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20 de fevereiro de 2010

doméstico, pero no mucho

espécies domesticadas geralmente têm alguma característica inata de interesse para o homem (desenvolvida através dos tempos pela seleção natural) que é posteriormente aperfeiçoada para maior desempenho pela seleção artificial juntamente com a amenização de aspectos selvagens por meio da domesticação. 
por estas características são relativamente poucas as espécies domesticáveis, já que nem todos suportam nossa presença e atividade (se bem que os misantropos também não lidam bem com isso... tudo leva a crer que as espécies não-sinantrópicas também sejam misantropas, haha), já que algumas espécies são mais tolerantes que outras — sejam espécies vegetais, animais ou pertencentes a quaisquer outros reinos taxonômicos.
os animais domesticados se destacam geralmente por características como produção de alimento (carnes e leites), vestimentas e afins (lãs e peles) e auxílio em atividade humanas (pastoreio, pesca, caça, transporte, carga, etc), acompanhando o homem desde que ele aprendeu a domesticar os vegetais (que culminou na agricultura há cerca de 10 mil anos). 
desde então o homem expandiu sua ocupação geográfica, assim como aumentou vertiginosamente sua população (assim como a dos animais que levava consigo), aumentando as demandas de recursos naturais como consequência.
no leque de animais domésticos, um que se destaca exatamente por apresentar virtualmente nenhuma dessas principais característica que interessam ao homem, está aquele que descende dos predadores mais elegantes da natureza: os gatos.


raças clássicas de gato, apesar de tudo, a diferença entre eles surgiu recentemente(fonte)

a origem destes animais como pet não é muito clara. 
a evidência aqueológica mais antiga (datada em 9.500 anos de idade), é de um corpo enterrado com um gato, descoberto em 2004, no chipre. até então, era comum a afirmação de que a domesticação do felino tivesse ocorrido no egito antigo, há apenas 3.500 anos.
gato no chipre há 9.500 anos atrás (circulado): provavelmente vieram do oriente médio.¹ 

apesar do gato mais velho já encontrado ser do chipre, é sabido que o gato selvagem do oriente médio (Felis silvestris lybica), o ancestral direto dos gatos domésticos atuais, não ocorre naquela ilha. sua distribuição original se situa na parte continental entre o norte da áfrica e a ásia menor, permitindo a inferência de que estes animais tenham sido levado pelo homem a partir do oriente médio.
é interessante lembrar que o oriente médio, mais especificamente o crescente fértil é o berço de um dos mais velhos (e mais intensamente manejados) sistemas agrícolas. traçando o paralelo entre a agricultura e a distribuição original do gato doméstico percebemos que ambos coexistem no espaço e tempo.
desta forma, percebemos o nicho marginal que o gato apresentou no processo de domesticação e sua inserção nas sociedades humanas: aqueles indivíduos que nos toleravam, podia aproveitar as sobras alimentares que a expansão das primeiras cidades provia, além dos pequenos animais (principalmente roedores) que eram atraídos pela estocagem de produtos agrícolas.
por este processo, o gato foi aos poucos aceitando o homem (e não o contrário, como poderíamos supor), tolerando o convívio nada fácil conosco, colonizando novos hábitats graças a atividade antrópica.
o gato é um animal explorador e, como qualquer outro animal, vai em busca de ambientes favoráveis, locais estes que apresentem condições mínimas de abrigo, água e alimento. atualmente, estas condições são satisfeitas virtualmente em todos os lugares que o homem habite. a capacidade de exploração é bastante notável, bem ilustrado no caso de sandy, o gato inglês que foi encontrado num navio em bilbao, na espanha.




tira de paulo kielwagen, lencinho umedecido é o escambau!


a expansão biogeográfica dos gatos domésticos está intrinsecamente relacionado à história do próprio homem, apesar de não ser claro a partir de que momento conseguimos domesticá-lo de verdade, sabemos com certeza que eles nos acompanham pelo menos desde o egito antigo (há 2900 anos a deusa Bastet é personificada na forma de um gato, sendo considerado um dos aspectos mais claros da domesticação do gato pelo homem). porém, a ocupação geográfica do gato doméstico sofreu um verdadeiro boom com a expansão do império romano, assim como das diversas rotas comerciais que surgiam, influenciando diversas culturas humanas ao longo de toda história e registrados extensivamente em forma de estatuetas e pinturas. estima-se que atualmente cerca de 600 milhões de gatos vivam conosco como animal de estimação.
porém, mesmo depois de tanto tempo de domesticação, o gato ainda é um animal um tanto "menos doméstico" do que aqueles que assim denominamos, devido principalmente à ausência de pressões de seleção que exercemos sobre eles, já que, como dito, não apresentam virtualmente nenhuma "utilidade" explícita para o homem, sendo acolhido mais pela aparência que por outro aspecto. 
eles são tão cuti-cuti!!

devido a isso, o gato não apresenta tão discrepantes diferenças de tamanho, forma e temperamento (em comparação com outros animais domésticos). para agravar, os intercruzamentos de variedades domésticas ferais e selvagens ocorre com certa frequência, mantendo obscuro o limite entre populações distintas.
as pressões seletivas humanas mais relevantes em relação às raças de gato ocorreram bem mais recentemente, lá pelos idos do século XIX (e todos com ênfase na aparência deste belo predador), e, hoje, com os avanços zootécnicos, os gatos estão num estágio totalmente novo de sua domesticação: a hibridização com espécies selvagens, gerando variedades de formas, tamanhos e manchas totalmente novas em gatos. (como exemplo veja o link da foto abaixo)
gato x serval, uma bela mistura denominada savannah cat ("gato da savana", em tradução livre) (fonte)


Fonte consultada:
¹Driscoll CA, Clutton-Brock J, Kitchener AC, O'Brien SJ. The taming of the cat. Scientific American June 2009.

28 de outubro de 2009

filmes, o ambiente e o homem

na última sexta feira, dia 23, teve início a 33ª mostra internacional de cinema, em são paulo.
esta é uma oportunidade anual de se conhecer os novos trabalhos de diversos cineastas do mundo todo, abrangendo tudo quanto é tipo de filme. aqui vou falar de dois documentários bem interessantes a que assisti: "a árvore da música" e "nos enfant nous accuseront"



o primeiro é um filme de otávio juliano, lançado este ano, e trata sobre diversos aspectos do pau-brasil (Caesalpinia echinata). sabiam que a madeira do pau-brasil é considerada a melhor para se fazer arcos de instrumentos orquestrais de corda como violino, cello, baixo e afins? pois é, devido a características como resistência e elasticidade, além da cor maravilhosa, esta é, há séculos, a matéria prima preferida utilizada por archeteiros (é como se chamam as pessoas que confeccionam arcos). porém, com a mata atlântica indo pro beleléu (donde o pau-brasil é endêmico), a árvore também corre grandes riscos de extinção.
é óbvio que o cenário crítico não é culpa dos músicos/archeteiros, mas atualmente esta é a principal atividade econômica associada ao pau-brasil.
o pau-brasil como qualquer brasileiro tem a obrigação de saber, é a planta que batiza nosso país. foi muito cobiçada por causa dos corantes vermelhos que contém. o vermelho, por sua vez, é símbolo de nobreza, o que levou o pau-brasil a ser explorada sem dó (além de que há tempos atrás - e não é preciso ir tão pra trás no tempo - a ordem de progresso era a exploração da terra e não sua compreensão e conservação).
atualmente os principais remanescentes de populações de pau-brasil se encontram em terrenos inapropriados para outros tipos de uso da terra, conseguindo, apenas por isso, se manter.
o doc mostra também, apesar de não enfatizar apropriadamente, que os agroflorestamentos com plantações de cacau é uma boa forma de se conservar espécimes de pau-brasil, com DAP (diâmetro na altura do peito) de mais de 3,5m, o que é um tamanho considerável para esta espécie. o filme também mostra como tem muito mais gringo (principalmente franceses) preocupado com a sobrevivência da espécie que as entidades nacionais.

o doc falha ao não abordar que isto é também reflexo do estilo de vida contemporâneo, e aparentemente acaba ignorando o contexto maior no qual isso tudo se insere, como se fosse uma preocupação apenas de botânicos, músicos, archeteireos e do IBAMA, fazendo o doc ter apenas um carater informativo sobre as pessoas diretamente envolvidas com a planta. apesar disso vale a pena ver o que as pessoas envolvidas com as populações remanescentes de pau brasil têm a dizer.



o segundo filme do qual falarei teve o título traduzido como "nossos filhos vão nos culpar", é um filme francês, de jean-paul jaud, do ano passado.
o doc faz a correlação de como os casos crescentes de diversas doenças nas últimas décadas está diretamente ligado a alimentação, devido às doses cavalares de agrotóxicos que se aplica na agricultura convencional (o qual o filme chama apropriadamente de agricultura química). a inspiração do doc vem de uma ação pioneira do prefeito de barjac, na frança. lá ele substituiu toda alimentação das cantinas de escolas primárias por alimentos orgânicos.
é notável como a distribuição do alimento é organizada, reduzindo enormemente o desperdício: contabilizando-se quantas pessoas (adultas, crianças grandes e crianças pequenas) irão comer e cozinhando o suficiente para elas.
o doc intercala cenas de eventos da unesco, de reunião do prefeito de barjac com agricultores orgânicos e químicos além de outros eventos como o dia-a-dia de escolas e famílias de alunos e depoimentos, principalmente de agricultores.
muito legal, muita inveja de pequenas comunidades que aprenderam a respeitar e agora convivem bem com sistemas produtivos compatíveis as necessidades locais.
muitas coisas pra dizer, mas estragaria os docs. como bom amante de filmes, o desconhecimento é o principal fator para uma boa surpresa.

então fica aí a sugestão para assistirem na mostra:
outros horários para a árvore da vida: 02/11 às 16:00 no cinema da vila e 03/11 às 14:00 no mis (museu da imagem e do som); para o nos enfant nous accuseront: 30/10 às 20:00 ccsp (centro cultural são paulo), 03/11 às 18:00 cine bombril sala1, 04/11 às 17:50 matilha cultural. clique nos linques no começo do post para mais informações.

          

boa mostra!

7 de setembro de 2009

homogeneização antropogênica e extrapolações

uma das consequências mais graves da atividade humana é a redução de biodiversidade.
e uma das formas pelas quais isto ocorre, é pela introdução de espécies invasoras.
a definição que acho mais pertinente para o termo é que estas espécies são exóticas (ou seja, que não têm sua origem evolutiva no local de ocorrência; alguns preferem o termo não-nativa) E causam algum tipo de dano ecológico. os danos mais comuns seriam competição com espécies nativas, hibridização ou até mesmo extinção de populações de espécies locais (recomendo os artigos publicados na revista da SBPC indicados no fim do post).

a introdução de uma espécie exótica num ecossistema se dá de duas formas: natural ou facilitada/mediada pelo homem. como caso de introdução natural de espécie, podemos citar eventos geológicos como a união geográfica da américa do norte com a do sul. este evento ocorreu no período neogeno (também conhecido como período terciário) da era cenozóica, num evento geológico recente de poucos milhões de anos, permitindo intenso intercâmbio de faunas. outros casos mais comuns sãopela expansão da distribuição de determinada espécie. atualmente a constante alteração do uso da terra faz com que este processo seja imensamente facilitado.

portanto, o surgimento do homem acelera ou medeia invasões biológicas. esta introdução, por sua vez, pode ser intencional ou acidental.
interesses econômicos são as principais causas da introdução intencional de espécies exóticas como produção agropecuária ou o mercado de animais de estimação (tanto legal como ilegalmente).

aqui acho relevante fazer um pequeno adendo:
para pessoas que compram pets exóticos, desde peixinhos, tartaruguinhas e outros bichinhos que são amplamente adquiridos mundo afora: quando não se desejar mais ter o animal exótico, não se deve JAMAIS soltá-lo na natureza (o bem que v. nem sabe se fará ao bichinho, pois ele pode morrer na primeira hora de liberdade, pode causar males ecológicos notáveis... a política brasileira é um ótimo exemplo disso). há casos de extinções de populações inteiras na natureza por causa de atitudes como essa de ir à beira da estrada e soltar o bicho no meio do primeiro mato que o cara encontra na frente. o ideal então é contatar uma entidade competente (não sei, mas eu procuraria o ibama ou secretarias de meio ambiente para saber como proceder) para destinar o animal. há casos em que os animais são destinados a zoológicos ou centros de reabilitação, mas depende muito de cada caso. muitas vezes é melhor sacrificar o animal.


agora voltemos à programação normal:
um caso comum em que se introduz propositalmente uma espécie exótica é a introdução dos predadores naturais de espécies introduzidas previamente (pode-se dizer que, geralmente, se introduz um fator de desestruturação ecológica na tentativa de amenizar outro; aumentando problemas ao invés de resolver). casos clássicos são relatados na austrália.
a introdução de forma acidental é muito menos intuitiva, e é bem ilustrada no caso de embarcações, que levam animais marinhos na água de lastro. no Brasil, os casos mais antigos remetem à época da colonização de nosso país, com invasões biológicas de moluscos incrustados nas caravelas.

caravelas traziam colonizadores a bordo e moluscos no casco. foto

de qualquer forma, a entrada de espécies invasoras tende a homogeneizar a genética das espécies que ocorrem num determinado local. isso quer dizer que a biodiversidade sofre uma redução. sobre este fenômeno associado à atividade humana, diz-se que ocorre uma homogeneização antropogênica. as atuais atividades em nível global aceleram ainda mais tal processo.
eu considero que as cidades tenham papel fundamental na homogeneização, não apenas das espécies mas do ambiente, já que as cidades compartilham algumas características comuns como o fato de que conforme crescem, tendem a se edificar cada vez mais, além de aumentar a concentração demográfica da população humana como dos animais sinantrópicos que ocorrem ali. é claro que ainda restam características específicas de cada local. na cidade de são paulo e em proximidades, por exemplo, podemos ver facilmente animais (nativos/exóticos, domesticados/semi-ferais/ferais/silvestres) como bem-te-vis, sabiás-laranjeiras, avoantes, joões-de-barro, pardais, garças-brancas, pombos-domésticos, maritacas, cães, gatos, ratos, baratas, aranhas, etc..., além do próprio homem, sem grande variação das espécies predominantes na fauna local. isso obviamente é resultado da ocupação humana, que cria um "vegetação" homogênea (uma "selva de pedras"?!). hábitats sem variação ambiental invevitavelmente tem uma fauna pouco variada (isto é, pouco diversificada).

o papel ecológico dos componentes das cidades é bem homogêneo apesar de detalhes estéticos diferentes. a expressão humana assim como qualquer outro fator ecológico, é influenciada e influencia o ambiente ao mesmo tempo que é uma influência sobre outros seres: é a relação biótico e abiótico que define a ecologia.

são paulo, ambiente homogeneizado pela ocupção humana. foto

como ambientes urbanos são homogêneos, a expressão humana também tende a se homogeneizar. quero dizer que a cultura também sofre a homogeneização criada pelo próprio homem. músicas globais, filmes globais (não da rede globo, mas hollywoodianos!hahaha), idiomas globais. tudo isso tende a hibridizar com ou substituir culturas locais.
a diversidade de idéias parece diminuir cada vez mais. alguns sofrem mais com isso que outros, claro, mas no geral isso se dá em detrimento de folclores e artes, valores morais e familiares locais, etc... possibilitando a identificação de pessoas totalmente diferentes, mas em detrimento de regionalismos.

hoje em dia fala-se em cidadãos globais, preocupados com causas globais (a internet age como o melhor catalisador já inventado). o futuro do planeta e o estilo de vida a se seguir; tendências culturais de todas as artes nos locais mais bacanas. isso tudo tende a fazer com que idéias mais "adaptadas" sobrevivam. cada sociedade é um ambiente adequado para idéias diferentes, e mais uma vez surge a identidade local. perdem-se muitas cores e ganham-se poucas, é uma relação assimétrica, talvez desprovida de intenção. a homogeneização não ocorre apenas em cidades, mas em qualquer local que o homem ocupe e homogeneíze, afetando as diversidades biológica e cultural.

recomendações de leitura
- Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Impacto das espécies invasoras no ambiente aquático.
- Machado, CJS, Oliveira AES, Matos DMS, Pivello V, Chame M, Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Recomendações para elaboração e consolidação de uma estratégia nacional de prevenção e controle das espécies exóticas no Brasil.

18 de março de 2009

viva o homem!

o homem criou algumas coisas fantásticas em sua curta história (nem um milhão de anos) e, em minha opinião, as três coisas mais fascinantes do homem são a domesticação, a arte e a tecnologia.

a primeira remete à compreensão da natureza. de entender como ela se comporta e a partir disso, acumular informações para obter sucesso em criar variedades de seres com as características que almejamos, no caso o cão (border collie) e a ovelha.

a segunda, é o ápice da capacidade simbólica. é como uma consequencia da comunicação, que derivou e expandiu seu potencial simbólico, permitindo a representação não apenas mental mas fisicamente também.

e o último é a capacidade de criar, modificar e aperfeiçoar ferramentas que não têm utilidade imediata no sentido de aumentar o sucesso biológicoG da espécie.

juntando tudo isso - até agora não sei se isso é montagem, mas parece ser de verdade - podemos ter uma boa propaganda:


G sucesso biológico refere-se ao fitness, que indica a probabilidade de um determinado genótipo estar presente na população mundial (pool genético) daqui a várias gerações.

via point of view

3 de março de 2009

margaret mee na pinacoteca

este fim de semana fui à pinacoteca.
fazia muito tempo que não ia lá.
fui para ver algumas ilustrações e pinturas de margaret mee.

Neoregelia margaretae (família Bromeliaceae), grafite e guache sobre papel.

a exposição tem principalmente orquídeas e bromélias amazônicas.
a minúcia e a delicadeza das ilustrações são fantásticas, e vale observar cada detalhe dos desenhos.
para saber um pouco mais sobre a obra e vida de margaret mee, visite a exposição na pinacoteca, até o dia 15 de março. aos sábados a entrada é franca.