai do ambito do ecochato e passa a ser um alerta real de saúde pública para repensarmos nosso estilo de vida, utilizando mais racionalmente os meios de transporte, a fim de respirar menos fumaça e mais ar limpo (ou no caso de sampa, um ar menos sujo)


fontes consultadas:
- doença de boto revela poluição do mar, via ambiente brasil
- trabalhos de mauro cristaldi com estudo de roedores como bioindicadores de poluição urbana na itália

15 de fevereiro de 2009

contextualizando o verde

o homem tem tentado minimizar o impacto que gera sobre o meio ambiente, e assim tem gerado diversas idéias frutíferas em relação ocupações mais inteligentes, que gastem menos recursos, que aumente a qualidade de vida, etc. e que em última instância significa menor gasto econômico - a única forma de realmente convencer as pessoas.

neste contexto uma idéia pelo qual fiquei muito intrigado é o high line public park project, que já está em andamento. a idéia é colonizar, com plantas, uma rodovia elevada abandonada em nova iorque - desembocando em plena manhattan -, numa extensão de 1,5 milhas, que significa pouco mais de 2,4 km.


a idéia é aproveitar os diversos microclimas urbanos que há ao longo dessa rodovia - áreas ensolaradas, sombreadas, úmidas, secas, com vento e espaços com abrigos -, variando desde áreas 100% pavimentadas a 100% vegetacional. várias partes receberão um substrato que incentiva a colonização pelas plantas emergentes - como se fossem rachaduras na calçadas em que nascem grama. tudo isso associando o melhor da agricultura com a arquitetura, conceito chamado de agritecture.


acesse o link abaixo para mais imagens

via designboom

12 de fevereiro de 2009

memorial do rio tietê

este fim de semana estive em salto, e tive a oportunidade de conhecer o memorial do rio tietê.
antes de mais nada a visão é fantástica! é possível ver a força daquele rio, que apesar de todos os maus-tratos, persiste.
o cheiro daquele lugar é inesquecível, confesso que é o cheiro mais esquisito que já senti na minha vida. uma sensação intensa de asco por saber que aquele ar vai entrar no seu corpo.
boa parte, provavelmente seja devido a eucatex, empresa do maluf.
apesar de ultimamente não se ter notícias de espumas que tomam a cidade devido à poluição do rio, ele continua sujo e fedido.
rio tietê "ataca" a cidade de salto com espumas - fonte

infelizmente estava sem minha câmera para mostrar uma imagem atual, mas no geral tem o cheiro mais esquisito do mundo, com vários lixos nas margens, sob a ponte pênsil. lixo que varia de garrafas pet e até bolas de futebol. é bastante chocante e triste ver tudo aquilo boiando.
mas esse tipo de sujeira é "de menos", apesar de esteticamente desagradável poderia ser resolvido com uma rede ou coisa do tipo que retivesse os objetos.
aquilo que é invisível aos olhos ainda é o mais nocivo e inacessível ao grande público, apenas ficamos sabendo que é inapropriado para consumo, mas uma coisa dessas não precisa ser dita por ninguém para sabermos.

a visita ao memorial vale por todos os aspectos, pela beleza do rio, pelo descaso que temos com os rios (não apenas o tietê) pela educação ambiental, pela vegetação no entorno e para sentir aquele cheiro asqueroso.

2 de dezembro de 2008

estorvinhos e o ebm

roma é conhecido por alguns aspectos da fauna sinantrópica, devido a grandes populações lá existentes. há diversos estudos que abordam a biologia de animais como gatos (Felis catus), roedores comensais (Rattus rattus, R. norvegicus e Mus musculus). e diversos são os problemas relacionados com explosões populacionais dessas espécies necessitando para cada caso, medidas de manejo apropriadas, levando-se em conta a ecologia do animal para que medidas de manejo sejam mais efetivas.

foto retirada do site da bbc

roma também é palco para a chegada de estorninhos (aves do gênero Sturnus sp), que vão para lá passar as férias de o inverno. a presença desses animais pode ser um espetáculo visual - o qual ainda não presenciei - e dizem que o barulho que fazem também é bem alto. mas o que mais preocupa os moradores da cidade eterna são as fezes destes animais, que aos milhões podem causar danos consideráveis em estruturas como edificações e monumentos.

para agravar o problema, neste ano a chegada dos estorninhos bateu o recorde com cerca de 5 milhões de estorvinhos estorninhos na cidade, segundo site da bbc.

a medida de manejo adotada pela prefeitura está sendo a utilização de playbacks do que chamamos de distress calls. tais chamados são vocalizações de animais em perigo extremo, que geralmente remete a situações de sofrimento do animal.
o playback é a simulação de informação que faz com que o animal ache que há um indivíduo que realmente esteja executando tal comportamento.
o caso de utilizar o distress call é para assustar outros indivíduos para que eles vejam o local como não sendo seguro para se abrigar.

como ocorre para qualquer animal passível de manejo, é questão de tempo para que esta ação perca sua efetividade, a não ser que seja alternada com outras medidas, compondo um manejo baseado no ecossistema (ebm, na sigla em inglês para ecosystem-based management, sob mesma sigla é possével encontrar o termo ecologically-based management - manejo ecologicamente baseado -, ainda não sei se é a mesma coisa, mas aparentemente sim, caso não seja, me corrigirei assim que descobrir)

apesar de apenas recentemente esta idéia ter ganhado força (algo em torno de 15 a 20 anos), ela não é nova, e remete ao the ecosystem concept in natural resouce management, de van dyne (1969).

essa é a melhor forma encontrada pela ciência para manejar os bichos que vivem conosco, tratando-os da melhor forma possível, para que não sejam danosos entre eles, e principalmente para não serem danoso para nós.

nenhuma espécie deveria ser um estorvo para nós, mas se não soubemos como usufruir o que a natureza oferece, uma hora isto volta contra nós.

fonte consultada
- milhões de estorninhos invadem roma - site da bbc

1 de dezembro de 2008

fauna doméstica

caso v. tenha um jardim já se perguntou que animais vive nele?
não apenas um provavel animal domesticado, mas a fauna selvagem que nele vive.
e se v. acha que precisa de muito mato pra encontrar essa fauna, se engana.
a fauna urbana é bem menos valorizada do que deveria, como se a cidade não constituísse um ecossitema de verdade. pois bem, a cidade é um ecossistema de verdade, muito complexo, muito dinâmico, e onde boa parte da nossa própria espécie vive. ah, e claro, conhecemos muito pouco sobre tudo isso.

em casa as vezes encontro alguns artópodos (insetos, aracnídeos, quilópodos) vagando por aí, mas os mais fáceis de serem visualizados são as aves como rolinhas (Columbina talpacoti), avoantes (Zenaida auriculata) , sabiás-laranjeiras (Turdus rufiventris), bem-te-vis (Pitangus sulphuratus), bicos-de-lacre (Estrilda astrild), entre outros - principalmente passeriformes (popularmente conhecidos simplesmente como pássaros).
e neste fim-de-semana, tive a oportunidade de encontrar um ninho (ainda não sei do quê), na dama-da-noite (Cestrum nocturnum) que tem aqui no quintal.


foto superior: visão geral do ninho
foto inferior: visão de cima do ninho

um ninho é uma estrutura muito bem acabada, é o lugar onde são chocados os ovos e criados os filhotes, e apesar de nunca mencionado, é uma coisa utilizado quase exclusivamente para estes fins - não sei porquê, mas eu só descobri depois de conversar com ornitólogos, e nunca encontrei nada na literatura ornitológica que diga isso -; os ninhos podem ser utilizados na próxima estação reprodutiva ou não. e possivelmente é utilizado por outras espécies oportunistas.

nas cidades os ninhos podem conter materiais antropogênicos, como plásticos, aliás se v. observar a 1ª foto ampliada verá uns fios de sacos plásticos utilizados no ninho.

e o mais legal é que estes animais se associam ao homem, por isso, antes de serem simplesmente urbanóides, são essencialmente sinantrópicos, pois damos oportunidades a estes animais incríveis.
tais oportunidades são tecnicamente o aumento da capacidade suporte*.

e assim a vida selvagem sobrevive na cidade.

glossário
*capacidade suporte é a medida que mensura o tamanho populacional suportado por determinado ambiente. animais muito exigentes (de hábitos especializados) se dão mal num ecossistema urbano, por outro lado os menos exigentes (de hábitos oportunistas e generalistas como os próprios humanos) se dão muito bem por se associarem aos nossos hábitos - principalmente pela facilidade de abrigo e alimento.

11 de novembro de 2008

marcas, rastros e criatividade sem fim

qualquer animal deixa um rastro onde quer que ele vá.
o homem não é diferente, mas ele faz por motivos diferentes.

vou falar de arte, mais uma vez.
a arte, atualmente, não tem muito valor biológico.

a princípio tudo que existe tem um valor biológico pra sua existência, uma função biológica. mas certas coisas podem ultrapassar essa função e adquirir outra função.
no caso da arte, acho que atingiu um patamar simplesmente lúdico, sendo possivelmente sexy pra um público bem restrito. mas no nível específico não tem muita função.

os rastros que deixamos podem ser involuntários ou voluntários.
no caso do homem, rastros involuntários são sempre utilizados pela perícia para descobrir o autor de um crime por exemplo. outros animais deixam rastros como pegadas, pêlos, penas ou mesmo excreções por onde passam, sendo muito importante no reconhecimento de espécies que possam habitar determinado ecossistema.

marcas voluntárias são geralmente visuais.
me vem mente apenas o caso de marcações territoriais, mas não necessariamente se restringe a esse caso. grandes felinos deixam marcas bem grandes em troncos de árvores demarcando uma marca visual e permanente.
talvez a arte gráfica do homem seja também pra determinar quem (pessoas ou grupos) frequenta um determinado local, e nesse sentido a arte gráfica mais genuína seria a arte de espaços públicos, conhecida como arte de rua.

estou dizendo tudo isso pra dizer de uma nova modalidade dessa arte, o urban knitting (algo como tricô urbano), no qual as pessoas tricotam, fazendo capas pra tudo quanto é objeto no meio urbano, desde árvores até placas. é como um grafite inócuo.

mais uma vez o homem se reinventa, mostrando que a criatividade não tem fim.

adoro ser(verbo) humano.

21 de agosto de 2008

a sinurbização e os ninhos

no post inaugural descrevi um processo de alguns animais habitarem cada vez mais os ambientes urbanos, e acabei não falando muito sobre o processo em si. vou fazer alguns posts, cada um abordando um "tema". neste, vou falar de ninhos.
ninhos como estes que vemos nas copas das árvores, em barrancos, em buracos, ou mesmo a casinha do seu cachorro.

para estrear essa seção, iniciarei com uma definição básica a respeito da sinurbização.
sinurbização é a tradução livre (feita por mim) do termo em inglês synurbization, que por sua vez é a junção de synanthropic com urbanization.
sinantrópico já disse o que é: que vive próximo ou em associação com o ser humano.
urbanização como todos já devem saber é o processo pelo qual se dá a ocupação de pessoas supostamente de forma organizada e planejada. supostamente, pois sabemos que a ocupação pode se dar de forma desorganizada e muito burra.
é claro que a burrice não é, necessariamente, das pessoas que ali moram. essas pessoas provavelmente nem tenham opções. a falta de opção leva a uma montanha (quase literal) de casas sem estrutura nem o mínimo de conforto que as pessoas deveriam ter.
a foto ilustra uma situação relativamente "confortável", se compararmos com situações muito piores das grandes cidades (à beira da marginal tietê por exemplo), no qual além da falta de estrutura, ainda há pelo menos poluições visuais, sonoras e do ar; isto sem considerar os altos índices de violência.
na verdade esta é muito mais uma questão socio-política que ecológica.

então voltemos a questão da sinurbização.

muitas vezes as pessoas não têm conforto em seus próprios lares apesar de todos quererem ter um lugar aconchegante. todos mesmo. aliás devido a esta busca incessante do bem-estar que muitos animais não conseguem conviver conosco. cada indivíduo apresenta necessidades próprias para estar bem consigo mesmo, alguns se contentam com um esgoto, outros não suportam uma determinada quantidade de toxinas na água que vivem. vai de cada um.
a sinurbização, como eu insinuei no outro post, é caracterizado por várias adaptações ecológicas e comportamentais. coisas interessantes e fáceis de se verificar.

aqui vou falar dos ninhos, e posteriormente abordarei outras coisas "bacanas" que forçamos os bichos a fazerem, pois criamos fortes pressões seletivas.

se v. já viu um ninho de alguma ave na cidade, provavelmente tenha visto materiais de origem humana, como plásticos e papéis.
fiz minha monografia com corujas buraqueiras dentro do campus da unesp, em rio claro, e encontrei materiais muito bizarros, desde placas ósseas, até pedaço de rabiola de pipa, bituca de cigarro, saquinhos de supermercado, papel alumínio, pedaços de isopor, dentre outras coisas.
esta foto é um belo exemplo de como pode ficar um buraco de coruja ecologicamente coerente (e não estou sendo irônico) num ambiente sinantrópico:


o acesso a esses materiais é relativamente fácil. basta olhar as calçadas das cidades ou nos lixos que descartamos e veremos muitos materiais que servem como isolantes térmicos - isso pra não falar dos alimentos contidos no lixo - e podem virar um ótimo material para confecção de ninhos.

a curiosidade é o que motiva muitos mamíferos e aves a experimentar coisas novas. quando um animal gosta de coisas novas dizemos que é neofilo (neo=novo + filo=amigo). somos o exemplo crasso de um animal neófilo. muitos humanos ficam maravilhados só de imaginar como seria viver outras coisas nem sempre possível. isso é possível graças a nossa capacidade de simbolizar. mas nem todos têm essa capacidade, pelo menos não nesse nível.
como tudo na personalidade de um animal, a neofilia não depende apenas da espécie a que pertence um ser, afinal a espécie indica algumas tendências, mas não que obrigatoriamente uma caracteristica vá se manifestar. depende, dentre outras coisas, do ambiente em que o indivíduo foi criado e cresceu. um animal que fique confinado a vida inteira num cubículo vai morrer de medo no caso de ser dada a opção de explorar um novo ambiente, enquanto animais que são criados de forma saudável podem apresentar um apetite a novas experiências sempre que lhe for dada a oportunidade.
aliás, nestas condições, quanto maior controle sobre o ambiente for dado a um animal, maior será o bem-estar dele.
é fácil espelhar isto em nossas vidas. quem não gostaria de uma vida sem regras? ou melhor, com nossas regras? quanto mais controle temos em nossas vidas, maior a satisfação que obtemos, alimenta a auto-estima e ficamos de bem com a vida.

animais neófilos também se adaptam mais rapidamente a novas condições ambientais, o que lhes conferem uma vantagem enorme num ambiente antropizado, uma vez que este muda constante e rapidamente.
esta característica, apesar disso, nem sempre é uma coisa boa. o camundongo (Mus musculus) é extremamente neófilo, o que o faz experimentar de tudo, inclusive iscas com veneno. o controle deste animal, como praga, se dá de forma muito mais fácil do que uma ratazana (Rattus norvegicus), pois este é neófobo, e não come qualquer coisa nova que apareça na sua frente. a verdade é que cada caso é um caso, e para isso é necessário o entendimento da bioecologia de cada espécie, afinal a ratazana também é muito bem adaptado ao ambiente sinantrópico.

a neofilia não só atua para a busca de materiais antropogênicos mas às vezes estruturas totalmente construídas por humanos são utilizadas como abrigo. o telhado da sua casa pode servir de casa para algum inquilino indesejado, seja um rato ou um morcego, uma ave ou mesmo um gato que encontrou uma fresta pra ali se alojar.
no caso dos animais domésticos é óbvio esta constatação.
há relatos de edificações que são utilizadas como abrigo por corujas. a suindara (Tyto alba) por exemplo tem entre outros nomes populares o de coruja-das-torres, ou coruja-de-igreja, pois comumente habita estruturas deste tipo no mundo todo.


modificar o habito de nidificação é apenas mais uma das facetas da plasticidade comportamental que os animais podem apresentar.
como em qualquer outro ambiente, mas particularmente neste, sobrevive o mais adaptado, é o que o titio darwin chamaria de 'the survival of the fittest' - erroneamente conhecido no português como 'a sobrevivência do mais forte'.

fontes consultadas:
- synurbization - adaptation of animal wildlife to urban development, de maciej luniak, proceedings 4th international urban wildlife symposium (2004)

17 de agosto de 2008

urbanóide, demasiado urbanóide

há muito tempo as cidades vêm crescendo em velocidade muito maior que o campo. no entanto, segundo dados da onu, somente no último ano mais da metade da população humana passou a habitar as cidades. isto não significa apenas que as cidades crescem vertiginosamente à medida que o campo se esvazia (de gente) e tem sua produção cada vez mais mecanizada e automatizada para suprir as necessidades urbanas.
há o surgimento não apenas de novas questões sociais, sociológicas, políticas, econômicas, filosóficas, etc., mas existe um fator muito pouco abordado, e que também é de grande importância: a questão ecológica.

ecológica não como o termo popularmente cunhado (no sentido de ambiental), mas no sentido técnico da palavra, que significa a interação tanto dentro como entre as partes, biótica ou abiótica de um sistema, e inclui os padrões de crescimento, dispersão, etc. - e é inevitável que o ambientalismo esteja contido nisso.

a ecologia sempre viu o ser humano como uma coisa à parte dos ecossistemas, tanto que a maioria dos estudos abordam ecossistemas inalterados ou áreas limítrofes de vegetações, mas até pouco tempo, (virtualmente) nada havia sido estudado a respeito do próprio ambiente que o homem habita. a idéia da separação do homem de seu meio é tão forte que um professor meu da faculdade me disse uma vez que não considerava a cidade como um ecossistema, o que foi um choque pra mim.

mas nos últimos 20 anos, houve o crescimento de preocupações acadêmicas tentando compreender esta área do conhecimento que é (mais) uma intersecção das ciências sociais com as ciências naturais. o homem passa a ser visto como parte de um ecossistema emergente (i.e. cidade), que apesar de cobrir uma área relativamente pequena, interfere grandiosamente nos recursos hídricos e energéticos e nos ciclos de nutrientes e biogeoquímicos - provavelmente tendo o carbono como o mais explícito -, além de grandes modificações geomorfológicas, sendo necessário o entendimento ecológico de como o homem atua e interfere no seu próprio hábitat e na vida de populações tanto animais, incluindo aqui nossa espécie,como de outros seres vivos que sofrem as conseqüências disso.

devido à atividade humana, causamos a destruição desenfreada de ecossistemas naturais (i.e. não-antropogênicos) e também multiplicamos as taxas de extinção em milhares de vezes, mas mesmo assim, alguns seres vivos conseguem tirar proveito destas condições e vêem a oportunidade de obter seu sucesso evolutivo (é claro que "vêem" não deve ser entendido literalmente, afinal a evolução não é intencional ou direcional.)

os animais que assim conseguem sobreviver são chamados de sinantrópicos e possivelmente são dependentes da presença humana, podendo chegar ao ponto de inexistir em ambientes não-antropizados. animais sinantrópicos são vistos todos os dias, onde quer que haja humanos. só para citar alguns: cupins, formigas, aranhas, moscas, pernilongos, pombos, ratos e camundongos. infelizmente, todos eles causam grandes danos tanto econômicos como em relação a saúde pública praticamente no mundo todo, mas nem todos causam danos diretos ao homem. na cidade de são paulo por exemplo podemos ver outros seres mais "bonitinhos" como por exemplo o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris - vide foto abaixo), que é ave símbolo desta paulicéia, ou capivaras (Hydrochaeris hydrochaeris) que até pouco tempo atrás viviam às margens do rio tietê (apesar deles terem carrapatos que podem transmitir a febre maculosa... mas isto é outra história).

sendo sinantrópicos, significa que quanto mais gente na cidade, mais bichos desses encontraremos nas cidades, certo? é possível, e provavelmente sim.

assim como há pessoas que se adaptam bem às cidades e outras nem tanto, entre os animais podemos citar alguns casos em que esta adaptação é tão alta que as cidades passam a ter populações maiores que no ambientes 'naturais'. um caso notável é das populações de falcões peregrinos (Falco peregrinus) das cidades de Nova Iorque e Berlim, que são as maiores populações conhecidas desta espécie.
adaptações comportamentais também são fáceis de identificar. o melhor exemplo são os corvos do japão, alguns deles às vezes são vistos em cruzamentos das grandes cidades para aproveitar o peso dos carros para quebrar nozes e assim obter seu alimento. há até vídeos no youtube em que dá pra conferir estas coisas. (não coloquei este vídeo aqui pois esta opção foi retirada e portanto v. vai ter que clicar aí no link pra ver.)
mas um exemplo mais fácil e comum para nós, brasileiros, ou pelo menos paulistanos, é o jeito como as pombas fogem da gente quando andamos na rua... praticamente nem ligam que a gente quase pise nelas.
.casos menos inócuos também ocorrem. no canadá, por exemplo, é comum o ataque de ursos pretos (Ursus americanus), que vão às cidades para obter seu alimento. muitas pessoas são atacadas e até mortas por esses ursídeos.

há ainda muito o que dizer e muito mais a entender sobre os mecanismos e modificações dos padrões que controlam as vidas que estão próximas do ser humano. tentarei abordar da melhor forma estas questões neste novo blógue que inauguro.
entender a ecologia deles e a nossa é essencial para que haja a construção de verdadeiras soluções, mas para isto temos de modificar alguns hábitos também.
não é só ver o bicho invasor como um inimigo, afinal ele não é.
além disso, invadimos e destruímos o hábitat destes animais muito antes deles precisarem tomar de volta.

fontes consultadas:
- synurbization - adaptation of animal wildlife to urban development, de maciej luniak, proceedings 4th international urban wildlife symposium (2004)