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25 de abril de 2010

tezão amarelo

V. já viu em alguma embalagem de comida (humana ou não) que estampa um grande T dentro dum triângulo amarelo?
Segundo as leis de biossegurança do Brasil, qualquer produto que contenha mais de 1% de organismos geneticamente modificados (OMFG) (OGMs) - ou seja, transgênicos -  deve trazer estampado o seguinte símbolo em sua embalagem:




Relato de caso
Outro dia fui comprar ração pras minhas cadelas e notei, depois de chegar em casa, que a embalagem trazia esse símbolo. Olhei o saco de ração anterior, que já tava no fim, e também tinha o tal símbolo.
A partir disso procurei um saco de ração mais velho que esses, porque eu nunca tinha reparado que tinha transgênicos na ração que dava pra meus cães. Enfim achei um terceiro saco, e nele não havia esse símbolo. Considerando que compro aproximadamente um saco de ração por mês, o uso declarado de OGMs  por parte da fabricante de ração (Purina) era recente.

Decidi escrever pra Purina, que pertence à Nestlé, pra anunciar que apesar de estar satisfeito com a qualidade do produto, deixaria de comprar a ração por questões ecológicas que vou explicar melhor logo abaixo. Como resposta, disseram que devido à minha mensagem entrariam em contato comigo através do telefone que deixei no cadastro.

Na quinta feira me ligaram pra esclarecer que os OGMs que eles utilizam eram variedades de soja resistentes à herbicidas, do qual tratarei posteriormente em outro post.
Eu já tinha começado a redigir este texto achando que o que eles usavam era principalmente o milho transgênico. Por isso vou começar a série sobre OGMs pelo milho.

Afinal, porque o alimento transgênico é tão polêmico?
O transgênico é polêmico porque se trata de alimento.
Os nutrientes contidos na alimentação é fisiologicamente necessária para qualquer organismo heterótrofo (ou seja, que não produz o próprio alimento), além disso, a agricultura é a atividade humana de maior escala e impacto na natureza. Logo, além do aspecto ambiental, há diversas implicações políticas, econômicas e sociais muito amplas.

Não ignoro o fato de que o impacto na produtividade, no meio ambiente, na economia e até mesmo na vida dos produtores podem ser positivos ou negativos, dependendo da transgenia feita. Mas é bastante tênue a divisa entre estes dois extremos e comumente os interesses econômicos falam muito mais altos do que as preocupações com qualidade de vida das pessoas ou do meio ambiente.

As variedades transgênicas demoram pra surgir no mercado. Pra se ter uma idéia, algumas variedades transgênicas só conseguem ser disponibilizadas periodicamente de dez em dez anos. Isso porque o esforço despendido em novas expressões gênicas é feita de forma empírica, isto é, em busca de determinadas características por tentativas e erros, o que acaba demorando vários anos, além de  milhões de verdinhas em pesquisa.

Muitas vezes é possível que ninguém saiba ao certo como determinada característica é expressada, e portanto, não tem como fazer prospectos precisos acerca do potencial impacto que estas alterações podem ter a longo prazo.

O problema ecológico que surge é o que pode ocorrer com qualquer população próxima a outra: fluxo gênico.
O que quero dizer com fluxo gênico ser um problema é que não é possível impedir que plantas sejam dispersadas, ou polinizadas e que troquem material genético entre elas livremente, a não ser que a lavoura seja totalmente controlada e isolada.
Fazer tal controle e isolamento no agribusiness brasileiro seria uma coisa no mínimo insensata e inviável, dada a escala em que é praticada.

Mas qual o problema do tal fluxo gênico ocorrer livremente?
O problema é que como a transgenia altera geneticamente um organismo, ele pode transferir tal alteração a organismos descedentes por transferência vertical (reprodução), ou potencialmente (mesmo que raro), causar alterações em organismos não aparentados de diferentes grupos (inclusive o homem) através da transferência horizontal (clique no link para entender um pouco melhor este caso).

Como já disse, utilizarei o caso do milho, convencional x transgênico: um caso real publicado recentemente no Brasil, mais precisamente no Paraná (estado que é maior produtor de milhos do país).
O milho apresenta polinização pelo vento (polinização aberta) e as lavouras convencionais podem cruzar com as trangênicas, caso não haja controle. Segundo a edição de 12 de abril de 2010 do jornal Brasil Econômico, a saca de milho transgênico custa entre R$16 a R$16,50 enquanto o convencional chega a custar R$18, afetando direta e negativamente as economias do produtor que optou pelo milho convencional que tenha sido contaminado pela transgênica. E, portanto, o impacto econômico pode ser gigantesco, dependendo da escala da produção.

No Brasil, a regulamentação de OGMs é feita pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).   E ela regulamenta que uma lavoura transgênica deva distar 100m (de campo aberto) de uma lavoura convencional ou então 20m mais 10m de linhas de plantio entre elas. Segundo a Comissão (que supostamente deveria se apoiar em argumentos técnicos e científicos ao invés de econômicos), isso seria o suficiente para que não ocorra o tal fluxo gênico entre uma lavoura convencional e transgênica.

Segundo informações do site do SEAB, Rubens Nodari, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pensa o seguinte:
o Paraná é o único Estado que se preocupa e adotou providências sobre esse tema. De acordo com ele, são necessários, pelo menos, 400 m de distância entre a cultura modificada e não-modificada geneticamente para evitar a polinização tanto para o milho como para a soja, destacou. 
Pois bem, a Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Paraná (SEAB) fez estudos que comprovavam que isso não é verdade, mas o CTNBio simplesmente ignora ao não rever suas próprias regras. E não é por falta de conhecimento, pois a SEAB notificou diversos órgãos públicos tais como Ministério do Desenvolvimento Agrário; da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; do Meio Ambiente; da Saúde; da Justiça; da Casa Civil; Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e à Presidência da República

Infelizmente não encontrei, disponível na internet, a nota técnica publicada no começo do mês entitulada "Plano de Monitoramento do fluxo gênico entre lavoura de milho transgênico e não transgênico na região Oeste do Paraná". Mas o caso foi amplamente noticiado e é possível encontrar algumas outras informações relevantes sobre o assunto no próprio site da SEAB. Um quadro que encontrei em diversos sites resume os dados sobre as taxas de contaminação encontrados pelo SEAB:


Resumo dos dados encontrados pelo SEAB acerca da contaminação de milho transgênico em lavouras convencionais. 
Os dados levantados são referentes à última safra de inverno do milho ("milho safrinha"). tirado daqui

O assunto é complexo e as entidades alinhadas com a CTNBio alegam até que os dados publicados pela SEAB são meramente técnicas, não tendo sido constatadas em publicações científicas e que, portanto, não teriam validade científica.

Essa situação agrava ainda mais a perda gradual e crescente da agrobiodiversidade (com a substituição e extinção de variedades crioulas e/ou endêmicas) e da biodiversidade silvestre (já que o risco deste tipo de contaminação para áres silvestres também existe).A ocupação e expansão desordenada, sem fiscalização e planejamentos efetivos das fronteiras agrícolas também contribui fortemente para esse cenário.

Apesar do milho ser diversificado, boa parte já foi extinta!

Segundo dados da FAO, mais de 80% da biodiversidade do milho está extinta... consequentemente o conhecimento no preparo de alimentos e do cultivo dessas variedades também. No outro lado da moeda, Edilson Paiva, presidente da CTNBio, se gaba de que  “Há mais de 70 anos sabemos mexer com a polinização do milho. Ele é tão domesticado que não sobrevive sem a ajuda do homem”. É óbvio que isto vem com a homogeneização de toda a diversidade, não só biológica, mas geográfica e cultural. É  a obsoleta idéia equivocada do modelo criado pelo imperialismo cultural de séculos atrás, que persiste em países como o nosso. E o sistema de produção atual ainda continua nesse mesmo sentido, sendo até valorizado como um aspecto positivo de desenvolvimento.

Este é o ano da biodiversidade, e este é um momento propício para que reflexões a respeito da biodiversidade e do futuro de recursos naturais sejam levadas mais a sério. Enquanto a economia considerar 50 anos como longo prazo, não sobreviveremos muito além disso com alguma saúde social e econômica (e consequentemente ambiental).

Como todas as questões pertinentes à sustentabilidade, o que era de se esperar era de que, na incerteza, prevalecesse o princípio da prevenção.
No final das contas é uma questão da escala em que tratamos o problema.
Ainda tenho a esperança de um futuro próspero para a humanidade, e que ela não continue rastejando em agonia nessa direção.

20 de fevereiro de 2010

doméstico, pero no mucho

espécies domesticadas geralmente têm alguma característica inata de interesse para o homem (desenvolvida através dos tempos pela seleção natural) que é posteriormente aperfeiçoada para maior desempenho pela seleção artificial juntamente com a amenização de aspectos selvagens por meio da domesticação. 
por estas características são relativamente poucas as espécies domesticáveis, já que nem todos suportam nossa presença e atividade (se bem que os misantropos também não lidam bem com isso... tudo leva a crer que as espécies não-sinantrópicas também sejam misantropas, haha), já que algumas espécies são mais tolerantes que outras — sejam espécies vegetais, animais ou pertencentes a quaisquer outros reinos taxonômicos.
os animais domesticados se destacam geralmente por características como produção de alimento (carnes e leites), vestimentas e afins (lãs e peles) e auxílio em atividade humanas (pastoreio, pesca, caça, transporte, carga, etc), acompanhando o homem desde que ele aprendeu a domesticar os vegetais (que culminou na agricultura há cerca de 10 mil anos). 
desde então o homem expandiu sua ocupação geográfica, assim como aumentou vertiginosamente sua população (assim como a dos animais que levava consigo), aumentando as demandas de recursos naturais como consequência.
no leque de animais domésticos, um que se destaca exatamente por apresentar virtualmente nenhuma dessas principais característica que interessam ao homem, está aquele que descende dos predadores mais elegantes da natureza: os gatos.


raças clássicas de gato, apesar de tudo, a diferença entre eles surgiu recentemente(fonte)

a origem destes animais como pet não é muito clara. 
a evidência aqueológica mais antiga (datada em 9.500 anos de idade), é de um corpo enterrado com um gato, descoberto em 2004, no chipre. até então, era comum a afirmação de que a domesticação do felino tivesse ocorrido no egito antigo, há apenas 3.500 anos.
gato no chipre há 9.500 anos atrás (circulado): provavelmente vieram do oriente médio.¹ 

apesar do gato mais velho já encontrado ser do chipre, é sabido que o gato selvagem do oriente médio (Felis silvestris lybica), o ancestral direto dos gatos domésticos atuais, não ocorre naquela ilha. sua distribuição original se situa na parte continental entre o norte da áfrica e a ásia menor, permitindo a inferência de que estes animais tenham sido levado pelo homem a partir do oriente médio.
é interessante lembrar que o oriente médio, mais especificamente o crescente fértil é o berço de um dos mais velhos (e mais intensamente manejados) sistemas agrícolas. traçando o paralelo entre a agricultura e a distribuição original do gato doméstico percebemos que ambos coexistem no espaço e tempo.
desta forma, percebemos o nicho marginal que o gato apresentou no processo de domesticação e sua inserção nas sociedades humanas: aqueles indivíduos que nos toleravam, podia aproveitar as sobras alimentares que a expansão das primeiras cidades provia, além dos pequenos animais (principalmente roedores) que eram atraídos pela estocagem de produtos agrícolas.
por este processo, o gato foi aos poucos aceitando o homem (e não o contrário, como poderíamos supor), tolerando o convívio nada fácil conosco, colonizando novos hábitats graças a atividade antrópica.
o gato é um animal explorador e, como qualquer outro animal, vai em busca de ambientes favoráveis, locais estes que apresentem condições mínimas de abrigo, água e alimento. atualmente, estas condições são satisfeitas virtualmente em todos os lugares que o homem habite. a capacidade de exploração é bastante notável, bem ilustrado no caso de sandy, o gato inglês que foi encontrado num navio em bilbao, na espanha.




tira de paulo kielwagen, lencinho umedecido é o escambau!


a expansão biogeográfica dos gatos domésticos está intrinsecamente relacionado à história do próprio homem, apesar de não ser claro a partir de que momento conseguimos domesticá-lo de verdade, sabemos com certeza que eles nos acompanham pelo menos desde o egito antigo (há 2900 anos a deusa Bastet é personificada na forma de um gato, sendo considerado um dos aspectos mais claros da domesticação do gato pelo homem). porém, a ocupação geográfica do gato doméstico sofreu um verdadeiro boom com a expansão do império romano, assim como das diversas rotas comerciais que surgiam, influenciando diversas culturas humanas ao longo de toda história e registrados extensivamente em forma de estatuetas e pinturas. estima-se que atualmente cerca de 600 milhões de gatos vivam conosco como animal de estimação.
porém, mesmo depois de tanto tempo de domesticação, o gato ainda é um animal um tanto "menos doméstico" do que aqueles que assim denominamos, devido principalmente à ausência de pressões de seleção que exercemos sobre eles, já que, como dito, não apresentam virtualmente nenhuma "utilidade" explícita para o homem, sendo acolhido mais pela aparência que por outro aspecto. 
eles são tão cuti-cuti!!

devido a isso, o gato não apresenta tão discrepantes diferenças de tamanho, forma e temperamento (em comparação com outros animais domésticos). para agravar, os intercruzamentos de variedades domésticas ferais e selvagens ocorre com certa frequência, mantendo obscuro o limite entre populações distintas.
as pressões seletivas humanas mais relevantes em relação às raças de gato ocorreram bem mais recentemente, lá pelos idos do século XIX (e todos com ênfase na aparência deste belo predador), e, hoje, com os avanços zootécnicos, os gatos estão num estágio totalmente novo de sua domesticação: a hibridização com espécies selvagens, gerando variedades de formas, tamanhos e manchas totalmente novas em gatos. (como exemplo veja o link da foto abaixo)
gato x serval, uma bela mistura denominada savannah cat ("gato da savana", em tradução livre) (fonte)


Fonte consultada:
¹Driscoll CA, Clutton-Brock J, Kitchener AC, O'Brien SJ. The taming of the cat. Scientific American June 2009.

3 de fevereiro de 2010

condenação pra quem come cachorro na china?!

na semana passada saiu no site da bbc que "China quer prender quem comer carnes de gato ou cachorro". a china está progressivamente se tornando um país "ocidental" e quer, segundo projeto de lei, punição a quem comer carne de gato ou cachorro.

no curso de etnobotânica que tive na graduação aprendi que aquilo que temos como itens tradicionais de uma cultura vão se modificando ao longo do tempo, isso simplesmente porque determinada cultura tem contato com outras adjacentes, introduzindo e removendo itens gradualmente, e consequentemente alterando ambas culturas.

outra forma que existe de modificar uma cultura é conquistando-a.
antigamente a única forma que tínhamos para conquistar um grupo era através de guerras, uma conquista meramente física. atualmente a conquista pode ser muito mais discreta, afetando apenas um ou outro aspecto de determinada cultura.
a china é atualmente, ao meu ver, um mosaico de valores culturais, econômicos, sociais, assim como nosso país. e nesse mosaico se encontra o atrito entre valores culturais tradicionais com valores culturais globais.

globalmente [ou melhor, na cultura ocidental], cães e o gatos são tidos como membros secundários da família, e é tratado como tal. isso impede muitas pessoas de tê-las como fonte de carne. o mesmo não ocorre com frangos, caprinos, ovinos, suínos, bovinos e tantos outros... todos disponíveis para nossa alimentação.

gosto muito de cães e gatos, mas acho besta essa idéia de censurar a carne de cachorro ou gato na china.
acho que hoje em dia temos conhecimento suficiente para que a vida e morte desses animais sejam de boa qualidade, sem danificar a qualidade da carne, nem depreciar o bem estar do animal, além duma morte indolor.
creio que uma adaptação chinesa a esses fatores já seria de muito bom grado, já que atualmente a condição em que essas coisas ocorrem [que podemos ver em vídeos e fotos dos mercados chineses] são, de fato, muuuuito precárias.

vai um churrasquinho de au-aucatra, amigão? (fonte)

ou um filé miau? (fonte)

gatos nada confortáveis... (fonte)

imaginem se a índia decidir entrar nessa também...
teríamos o maior rebanho bovino do mundo disponível para a alimentação humana...


miss ellie, eleita o cachorro mais feio do mundo em 2009, na categoria pedigree.
é da raça chinese crested dog... até eles merecem ser bem tratados (fonte)

17 de setembro de 2009

zoneamento agroecológico da cana

quinta-feira, dia 17 de setembro de 2009, foi lançado o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar (ZAE Cana) no Brasil. é uma iniciativa com muitos aspectos positivos, sim, mas nem por isso são apenas as mil maravilhas. aparentemente apresenta mais pontos positivos que negativos...

pra começar, eis o vídeo de lançamento do ZAE Cana:



o vídeo é lindo, isso é inegável: belas imagens, frases de impacto, uma musiquinha contínua, calma e com alguma identidade folclórica genuinamente brasileira...

então vamos ver... vou apontando alguns aspectos que achei relevante, tanto positiva como negativamente:

- a iniciativa é de entidades respeitadas que agiram sinergicamente como embrapa (empresa brasileira de pesquisa agropecuária), unicamp(universidade estadual de campinas), ibge (instituto brasileiro de geografia e estatística), cepagri (centro de pesquisas metereológicas e climáticas aplicadas a agricultura), conab (companhia nacional de abastecimento), inpe (instituto nacional de pesquisas espaciais), cprm (companhia de pesquisa de recursos minerais), além da participação dos ministérios do meio ambiente (MMA), de agricultura, pecuária e abastecimento (MAPA), de minas e energia (MME), ciência e tecnologia (MCT), do planejamento, orçamento e gestão, e da casa civil. o estudo foi detalhado abordando diversos aspectos, como as condições do solo e do clima de cada região, tudo tendo a cana como referencial.

- regulamenta políticas públicas para a ocupação de terras por plantações de cana-de-açúcar, delimitando seu cultivo apenas a áreas já degradadas pela agricultura intensiva ou semi-intensiva, lavouras especiais (perenes, anuais) e pastagens, limitando e ordenando sua expansão. além disso considerou-se características climáticas e do solo, relacionados com os requerimentos desta cultura, classificando cada um dos três tipo de uso da terra (agrícola, pecuária ou agropecuária) em aptidões agrícolas alta, média ou baixa. é possível verificar isso em mapas detalhados em nível nacional ou estadual aqui.

- algumas áreas foram excluídas do zoneamento:
1. as terras com declividade superior a 12%, observando-se a premissa da colheita mecânica e sem queima para as áreas de expansão. [acabar com queimadas para colheita é bem importante, já que os principais fatores de ecotoxicidade assim como de toxicidade humana, estão relacionadas às queimadas. a degradação do solo também é bastante reduzida se suspendermos a queimada. a mecanização da colheita também é um grande diferencial, pois dá condições de trabalho mais dignas ao passo que gera outro grande problema social: emprega mão-de-obra especializada em operar máquinas para colheita de cana em detrimento de mão-de-obra pouco ou nada qualificado que é/era utilizado na colheita manual, agravando ainda mais a situação de oportunidade de trabalho para classes mais baixas];

queimadas da cana para colheita, ainda bastante comuns no estado de são paulo

2. as áreas com cobertura vegetal nativa [ótimo! o que sobra de Cerrado e outros biomas tende a continuar intacto, pelo menos em relação a cana...];
3. os biomas Amazônia e Pantanal [esse ponto é um ponto crítico para gringos, creio eu, já que o que eles conhecem de brasil é que temos o que erroneamente é conhecido como o "pulmão do planeta". sabiam que os usineiros brasileiros usam como argumento o fato dos canaviais estarem distantes destes biomas para justificar a "sustentabilidade" da produção sucroalcooleira? pois é! os outros biomas nem são levados em consideração!] além da Bacia do Alto Paraguai;
4. as áreas de proteção ambiental e remanescentes florestais;
5. as terras indígenas [também acho ótimo não mexer com terras indígenas, apesar de que há índios muito mais "cara-pálida" que muitos de nós];
6. dunas;
7. mangues;
8. escarpas e afloramentos de rocha;
9. reflorestamentos e
10. áreas urbanas e de mineração.

- estabelece que o país dispõe de 64,7 milhões de hectares=647 mil km2 de áreas potenciais para ocupação por canaviais. isso corresponde a mais de 7 (SETE) vezes a área remanescente de mata atlântica ou 1,5 vezes maior que o que resta de Cerrado, isso sem mencionar os outros biomas menores (em extensão). considerando isso, restam"apenas" 7,5% do território nacional potenciais para o plantio de cana (se plantassem em toda área com potencial de plantio, seria praticamente um novo bioma pouquíssimo biodiverso e de origem antrópica). isso pelo menos é ótimo pelo fato de que não mais será preciso devastar novas áreas para este fim, uma vez que a vontade econômica dos governantes é de produzir cada vez mais cana.
o brasil é exemplo em alguns aspectos da produção de cana, pois somos capazes de utilizar o máximo da tecnologia a que temos acesso, produzindo muito mais do que seria esperado com a tecnologia vigente. só para ilustrar um fato que foi espantoso para mim quando fiquei sabendo, a lavagem da cana é feito com a água que extraem da própria cana, não necessitando de água de rios para isso.

- segundo o documento, um dos impactos esperados é a produção de biocombustíveis de forma sustentável e ecologicamente limpa. isso parece piada, pois uma coisa é querer reduzir os danos causados no ambiente nos processos de produção e uso dum combustível, mas dizer que se espera produzir um biocombustível limpo é uma mentira. o biocombustível é queimado e emite poluentes e isso já é o suficiente para que não seja limpo.
além disso, um dos grandes problemas da produção de biocombustíveis a partir de cana é a produção de vinhoto: para cada litro de bioetanol obtidos da cana, 14 litros de vinhoto são produzidos. esse grande volume é reutilizado para adubação do solo, mas boa parte acaba caindo em rios nas proximidades do canavial, e claro, sem tratamento.

- ao meu ver esta foi uma ótima forma de conter os ânimos de ruralistas como o ministro da agricultura reinolds stephanes, por que se dependesse dele, o país viraria um gigante deserto agrícola. e obviamente os ruralistas do pantanal e da amazônia devem se sentir injustiçados com isso.

- uma das intenções desse estudo é também a possibilidade de se conseguir créditos de carbono, e atrair investimentos nacionais e internacionais. ao meu ver o que fundamenta créditos de carbono são meramente aspectos econômicos e nada ambiental. não acho que concentrar as emissões de carbono seja mais benéfico que fragmentá-lo, ao contrário da lógica aplicada em fragmentos vegetacionais.

gostaria de conhecer um pouco mais de manejo de solo pois acredito que em longo prazo monoculturas danifiquem muito este recurso natural. por enquanto só fica a suposição quanto a isso.

mais uma vez friso que este zoneamento parece ser bastante positivo. os pontos fracos ficam no argumento de combustível limpo e do papo furado da sustentabilidade (que teoricamente deveria abranger as sustentabilidade ambiental, social e econômica). a cana brasileira tem em mãos boa fatia do mercado mundial, possibilitando esse tipo de iniciativa. este zoneamentos agroecológicos é bem completo e releva aspectos importantes para que possamos usufruir mais apropriadamente dos recursos naturais disponíveis, minimizando os danos desta atividade na escala em que é praticada (nesta escala, a principal vítima é o cerrado: uma área bastante extensa dela é tomada por atividades não apenas sucroalcooleiras, mas agropecuárias diversas).
já que é opção deste país a produção agrícola em nível industrial, o ideal seria que cada uma das principais culturas fosse feito um zoneamento agroecológico próprio, mas é pouco provável que haja interesses político e econômico tão engajados como no caso da cana.

19 de junho de 2009

estocasticidade


estava lendo the frontal cortex e o autor do blógue deixa um linque super interessante, na verdade um podcast do radiolab muito bom sobre estocasticidade.
está em inglês, e vale a pena.

estocasticidade é um conceito essencial para entender a natureza.
aleatoridade pode ser um outro nome, mas não é tão apropriado...
quem não a conhece acaba tendo visões simplistas como milagres e coisas do tipo... mas no final a questão é a chance das coisas acontecerem, e as coisas sempre podem acontecer, até (ou principalmente) as mais insólitas.

é desta forma que as espécies surgem, é desta forma que o complexo surge do simples.

viva a estocasticidade.

7 de junho de 2009

viveiros municipais de são paulo

o dia do meio ambiente já foi, mas no brasil-sil-sil ainda temos a semana do meio ambiente. então vale a pena a dica aqui.
eu vi isso ontem no sptv, com uma reportagem sensacionalista. (sim! por incrível que pareça conseguiram um quê de sensacionalismo até numa simples reportagem sobre a doação de mudas pelos viveiros municipais nesta semana, praticamente dizendo que as árvores estão destruindo a cidade! hehehe) mas vamos aproveitar algumas informações relevantes.

quando for plantar uma árvore é bom saber como ela cresce para que não traga prejuízos como a elevação de calçadas ou crescer além de fiações elétricas. o paisagismo deve ser parte do planejamento urbano, mas como a cidade é porcamente planejada, é de se esperar que o aspecto paisagístico também o seja.
viveiro municipal manequinho lopes, no ibirapuera - fonte

além desta, outra informação interessante deixada pela reportagem é de que estão disponíveis nos viveiros municipais, mudas para doação, pelo menos nesta semana. não sei se sempre doam ou se apenas o estão fazendo por ser a semana do meio ambiente.

lembre-se, meio-ambiente não é só a grande massa verde que é promovida por aí, mas também muitas outras coisas que estão interrelacionadas com ela.

14 de abril de 2009

o mestre da desinformação

recebi recentemente o email de Júlio César Bicca-Marques, através do grupo de emails de primatologia, no qual ele divulga a campanha "proteja seu anjo da guarda"

mas vamos por partes: globo ataca novamente com todo seu poder de persuasão desinformativa e alienante. é uma tremenda irresponsabilidade por parte de formadores de opinião fazer todo desserviço que prestam a fazer diariamente.

"A febre amarelaG é uma doença infecciosa, transmitida por um vírus do macacos [sic]. O mosquito pica o macaco e transmite ao homem."

"o mosquito pica o macaco e transmite ao homem"? que mecanismo biológico é esse?

quem transmite a doença ao macaco é o mosquito, assim como ao homem. se este mecanismo, de um vetor picar o macaco e depois picar o homem, for motivo de perseguição ao macaco bugio - espécies do gênero Alouatta - então deveríamos perseguir todas as outras pessoas que se tornam infectadas com a doença também. mas isso é uma tremenda idiotice sem tamanho.

a consequência direta disto é o medo e a perseguição em relação ao simpático bugio. o bugio sofre os atos antropogênicos duas vezes devido a febre amarela, pois além de sofrer com a degradação ambiental na forma de perda de habitat, ainda é perseguido devido ao ódio sem sentido das pessoas que se sentem lesadas com a doença. é a culpabilização da vítima que neste caso agrava o estado de conservação do bugio, além de ser ilegal causar a morte destes animais.

bugio possivelmente vítima de febre amarela em estado avançado de decomposição
(fonte)

o nome da campanha "proteja seu anjo da guarda" se justifica pelo fato de que mortes de bugios por febre amarela serve como bioindicador da circulação do vírus na região, alertando órgãos de saúde pública e acelerando programas de vacinação ao vírus da febre amarela.

mais uma vez a frase de dostoievski cabe aqui: "O homem está sempre pronto para distorcer aquilo que dizem os seus sentidos, simplesmente para justificar a sua lógica."

G existem dois tipos de febre amarela: a urbana, erradicada do brasil por volta da década de 1960, e a silvestre. os vetores da forma silvestre são mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, enquanto a forma urbana pode ser transmitida pelo Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue.

via primatologia (yahoo! grupos)

24 de março de 2009

pac das termelétricas - uma ode às mineradoras de carvão

tira de andré dahmer

em tempos de idéias verdejantes, o brasil avança rapidamente pelo contra-fluxo, graças a pessoas como o ministro de minas e energia edson lobão, do pmdb-ma.

...

segundo o valor online, o banco interamericano de desenvolvimento, conhecido mais popularmente pela sigla bid, aprovou um financiamento de 197 milhões de dólares para parte do pac (programa de aceleração do crescimento) que incentiva a construção de usinas elétricas, no caso usinas termelétricas a carvão mineral em pleno século xxi!!

o financiamento é destinado as termelétricas porto do pecém I e porto de itaqui, e segundo a mpx, empresa responsável pela atrocidade, ainda há 314 milhões de dólares de empréstimos indiretos de diversos bancos internacionais, que se encontram "em fase final de contratação", que ainda conta com uma possível ajuda do bndes para a "alavancagem prevista para os projetos"

pecém I, no ceará, terá capacidade de 720MW e é estimada em 1,4 bilhão de dólares.
já o porto de itaqui, terá capacidade de 360MW, estimada em 800milhões de dólares, e será no maranhão, terrinha do ministro lobão.

é, até parece que não existem alternativas energéticas neste país, ou que tá sobrando tanto carvão mineral que temos que queimar.

para aumentarem cada vez mais usinas térmicas movidas a recursos não-renováveis na porcentagem de produção energética no país, o que ocorre deve ser das duas uma, ou os políticos/empresários brasileiros estão ganhando uma grana preta em cima disso ou eles são muito burros. considerando que em 2007, 119 deputados federais e 10 senadores criaram a frente parlamentar mista em defesa do carvão mineral, atualmente presidida pela senadora ideli salvatti do pt-sc, num esforço para se priorizar o carvão mineral como matriz energética do país, eu fico com a primeira opção.

há um pdf no site do senador sérgio zambiasi, ptb-rs, o então presidente da frente, e nele o texto diz que é importante transformar o carvão numa matriz energética prioritária, pois é de importância social, e que o "brasil não pode mais ficar refém de mudanças climáticas e humores internacionais para o setor energético", isso porque nosso país é parte do top 10 em emissão de gases de efeito estufa no mundo, no qual se inclui as grandes queimadas amazônicas e a queima de combustíveis fósseis.

segundo o arquivo, um dos objetivos da frente é estimular e colaborar para a expansão do uso do carvão mineral na matriz energética nacional, dentre outras coisas, todas exaltando o uso de carvão mineral para produção de energia no país.

em terra de brasileiros, quem é malandro é rei.
burro sou eu que não sei ganhar dinheiro.

12 de março de 2009

lucros com biodiversidade para populações tradicionais

brasil, bolívia, peru, venezuela, colômbia, equador, costa rica, méxico, china, índia, indonésia, filipinas, malásia, áfrica do sul, congo, madagascar e quênia, formam o b-17, os 17 países mais megabiodiversos do planeta - reunindo mais de 70% de toda a biodiversidade do planeta e cerca de 45% da população mundial -, e estão reunidos no itamaraty para a reunião do grupo, do qual brasil é o presidente até 2010.

logo na abertura, carlos minc, ministro do meio ambiente, defendeu a criação para 2010 do regime de acesso e repartição de benefícios (conhecido pela sigla abs). este mecanismo foi sugerido na lendária eco-92, e garante às populações tradicionais e povos indígenas parte dos lucros obtidos com a exploração da biodiversidade e dos conhecimentos produzidos por elas. este é um esforço na implantação de um regime internacional de acesso a recursos genéticos e repartição justa e equitativa dos benefícios dos recursos genéticos, a ser implantada na próxima conferência das partes, cop-10, a ser realizada em 2010 em nagoya, japão.

três grandes objetivos para a conservação da biodiversidade foram enumerados por minc:
- a conservação da diversidade biológica;
- o uso sustentável dos componentes da biodiversidade;
- e a justa e equitativa distribuição dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos.

este último implica na criação do que minc chamou de "talvez o maior banco genético do planeta", o que seria um grande passo na luta contra a biopirataria.

"o sistema (abs) então garantiria recursos para manter as florestas, os bancos genéticos e a biodiversidade - e para remunerar as populações que, por séculos, guardaram esses ensinamentos e impediram a extinção desses princípios ativos"


essas medidas, se implementadas com sucesso, vão evitar que acontecimentos ocorridos há poucos anos, como a que envolveu a empresa japonesa asahi foods, na patente de produtos derivados do cupuaçu (planta endêmica da amazônia brasileira e peruana) diminuam, já que estes 17 países e principalmente suas populações tradicionais sofrem enormemente com este tipo de prática, favorecendo os últimos, que são os verdadeiros detentores do conhecimento etnobiológico por trás de diversos derivados de produtos naturais.

via mma.gov.br

26 de fevereiro de 2009

bioindicando rastro antropogênico

os bioindicadores, como o nome sugere servem pra indicar a qualidade do ambiente através de manifestações que ocorrem nos seres vivos, essa técnica pode ser desenvolvida em qualquer ambiente desde que utilizada espécies apropriadas para o que se deseja. por exemplo, predadores de topo de cadeia são particularmente bons para indicar bioacúmulo.
a presença de certas espécies pode indicar boa ou má qualidade de determinado ambiente, pois indica que ali apresenta condições ótimas para sua presença.
isso nos permite avaliar as modificações que geralmente provêem do antropismo.

segundo um artigo da folha, o biólogo marcos césar de oliveira santos (o qual é professor da unesp de rio claro e que há alguns anos dava um mini-curso de cetáceos pelo io da usp) associou a manifestação de micose em botos no norte do paraná (que apresentam feridas de até 25 cm no dorso) à poluição do mar, que devido à proximidade com portos como o de santos (causadoras de poluição por óleo, águas de lastro contendo micróbios de origens longinquas), e da carcinicultura que ocorre por aquela região, manifesta em forma de feridas as consequências de uma água poluída.

ainda não se sabe a extensão e a gravidade deste problema, mas a falta de fiscalização por parte do ibama perpetua problemas como estes.
santos, que identificou este problema através de fotoidentificação, já havia publicado um trabalho anos antes indicando o potencial do boto como bioindicador, no qual encontrou acúmulo de ddt em camadas de gordura destes animais.

mas não é preciso nem sair de grandes centros urbanos pra ver potenciais bioindicadores de qualidade ambiental. na cidade é possível verificar níveis de poluição atmosférica utilizando animais que consideramos praga como roedores e pombos.
pode-se analisar níveis de acúmulo de substâncias como os metais pesados - provenientes principalmente de escapamentos de carros -, que é um alimento altamente tóxico para os predadores de roedores (isto inclui gatos domésticos) e de pombos (como aves de rapina), podendo até matá-los por intoxicação.
este problema de bioacúmulo também ocorre no controle químico inapropriado de populações de pragas, pois espécies não-alvo podem ser prejudicadas por envenenamento secundário, que é o que ocorre na prática quando um animal preda esses que acumulam substancias nocivas.

além de acumular metais pesados, nos roedores pelo menos, ocorrem modificações na formação de espermatozóides, que se apresentam em padrões bizarros. o espermatozóide normal de rato é como este aqui abaixo:

espermatozóides saudáveis de ratos - fonte

o espermatozóide saudável apresenta este gancho na ponta, mas as alterações podem chegar em níveis em que o gancho some, ou a cabeça do espermatozóide fica totalmente redonda ou triangular, além disso pode se transformar em uma célula sem forma, sem ao menos apresentar a cauda, ou mesmo com a cauda enrolada no corpo celular. um animal deste com certeza apresentaria dificuldades de se procriar, e se conseguir provavelmente tenha filhotes bastante alterados fisicamente.
a questão na verdade nem é tanto o efeito no potencial de reprodução, mas no risco genético que o ambiente apresenta direta (pelo contato com o ambiente) ou indiretamente (pela predação destes animais) e a partir disto, obviamente, podemos inferir que nós também sofremos tais alterações (pelo menos as diretas) em maior ou menor grau.

aliás, há várias doenças relacionadas à qualidade ambiental, sendo as mais comuns, doenças principalmente respiratórias, cardiovasculares e cânceres potencializadas pela poluição do ar, proveniente de veículos e indústrias.

desvairo visual da paulicéia num dia sem chuva - fonte

mais uma vez podemos inserir aquele discurso que sai do ambito do ecochato e passa a ser um alerta real de saúde pública para repensarmos nosso estilo de vida, utilizando mais racionalmente os meios de transporte, a fim de respirar menos fumaça e mais ar limpo (ou no caso de sampa, um ar menos sujo)


fontes consultadas:
- doença de boto revela poluição do mar, via ambiente brasil
- trabalhos de mauro cristaldi com estudo de roedores como bioindicadores de poluição urbana na itália

2 de janeiro de 2009

o gigantesco potencial eólico no brasil

energia eólica, quanto mais alto, mais vento - fonte

o nordeste apesar de muito quente, é bem agradável, pois sua sensação térmica é grandiosamente reduzida pelos ventos que lá sopram.
pois de tanto vento que sopra, estima-se que 60% de energia elétrica consumida no brasil poderia ser provida por fontes eólicas nordestinas, conclusão de pesquisadores do cptec (centro de previsão do tempo e estudos climáticos), órgão ligado ao inpe (instituto nacional de pesquisas espaciais).
foi utilizado dados do atlas do potencial eólico brasileiro, e concluíram que em 71 mil km² do brasil tem velocidade adequada pra gerar energia (i.e. >7 m/s), sendo principalmente no nordeste.

a energia eólica, além de menos agressivas ao meio ambiente que as hidrelétricas e termelétricas que predominam na geração de energia em nosso país, ainda não teriam problemas com a sazonalidade das águas, que faz com que a energia gerada seja menor em hidrelétricas presentes no nordeste, principalmente nos longos períodos de seca.

o avanço tecnológico aumenta cada vez mais o potencial da energia elétrica, pois quanto mais alto, mais vento, e portanto, quanto mais alto se consegue erguer um ventiladorzão daqueles, mais energia é gerada.

mais uma coisa, ela ajuda a reduzir o efeito estufa, apesar de matar parte da fauna que sobrevoe na altura das hélices. dentre as soluções que existem, ainda é das melhores que temos em termos de custo/benefício.

fonte consultada:

2 de dezembro de 2008

estorvinhos e o ebm

roma é conhecido por alguns aspectos da fauna sinantrópica, devido a grandes populações lá existentes. há diversos estudos que abordam a biologia de animais como gatos (Felis catus), roedores comensais (Rattus rattus, R. norvegicus e Mus musculus). e diversos são os problemas relacionados com explosões populacionais dessas espécies necessitando para cada caso, medidas de manejo apropriadas, levando-se em conta a ecologia do animal para que medidas de manejo sejam mais efetivas.

foto retirada do site da bbc

roma também é palco para a chegada de estorninhos (aves do gênero Sturnus sp), que vão para lá passar as férias de o inverno. a presença desses animais pode ser um espetáculo visual - o qual ainda não presenciei - e dizem que o barulho que fazem também é bem alto. mas o que mais preocupa os moradores da cidade eterna são as fezes destes animais, que aos milhões podem causar danos consideráveis em estruturas como edificações e monumentos.

para agravar o problema, neste ano a chegada dos estorninhos bateu o recorde com cerca de 5 milhões de estorvinhos estorninhos na cidade, segundo site da bbc.

a medida de manejo adotada pela prefeitura está sendo a utilização de playbacks do que chamamos de distress calls. tais chamados são vocalizações de animais em perigo extremo, que geralmente remete a situações de sofrimento do animal.
o playback é a simulação de informação que faz com que o animal ache que há um indivíduo que realmente esteja executando tal comportamento.
o caso de utilizar o distress call é para assustar outros indivíduos para que eles vejam o local como não sendo seguro para se abrigar.

como ocorre para qualquer animal passível de manejo, é questão de tempo para que esta ação perca sua efetividade, a não ser que seja alternada com outras medidas, compondo um manejo baseado no ecossistema (ebm, na sigla em inglês para ecosystem-based management, sob mesma sigla é possével encontrar o termo ecologically-based management - manejo ecologicamente baseado -, ainda não sei se é a mesma coisa, mas aparentemente sim, caso não seja, me corrigirei assim que descobrir)

apesar de apenas recentemente esta idéia ter ganhado força (algo em torno de 15 a 20 anos), ela não é nova, e remete ao the ecosystem concept in natural resouce management, de van dyne (1969).

essa é a melhor forma encontrada pela ciência para manejar os bichos que vivem conosco, tratando-os da melhor forma possível, para que não sejam danosos entre eles, e principalmente para não serem danoso para nós.

nenhuma espécie deveria ser um estorvo para nós, mas se não soubemos como usufruir o que a natureza oferece, uma hora isto volta contra nós.

fonte consultada
- milhões de estorninhos invadem roma - site da bbc

14 de outubro de 2008

tecnologias (de celular) que salvam vidas (de elefantes)

como um celular, ou melhor, parte de um celular pode salvar a vida de um elefante?

a idéia pode parecer um pouco inusitada, mas com a ajuda do chip de celular ― mais conhecido como sim (módulo de identificação do assinante - subscriber identity module, em inglês) ―associado a um sistema de gps, guardas florestais do quênia mantem os elefantes afastados de fazendas.
as fazendas de pequenos produtores são fonte de alimento fácil para animais possivelmente famintos, que chegam a comer algumas centenas de kg de alimento/dia.
se um indivíduo desses pode comer tanto, uma manada de cinco indivíduos pode indicar uma perda destrutiva em uma fazenda de um pequeno produtor. foi num contexto desses que guardas florestais tiveram que atirar em elefantes em 2006.

para que o mesmo não ocorra novamente essa tecnologia com chips sim (inserido nos tradicionais radio-colares) permite a criação de cercas virtuais, que ao serem ultrapassadas enviam mensagens aos guardas, que logo se prontificam a interceptar o animal no local sinalizado, evitando que o animal avance para as terras de cultivo.

por ser um animal extremamente social com sistemas de comunicação a curta e longas distâncias e por demonstrar grande empatia social, estes animais parecem ensinar e aprender com os outros indivíduos, reduzindo ainda mais os esforços das autoridades florestais, pois outros animais também deixam de ir pra essas regiões "proibidas".

além de evitar uma matança desnecessária esta operação ainda facilita a atuação dos guardas, concentrando-os onde os elefantes ocorrem.

é a tecnologia ajudando os esforços conservacionistas desse bicho que é um dos últimos mamíferos da megafauna terrestre, que devido a perda de habitat tem ficado cada vez mais em risco de extinção.

fonte consultada:
- site da bbc