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3 de agosto de 2010

Fitness e qualidade de vida

Apesar do nome do post parecer algo como slogan de academia aeróbica ou outra coisa afim, o que tem a seguir é um pouco menos fútil.
Um pocão, como diriam os mineiros.

Comecei na semana passada a folhear o livro entitulado Behavioral Ecology and the Transition to Agriculture (Origins of Human Behavior and Culture), para compreender as bases biológicas por trás da complexidade do estilo de vida urbano-agrícola que de tão complexo nem mais percebemos as relações entre as partes contrapondo-o ao estilo de vida do qual isso derivou: a caça e coleta way of life

Então vamo nessa.

O surgimento da agricultura é, numa perspectiva evolutiva, uma das maiores transformações da humanidade. Essa transformação tem magnitude comparável, na história evolutiva humana, à encefalização*, o bipedalismo , a manufatura de ferramentas e a origem da linguagem.
Estima-se que a agricultura surgiu entre 8 e 13 mil anos atrás. Só pra v. se situar, a nossa espécie humana (Homo sapiens) surgiu há cerca de 200 mil anos, mas muito antes, outras espécies humanas (do gênero Homo) já vagavam  pela terra desde um período estimado entre 1,5 e 2,5 milhões de anos atrás.

*encefalização, dentre outras coisas, significa a tendência que certas espécies têm em  desenvolverem cérebros maiores no tempo evolutivo.



A agricultura alterou enormemente os hábitos e relacionamentos do homem com a natureza (lê-se recursos naturais) e com os outros homens. Pela primeira vez na história da humanidade surgem as bases de comunidades que futuramente se tornariam cidades (aumentando constantemente as densidades populacionais), da economia, e do convívio com as mortes que nos levam ao primórdio das religiões.

Compreender os comos e por quês do surgimento da agricultura é importante para entender que o futuro da humanidade depende de uma "revolução" agrícola sustentável pela preservação de diversidade de cultivares e   considerando-se a inevitabilidade dos danos decorrentes da presença humana  mitigação de impactos ambientais da agricultura.
Às vésperas do surgimento da agricultura, a população mundial era estimada na ordem de 10 milhões de habitantes. Isso dá pouco mais da metade da população da região metropolitana de São Paulo  a região metropolitana é uma área urbanizada em grande parte, sendo que os recursos alimentares que o sustentam geralmente são importados de outras regiões do país ou mesmo fora dele, acarretando em custos diversos (tanto de capital natural, econômico e humano).

Seis regiões independentes são reconhecidos como os loci primários de domesticação e emergência da agricultura, são eles: Oriente Médio, África sub-Sahariana, China/Sudeste asiático, Leste da América do Norte, Mesoamérica e América do Sul.


Centros de origem da agricultura e 
áreas atuais com maior produtividade. daqui


A partir daí alguns aspectos antropológicos são relevantes. Segundo registros arqueológicos, as 6 sociedades-berço da agricultura eram bastante semelhantes às sociedades de caçadores-coletores que ainda existem atualmente. Redes de trocas de bens já existiam e as variedades domesticadas de plantas e animais foram ganhando espaço de forma crescente nesse canal, estimulando a migração de agricultores para territórios de caçadores-coletores, que ulteriormente foram substituídos ou incorporados em economias agrícolas.

Essas populações, que em princípio eram de caça e coleta, foram gradualmente diversificando suas estratégias de subsistência alimentar, adotando estratégias mistas (intermediárias entre exclusivamente de caça e coleta e exclusivamente de agropecuária).
Os caçadores-coletores foram ocupando habitats cada vez maiores no período que abrange o fim do Pleistoceno e o início do Holoceno (~ 11,5 mil anos atrás), em partes devido à extinção de espécies de caça de grande porte e a então necessidade de buscar novos recursos, mas também devido a uma ampla gama de recursos alternativos que surgia com as condições climáticas mais quentes e úmidas do fim da última grande era do gelo (que marca o início do Holoceno).

Bosquímanos, exemplo crasso de sociedade caçadora-coletora atual, 
vivem no Deserto do Kalahari, imagem daqui

Populações densas e sociedades de Estado centralizado como as nossas (e outras tantas do mundo ocidentalizado atual) dependem de um sistema agrícola de complexidade crescente, envolvendo modificações da textura, estrutura e fertilidade do solo que ocasionalmente resultam em severa degradação ambiental, sendo este último um dos maiores desafios do mundo contemporâneo.

Plantas e animais que se adaptam melhor ao processo de domesticação é, geralmente, devido a habilidades que elas apresentam em se dar bem nos ambientes modificados pelo homem. Em alguns casos, as modificações biológicas podem ter começado incidentalmente como um subproduto da co-evolução que se tornou explorável pelo homem.
Nos casos mais extremos, as espécies já são tão modificadas que são, hoje, totalmente dependentes do manejo humano para completar seus ciclos biológicos.


É muito estrago em muito pouco tempo... sempre me lembro daquela analogia do surgimento do homem nos dois últimos segundos do dia quando comprimimos a idade do universo a 24 horas. Nesse curtíssimo período atingimos 1/4 da superfície terrestre relacionados diretamente com a produção de alimentos (sem considerar outros impactos como a mineração e transporte que dão insumos à agricultura que ainda utiliza agroquímicos, geralmente de forma indiscriminada).
Somos quase 7 bilhões de indivíduos, produzimos alimentos suficiente pra mais de 12 bilhões de pessoas e mesmo assim mais de 800 milhões de pessoas passam fome. São números difíceis de digerir... Em nível específico gastamos recursos em demasia, de forma não muito eficiente. A tecnologia e o conhecimento nos permitiu forjar recursos artificiais que criam uma boa ilusão de que as coisas vão bem no curto prazo, apesar do mesmo macete criar uma tragédia (para nossa e para outras espécies que dependem de nós) num prazo um pouco mais longo.






É claro que temos que refletir nossos hábitos esforçando-nos para que a maior quantidade de pessoas tenham a mínima qualidade de vida necessária. Mas tão importante quanto o momento presente, é a manutenção dessa qualidade de vida para a posterioridade.
Não apenas pelo argumento romântico e superficial de deixar para nossos filhos e netos um mundo tão ruim quanto aquele que recebemos de nossos pais e avós, mas, mais romântico ainda apesar de meio embasado na biologia evolutiva, de criar subsídios para que as futuras gerações humanas (que vão tão longe ou além do que nossa imaginação é capaz) estejam presentes, e mais que isso, que estejam minimamente confortáveis (hahaha, pouco provável)... isso é o que eu chamaria de "manter o fitness com qualidade de vida".


veja também:
>Department of Horticulture and Landscape Architecture, da Purdue University, dos EUA. - com diversos textos e vídeos de palestras ocorridas lá sobre a origem da horticultura desde a pré-história 

> Metropolitan Agriculture e Reos são duas iniciativas gringas com o olho em São Paulo, o enfoque é a produção de alimentos na área metropolitana e/ou periurbana. (dica da Natália Garcia, do !sso não é normal)

>International Assessment of Agricultural Knowledge, Science and Technology for Development é uma avaliação internacional a respeito de diversos âmbitos da agricultura. Lançado em 2008. Não é possível acessar o documento completo, mas o acesso aos EXECUTIVE SUMMARY of the SYNTHESIS REPORT e GLOBAL SUMMARY for DECISION MAKERS (SDM) são de livre acesso



20 de fevereiro de 2010

doméstico, pero no mucho

espécies domesticadas geralmente têm alguma característica inata de interesse para o homem (desenvolvida através dos tempos pela seleção natural) que é posteriormente aperfeiçoada para maior desempenho pela seleção artificial juntamente com a amenização de aspectos selvagens por meio da domesticação
por estas características são relativamente poucas as espécies domesticáveis, já que nem todos suportam nossa presença e atividade (se bem que os misantropos também não lidam bem com isso... tudo leva a crer que as espécies não-sinantrópicas também sejam misantropas, haha), já que algumas espécies são mais tolerantes que outras  sejam espécies vegetais, animais ou pertencentes a quaisquer outros reinos taxonômicos.
os animais domesticados se destacam geralmente por características como produção de alimento (carnes e leites), vestimentas e afins (lãs e peles) e auxílio em atividade humanas (pastoreio, pesca, caça, transporte, carga, etc), acompanhando o homem desde que ele aprendeu a domesticar os vegetais (que culminou na agricultura há cerca de 10 mil anos). 
desde então o homem expandiu sua ocupação geográfica, assim como aumentou vertiginosamente sua população (assim como a dos animais que levava consigo), aumentando as demandas de recursos naturais como consequência.
no leque de animais domésticos, um que se destaca exatamente por apresentar virtualmente nenhuma dessas principais característica que interessam ao homem, está aquele que descende dos predadores mais elegantes da natureza: os gatos.


raças clássicas de gato, apesar de tudo, a diferença entre eles surgiu recentemente(fonte)

a origem destes animais como pet não é muito clara. 
a evidência aqueológica mais antiga (datada em 9.500 anos de idade), é de um corpo enterrado com um gato, descoberto em 2004, no chipre. até então, era comum a afirmação de que a domesticação do felino tivesse ocorrido no egito antigo, há apenas 3.500 anos.
gato no chipre há 9.500 anos atrás (circulado): provavelmente vieram do oriente médio.¹ 

apesar do gato mais velho já encontrado ser do chipre, é sabido que o gato selvagem do oriente médio (Felis silvestris lybica), o ancestral direto dos gatos domésticos atuais, não ocorre naquela ilha. sua distribuição original se situa na parte continental entre o norte da áfrica e a ásia menor, permitindo a inferência de que estes animais tenham sido levado pelo homem a partir do oriente médio.
é interessante lembrar que o oriente médio, mais especificamente o crescente fértil é o berço de um dos mais velhos (e mais intensamente manejados) sistemas agrícolas. traçando o paralelo entre a agricultura e a distribuição original do gato doméstico percebemos que ambos coexistem no espaço e tempo.
desta forma, percebemos o nicho marginal que o gato apresentou no processo de domesticação e sua inserção nas sociedades humanas: aqueles indivíduos que nos toleravam, podia aproveitar as sobras alimentares que a expansão das primeiras cidades provia, além dos pequenos animais (principalmente roedores) que eram atraídos pela estocagem de produtos agrícolas.
por este processo, o gato foi aos poucos aceitando o homem (e não o contrário, como poderíamos supor), tolerando o convívio nada fácil conosco, colonizando novos hábitats graças a atividade antrópica.
o gato é um animal explorador e, como qualquer outro animal, vai em busca de ambientes favoráveis, locais estes que apresentem condições mínimas de abrigo, água e alimento. atualmente, estas condições são satisfeitas virtualmente em todos os lugares que o homem habite. a capacidade de exploração é bastante notável, bem ilustrado no caso de sandy, o gato inglês que foi encontrado num navio em bilbao, na espanha.




tira de paulo kielwagen, lencinho umedecido é o escambau!


a expansão biogeográfica dos gatos domésticos está intrinsecamente relacionado à história do próprio homem, apesar de não ser claro a partir de que momento conseguimos domesticá-lo de verdade, sabemos com certeza que eles nos acompanham pelo menos desde o egito antigo (há 2900 anos a deusa Bastet é personificada na forma de um gato, sendo considerado um dos aspectos mais claros da domesticação do gato pelo homem). porém, a ocupação geográfica do gato doméstico sofreu um verdadeiro boom com a expansão do império romano, assim como das diversas rotas comerciais que surgiam, influenciando diversas culturas humanas ao longo de toda história e registrados extensivamente em forma de estatuetas e pinturas. estima-se que atualmente cerca de 600 milhões de gatos vivam conosco como animal de estimação.
porém, mesmo depois de tanto tempo de domesticação, o gato ainda é um animal um tanto "menos doméstico" do que aqueles que assim denominamos, devido principalmente à ausência de pressões de seleção que exercemos sobre eles, já que, como dito, não apresentam virtualmente nenhuma "utilidade" explícita para o homem, sendo acolhido mais pela aparência que por outro aspecto. 
eles são tão cuti-cuti!!

devido a isso, o gato não apresenta tão discrepantes diferenças de tamanho, forma e temperamento (em comparação com outros animais domésticos). para agravar, os intercruzamentos de variedades domésticas ferais e selvagens ocorre com certa frequência, mantendo obscuro o limite entre populações distintas.
as pressões seletivas humanas mais relevantes em relação às raças de gato ocorreram bem mais recentemente, lá pelos idos do século XIX (e todos com ênfase na aparência deste belo predador), e, hoje, com os avanços zootécnicos, os gatos estão num estágio totalmente novo de sua domesticação: a hibridização com espécies selvagens, gerando variedades de formas, tamanhos e manchas totalmente novas em gatos. (como exemplo veja o link da foto abaixo)
gato x serval, uma bela mistura denominada savannah cat ("gato da savana", em tradução livre) (fonte)


Fonte consultada:
¹Driscoll CA, Clutton-Brock J, Kitchener AC, O'Brien SJ. The taming of the cat. Scientific American June 2009.

9 de dezembro de 2009

mata ciliar

"povo que vota nas coxas toma na bunda."
andré dahmer, cartunista

você sabe o que é mata ciliar?
segundo a legislação brasileira, mata ciliar é a vegetação que margeia cursos d'água.
o crescimento de uma vegetação aumenta a capacidade de escoamento de águas pluviais e fluviais; a emissão de raízes reduz as erosões, dentre outras vantagens que uma vegetação pode trazer em comparação ao solo nu ou impermeabilizado.

no lugar da mata ciliar dos cursos d'água da paulicéia temos asfalto.
o asfalto, por sua vez, não é lá um material muito apropriado para absorver as águas.
numa cidade como esta é fácil perceber o estrago o que o asfalto em detrimento de uma mata ciliar causa. uma vez que a água não tem como entrar no solo rapidamente podemos imediatamente perceber as enchentes. em médio prazo há eventos bem menos explícitos (e mais nocivos) tais como o reabastecimento insuficiente dos lençóis freáticos, formação de enxurradas e processos erosivos diversos.

se sua memória é uma merda porcaria, aqui vão algumas cenas de ontem na cidade.



o código florestal (lei nº 4771/65) faz algumas considerações interessantes a respeito da mata ciliar:
Art. 2° Consideram-se de preservação permanente, pelo só efeito desta Lei, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas:
a) ao longo dos rios ou de qualquer curso d'água desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja largura mínima será:
(...)2 - de 50 (cinquenta) metros para os cursos d'água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinquenta) metros de largura; (...) [segundo vi no google maps, as marginais pinheiros e tietê têm, respectivamente, cerca 20 e 50 metros de largura, enquadrando-se nesta categoria]
isto quer dizer que se fosse para manter a vegetação conforme este artigo do código florestal, deveria haver uma mata ciliar nas marginais de largura mínima de 50 m, o que seria maravilhoso e não haveriam enchentes nestas proporções. porém, um pouco mais adiante, ainda no código florestal:
Parágrafo único. No caso de áreas urbanas, assim entendidas as compreendidas nos perímetros urbanos definidos por lei municipal, e nas regiões metropolitanas e aglomerações urbanas, em todo o território abrangido, obervar-se-á o disposto nos respectivos planos diretores e leis de uso do solo, respeitados os princípios e limites a que se refere este artigo.
como tudo que é da burocracia pública eles nos mandam de um lado ao outro... pois bem, o plano diretor estratégico do município de são paulo tem diversas partes muito interessantes ao caso. infelizmente vou deixar esta parte da análise para o próximo post, para que este post não se torne obsoleto demais em relação à enchente de ontem.

as chuvas de fim de ano coincidem com as diversas obras que o governo está fazendo na cidade. muitos com ar eleitoreiro, onde quer que v. ande nesta cidade se deparará com obras que apenas estorvam a vida do cidadão comum.

o dinheiro mal gasto do governo traz diversos prejuízos diretos e indiretos: cerca de 100 pontos de alagamentos que impediam que as pessoas se movessem de suas residências aos locais de trabalho, cerca de 10 pessoas mortas, espalhamento de doenças e sujeira, paralisação de transporte público e privado, 70t de melancias perdidas no ceagesp, dentre tantos outros prejuízos mensuráveis ou não que ocorreram e que, sem dúvidas e infelizmente, continuarão a ocorrer.

ainda ontem pela manhã o prefeito do DEMO, kassab, disse isso aqui:



me mata de vergonha.

a solução, ou melhor, a forma para minimizar os danos seria a de implantar parques e outras áreas verdes ao longo dos cursos d'água para dar uma chance de que as águas escoem por solos que tenham tal capacidade, e não que corram pelos asfaltos, levando vidas consigo (estes que apenas viram estatísticas e não soluções).

é isso aí, votam nas coxas, tomamos na bunda.

pra rir pra não chorar, leia mais sobre o caos de ontem aqui e aqui