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7 de dezembro de 2012

Johan Rockstrom @TED




Crescimento populacional, mudanças climáticas, destruição de ecossistemas e a noção linear de mundo do homem são o que Johan Rockstrom afirma ser a pressão quádrupla que define o que se conhece como antropoceno - em que o homem exerce um papel na mudanças planetárias.

Degradação do solo, superexploração de recursos pesqueiros (que seria a tradução mais apropriada de overfishing do que 'pesca predatória' já que predadores são itens essenciais pro bom funcionamento de um sistema...), perda de biodiversidade, gases de efeito estufa de vários tipos em níveis progressivamente crescentes, todos esses fenomenos ocorrendo principalmente a partir de meados de 1950.

Isso tudo acaba gradualmente com a resiliência do sistema que é a Terra, já que estamos tirando todos os recursos naturais que trabalham para que esse sistema funcione adequadamente.

Assita o vídeo pra entender melhor como todos esses fenômenos catastróficos estão nos levando e como o uso de recursos localmente é chave para mudarmos a relação com o planeta.

7 de abril de 2012

obsolescencia programada



'crédito, publicidade e obsolescência programada'
















25 de abril de 2010

tezão amarelo

V. já viu em alguma embalagem de comida (humana ou não) que estampa um grande T dentro dum triângulo amarelo?
Segundo as leis de biossegurança do Brasil, qualquer produto que contenha mais de 1% de organismos geneticamente modificados (OMFG) (OGMs) - ou seja, transgênicos -  deve trazer estampado o seguinte símbolo em sua embalagem:




Relato de caso
Outro dia fui comprar ração pras minhas cadelas e notei, depois de chegar em casa, que a embalagem trazia esse símbolo. Olhei o saco de ração anterior, que já tava no fim, e também tinha o tal símbolo.
A partir disso procurei um saco de ração mais velho que esses, porque eu nunca tinha reparado que tinha transgênicos na ração que dava pra meus cães. Enfim achei um terceiro saco, e nele não havia esse símbolo. Considerando que compro aproximadamente um saco de ração por mês, o uso declarado de OGMs  por parte da fabricante de ração (Purina) era recente.

Decidi escrever pra Purina, que pertence à Nestlé, pra anunciar que apesar de estar satisfeito com a qualidade do produto, deixaria de comprar a ração por questões ecológicas que vou explicar melhor logo abaixo. Como resposta, disseram que devido à minha mensagem entrariam em contato comigo através do telefone que deixei no cadastro.

Na quinta feira me ligaram pra esclarecer que os OGMs que eles utilizam eram variedades de soja resistentes à herbicidas, do qual tratarei posteriormente em outro post.
Eu já tinha começado a redigir este texto achando que o que eles usavam era principalmente o milho transgênico. Por isso vou começar a série sobre OGMs pelo milho.

Afinal, porque o alimento transgênico é tão polêmico?
O transgênico é polêmico porque se trata de alimento.
Os nutrientes contidos na alimentação é fisiologicamente necessária para qualquer organismo heterótrofo (ou seja, que não produz o próprio alimento), além disso, a agricultura é a atividade humana de maior escala e impacto na natureza. Logo, além do aspecto ambiental, há diversas implicações políticas, econômicas e sociais muito amplas.

Não ignoro o fato de que o impacto na produtividade, no meio ambiente, na economia e até mesmo na vida dos produtores podem ser positivos ou negativos, dependendo da transgenia feita. Mas é bastante tênue a divisa entre estes dois extremos e comumente os interesses econômicos falam muito mais altos do que as preocupações com qualidade de vida das pessoas ou do meio ambiente.

As variedades transgênicas demoram pra surgir no mercado. Pra se ter uma idéia, algumas variedades transgênicas só conseguem ser disponibilizadas periodicamente de dez em dez anos. Isso porque o esforço despendido em novas expressões gênicas é feita de forma empírica, isto é, em busca de determinadas características por tentativas e erros, o que acaba demorando vários anos, além de  milhões de verdinhas em pesquisa.

Muitas vezes é possível que ninguém saiba ao certo como determinada característica é expressada, e portanto, não tem como fazer prospectos precisos acerca do potencial impacto que estas alterações podem ter a longo prazo.

O problema ecológico que surge é o que pode ocorrer com qualquer população próxima a outra: fluxo gênico.
O que quero dizer com fluxo gênico ser um problema é que não é possível impedir que plantas sejam dispersadas, ou polinizadas e que troquem material genético entre elas livremente, a não ser que a lavoura seja totalmente controlada e isolada.
Fazer tal controle e isolamento no agribusiness brasileiro seria uma coisa no mínimo insensata e inviável, dada a escala em que é praticada.

Mas qual o problema do tal fluxo gênico ocorrer livremente?
O problema é que como a transgenia altera geneticamente um organismo, ele pode transferir tal alteração a organismos descedentes por transferência vertical (reprodução), ou potencialmente (mesmo que raro), causar alterações em organismos não aparentados de diferentes grupos (inclusive o homem) através da transferência horizontal (clique no link para entender um pouco melhor este caso).

Como já disse, utilizarei o caso do milho, convencional x transgênico: um caso real publicado recentemente no Brasil, mais precisamente no Paraná (estado que é maior produtor de milhos do país).
O milho apresenta polinização pelo vento (polinização aberta) e as lavouras convencionais podem cruzar com as trangênicas, caso não haja controle. Segundo a edição de 12 de abril de 2010 do jornal Brasil Econômico, a saca de milho transgênico custa entre R$16 a R$16,50 enquanto o convencional chega a custar R$18, afetando direta e negativamente as economias do produtor que optou pelo milho convencional que tenha sido contaminado pela transgênica. E, portanto, o impacto econômico pode ser gigantesco, dependendo da escala da produção.

No Brasil, a regulamentação de OGMs é feita pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).   E ela regulamenta que uma lavoura transgênica deva distar 100m (de campo aberto) de uma lavoura convencional ou então 20m mais 10m de linhas de plantio entre elas. Segundo a Comissão (que supostamente deveria se apoiar em argumentos técnicos e científicos ao invés de econômicos), isso seria o suficiente para que não ocorra o tal fluxo gênico entre uma lavoura convencional e transgênica.

Segundo informações do site do SEAB, Rubens Nodari, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pensa o seguinte:
o Paraná é o único Estado que se preocupa e adotou providências sobre esse tema. De acordo com ele, são necessários, pelo menos, 400 m de distância entre a cultura modificada e não-modificada geneticamente para evitar a polinização tanto para o milho como para a soja, destacou. 
Pois bem, a Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Paraná (SEAB) fez estudos que comprovavam que isso não é verdade, mas o CTNBio simplesmente ignora ao não rever suas próprias regras. E não é por falta de conhecimento, pois a SEAB notificou diversos órgãos públicos tais como Ministério do Desenvolvimento Agrário; da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; do Meio Ambiente; da Saúde; da Justiça; da Casa Civil; Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e à Presidência da República

Infelizmente não encontrei, disponível na internet, a nota técnica publicada no começo do mês entitulada "Plano de Monitoramento do fluxo gênico entre lavoura de milho transgênico e não transgênico na região Oeste do Paraná". Mas o caso foi amplamente noticiado e é possível encontrar algumas outras informações relevantes sobre o assunto no próprio site da SEAB. Um quadro que encontrei em diversos sites resume os dados sobre as taxas de contaminação encontrados pelo SEAB:


Resumo dos dados encontrados pelo SEAB acerca da contaminação de milho transgênico em lavouras convencionais. 
Os dados levantados são referentes à última safra de inverno do milho ("milho safrinha"). tirado daqui

O assunto é complexo e as entidades alinhadas com a CTNBio alegam até que os dados publicados pela SEAB são meramente técnicas, não tendo sido constatadas em publicações científicas e que, portanto, não teriam validade científica.

Essa situação agrava ainda mais a perda gradual e crescente da agrobiodiversidade (com a substituição e extinção de variedades crioulas e/ou endêmicas) e da biodiversidade silvestre (já que o risco deste tipo de contaminação para áres silvestres também existe).A ocupação e expansão desordenada, sem fiscalização e planejamentos efetivos das fronteiras agrícolas também contribui fortemente para esse cenário.

Apesar do milho ser diversificado, boa parte já foi extinta!

Segundo dados da FAO, mais de 80% da biodiversidade do milho está extinta... consequentemente o conhecimento no preparo de alimentos e do cultivo dessas variedades também. No outro lado da moeda, Edilson Paiva, presidente da CTNBio, se gaba de que  “Há mais de 70 anos sabemos mexer com a polinização do milho. Ele é tão domesticado que não sobrevive sem a ajuda do homem”. É óbvio que isto vem com a homogeneização de toda a diversidade, não só biológica, mas geográfica e cultural. É  a obsoleta idéia equivocada do modelo criado pelo imperialismo cultural de séculos atrás, que persiste em países como o nosso. E o sistema de produção atual ainda continua nesse mesmo sentido, sendo até valorizado como um aspecto positivo de desenvolvimento.

Este é o ano da biodiversidade, e este é um momento propício para que reflexões a respeito da biodiversidade e do futuro de recursos naturais sejam levadas mais a sério. Enquanto a economia considerar 50 anos como longo prazo, não sobreviveremos muito além disso com alguma saúde social e econômica (e consequentemente ambiental).

Como todas as questões pertinentes à sustentabilidade, o que era de se esperar era de que, na incerteza, prevalecesse o princípio da prevenção.
No final das contas é uma questão da escala em que tratamos o problema.
Ainda tenho a esperança de um futuro próspero para a humanidade, e que ela não continue rastejando em agonia nessa direção.

14 de fevereiro de 2010

lagos salgados e desastres antrópicos

os lagos salgado são corpos d'água formados por rios endorréicos que desaguam numa bacia. rios endorréicos são aqueles que correm para dentro do continente ao invés de desaguar no mar.
na bacia ocorre a formação de um lago, porém este lago só recebe água, sem haver qualquer saída exceto pela evaporação. desta forma, a água tem sais e minerais que se tornam cada vez mais concentradas, tornando a água salgada.

em regiões semi-áridas este tipo de formação é altamente cobiçada, já que as águas doces dos rios poderiam alimentar campos de cultivo, complementando a economia local.porém, algumas vezes o sistema de irrigação em regiões semi-áridas pode não considerar consequencias ecológicas, econômicas, sociais e de saúde pública e acabam gerando catástrofes notáveis, o caso mais bem ilustrado da história humana é o do mar de aral.

mar de aral

o mar de aral se situa entre cazaquistão e uzbequistão, na ásia central e já foi considerado o quarto maior lago salgado do mundo, com extensão de 68 mil km² e 31m de profundidade, era alimentado por rios que formavam pelo degelo das montanhas da ásia central; porém, desde a década de 1960, parte dos rios foram desviados principalmente para irrigar plantações de algodão (conhecido como "ouro branco"), constituindo o maior projeto de desvio de curso de água da união soviética. apesar desse desvio ter permitido o florescimento do deserto, isso devastou o mar de aral. a consequência a longo prazo é que nos últimos 30 anos o lago perdeu mais de 60% de seu tamanho original.

fotografia de satélite de parte do mar de aral em três tempos distintos: 1973, 1987 e 2000, mostrando a progressiva redução do mar de aral (fonte) - clique para ampliar

a vazão de água recebida pelo mar de aral era de 50 km³ de água doce em 1965, e no início da década de 1980, esse volume caiu a zero! consequentemente os sais e minerais desse "mar" começaram a se concentrar cada vez mais, alterando toda ecologia do local e afetando negativamente as populações de peixes, reduzindo-as drasticamente.
a indústria pesqueira era bem forte na região empregando cerca de 60 mil pessoas, porém a redução dos rios que ali desaguavam fez esta indústria cair vertiginosamente, sendo extinta no início da década de 1980.

embarcação pesqueira abandonada nas proximidades do mar de aral. (fonte)

a redução do lago alterou também o clima e, consequentemente, as estações para cultivo encurtaram. na agricultura local o algodão não tinha mais o clima apropriado e o arroz passou a ser a alternativa imediata, exigindo demandas ainda maiores de água.

as consequencias secundárias desta tragédia ambiental é que os fortes ventos que sopram na ásia central retira e deposita dezenas de milhares de toneladas de partículas da bacia todo ano, encolhendo ainda mais o mar de aral, além disso, os ventos trazem fertilizantes e outros agroquímicos que além de contaminara bacia do lago ainda se torna um risco à saúde pública (já que os intensos ventos levantam estes tipos de partículas sendo posteriormente respirados pelos ex-pescadores desempregados) e ainda leva sais e minerais que inviabilizam ou dificultam outras áreas cultiváveis no entorno. 

o desemprego e a pobreza ainda força a economia local a depender de exportações de suprimentos que não podem mais ser adquiridos ali.

a secura e a última tentativa de salvar o lago
conforme o lago foi encolhendo, lagos menores foram se formando. e alguns desses "sublagos" chegaram mesmo a secar de vez. nessa iminente morte inevitável o banco mundial financiou pro cazaquistão construir (em 2005) uma barragem entre os dois lagos principais (norte e sul), para ao menos tentar salvar uma parte do que um dia foi o quarto maior lago salgado do mundo. esta é na verdade uma sentença de morte para a parte sul do lago, já que agora toda água que vem do degelo das montanhas agora fica restrito apenas à porção norte. pelo menos esta parte do plano está dando certo.

foto do mar de aral em 2009. a linha preta indica o tamanho original da década de 1960 (fonte)

para ter uma idéia de como o mar de aral encolheu na década passada confira esse link aqui. nesse link é mostrado a foto panorâmica anual do período entre 2000-2009, e dá pra ver como a porção sul (maior) já foi pro brejo (vide foto acima) , enquanto a pequena porção norte (das fotos abaixo) começa aos poucos a expandir a partir da construção da barragem em 2005.

porção norte mantido pelas barragens construídas em 2005. (fonte

da próxima vez que v. ouvir falar em irrigação para o boom agrícola de uma região semi-árida (e.g. rio são francisco) já sabe o que pode se esperar numa das piores hipóteses: perda de populações de animais, riscos de saúde pública, contaminação de água e solo por agrotóxicos e por aí vai

para entender mais profundamente o caso do mar de aral acesse aqui

fontes consultadas

25 de novembro de 2009

pare de reciclar, comece a reparar: platform21's repair manifesto


Smith Island, abril de 1989, após o derramamento de petróleo do exxon valdez (fonte)


a questão do lixo e outros resíduos é cada vez mais preocupante, e é um fator intrínseco à ocupação humana. onde quer que estejamos sempre geramos resíduos provenientes de nossas atividades, desde o que vestimos, comemos, até os mais graves impactos que podemos causar, tais como vazamentos (em escala industrial) de radiação ou petróleo. todos os impactos são devido às nossas escolhas na forma que aceitamos ocupar o espaço. (sim, aceitamos, porque por mais que sejamos contra a exploração e degradação intensiva dos recursos naturais, nenhuma ou pouca coisa fazemos para mudar a situação no curto ou médio prazo. "pequenas ações que mudam o mundo" são frases criadas pelo marketing verde para v. acreditar que contribui para melhorar a situação, mas para mudar de verdade é preciso causar mudanças estruturais graves tanto nas pessoas como nas infinitas instituições que existem por toda humanidade, e isto, sinto dizer, v. não faz com "pequenas ações que mudam o mundo".)

isso tudo associado à nossa população ainda continuamente crescente só intensifica o problema gerado pelo lixo. pequenas ações que mudam a humanidade (e não o mundo) seria a de não ter filhos, pois a qualidade de vida de qualquer população conhecida pela biologia, é reduzida conforme a densidade populacional aumenta. em mamíferos, pelo menos, ainda existe um conceito, o qual não lembro o nome (mas que é usado na produção do gado leiteiro), de que cada indivíduo tem uma distância que necessita para se sentir bem espacialmente em relação a outros indivíduos. numa multidão, por exemplo, nos sentimos demasiado incômodo a não ser quando motivados por um fim que valha a pena (shows, festas, etc. cada um com suas preferências pessoais).

o problema do lixo é explícito em megalópoles (pelo menos de países em desenvolvimento). em São Paulo, por exemplo, o lixo adequadamente descartado é destinado a aterros particulares ou exportados a outros municípios (encarecendo o destino de 16 toneladas de resíduos gerados diariamente), já que todo local apropriado neste município transborda de lixo. parte nem recebe esta destinação correta e vai para os córregos e rios, ou abandonados em terrenos, avenidas e ruas. tudo de forma que deixa muito a desejar.


cena cotidiana: lixo à beira do córrego do ipiranga na av. ricardo jafet (fonte)

a reciclagem foi coroada a deus ex machina da tragédia humana, como uma solução final para as merdas que fazemos o nosso estilo de vida.  mas à reciclagem parece que está embutida uma idéia implícita de que sendo reciclável nenhum mal é cometido contra nossos preciosos recursos naturais, sendo mais uma motivação para o consumismo desenfreado que um fim adequado aos produtos do consumo.

na verdade este não é um simples bradar contra a reciclagem, mas um chamado contra a reciclagem como uma solução final. a reciclagem é apenas a forma mais apropriada de descarte de determinado material, mas a idéia principal é antes de mais nada reduzir o consumo das coisas, além de reutilizar o que já se tem em mãos (os clássicos 3R - reduzir, reutilizar e reciclar, nesta ordem, como todos aprendemos ainda no ensino fundamental).

neste contexto apresento-lhes o repair manifesto. este é um manifesto do grupo holandês platform21. segundo eles mesmos, são uma plataforma de design visando influenciar positivamente a relação entre usuário e produto.

as idéias deles sao bem simples. são as seguintes:

1. faça seus produtos durarem mais!
consertar significa a oportunidade de dar a um produto uma segunda vida. consertar não é anticonsumo: é antidesperdício.

2. as coisas têm que ser projetadas para poderem ser consertadas
designer de produtos: faça coisas consertáveis. forneça informações [sobre diy (do it yourself)] claras sobre como consertar.
consumidor: compre coisas que você sabe que podem ser consertadas, ou descubra por que elas não existem. seja crítico, faça perguntas.

3. consertar não é substituição
repor é jogar fora a parte que não presta. esse NÃO é o tipo de repare que estamos falando.amente.

4. o que não mata engorda (a expressão em inglês é muito mais feliz: o que não mata, fortalece)
toda vez que você conserta algo nos acrescentamos ao seu potencial, à sua história, à sua alma e à sua beleza inerente.

5. consertar é um desafio criativo
fazer reparos é bom para a imaginação. usando novas técnicas, ferramentas e materiais conduzimos a uma possibilidade ao invés a um beco sem saída.

6. conserto não sai de moda
reparo não é acerca de estilo ou tendências. não há datas de validade para produtos reparáveis.

7. consertar é descobrir
ao consertar objetos, você descobre coisas incríveis sobre como eles realmente funcionam. ou não funcionam.

8. conserte – mesmo quando a crise acabar
se você acha que este manifesto tem a ver com a recessão, esqueça. não estamos falando de dinheiro, mas de mentalidade.

9. coisas consertadas são únicas
mesmo falsificações se tornam originais quando você as conserta.

10. consertar é ser independente
não seja um escravo da tecnologia – seja seu mestre. se está quebrado, conserte e torne-o melhor. e se v. é um mestre, outorgue o poder aos outros.

11. você pode consertar tudo, mesmo um saco plástico
mas nós recomendamos arrumar uma sacola que dure mais, e então repará-la se necessário.

pare de reciclar. comece a reparar.

é isso.
por um mundo menos destrutivo e mais construtivo.
alguns podem pensar que é só questão de bom senso, mas explicitar é necessário.

para algumas informações oficiais sobre o destino do lixo na cidade de são paulo clique aqui

21 de outubro de 2009

pela biodiversidade alimentar e cultural

ainda na pegada da questão alimentar...

o cultivo de determinado alimento está intrinscecamente ligado ao conhecimento agrícola de manejo deste produto. porém, atualmente o que vemos por aí é a homogeneização da diversidade local de variedades alimentares. quantos vegetais vêm a mente quando v. pensa em comida? provavelmente te ocorra alguns grãos como milho, trigo, arroz, feijão, umas dez a quinze frutas, mais algumas folhas, castanhas/nozes e só... e bem provavelmente, v. ingira menos de 50 variedades de plantas no seu dia a dia.
por todo o mundo, os produtos menos difundidos culturalmente acabam extinguindo por simples desinteresse comercial e portanto há uma homogeneização na alimentação em detrimento da diversidade cultural e biológica. em países megadiversos como o brasil, este cenário é ainda mais doloroso, pois a porcentagem de cultivares que perdemos é enorme, e isso é resultante de todo o processo tecnológico já discutido no post anterior, associado aos interesses comerciais.
os fitopatógenos que se expressam devido à perda de diversidade e alta densidade demográfica chegam a forçar a migração de cultivos inteiros. a banana maçã, por exemplo, não é cultivada no estado de são paulo pois aqui esta variedade é susceptível a um fungo que "empedra" a parte comestível da banana. essa cultura sofreu um processo de migração e hoje é plantada do espírito santo pra cima.
o mamão também sofreu esse processo, vítima de um vírus causador do mosaico nessa planta. disto surgem até soluções como o emprego formal de mosaiqueiros, que são pessoas especializadas a identificar indivíduos afetados por este patógeno e são autorizados a cortar e queimar para que se evite a propagação da doença.
ambos cultivares são importados de outros estados, um dos motivos pelo qual o alimento está cada vez mais caro em são paulo.

nesse cenário, uma iniciativa que me chama a atenção, seja pelo aspecto biológico como gastronômico-comercial é a da fundação slow food para a biodiversidade (link para o site brasileiro e internacional).

esta é uma organização que
Foi fundada em 1989 como resposta aos efeitos padronizantes do fast food; ao ritmo frenético da vida atual; ao desaparecimento das tradições culinárias regionais; ao decrescente interesse das pessoas na sua alimentação, na procedência e sabor dos alimentos e em como nossa escolha alimentar pode afetar o mundo.
 dentro desta fundação há o projeto arca do gosto:
Arca do Gosto é um catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e divulga sabores quase esquecidos de produtos ameaçados de extinção, mas ainda vivos, com potenciais produtivos e comerciais reais. O objetivo é documentar produtos gastronômicos especiais, que estão em risco de desaparecer. Desde o início da iniciativa em 1996, mais de 750 produtos de dezenas de países foram integrados à Arca. Este catálogo constitui um recurso para todos os interessados em recuperar raças autóctones e aprender a verdadeira riqueza de alimentos que a terra oferece.
a iniciativa mantém alguns alimentos (incorporados à cultura brasileira ou nativos) a salvo da extinção.
a arca ainda contém apenas 9 cultivares diferentes na versão tupiniquim, mas se mostra uma iniciativa notável muito boa para a agrobiodiversidade e para nossos estômagos.


arroz do pantanal, o próximo candidato à arca. foto

texto inspirado pelo blógue come-se

17 de outubro de 2009

comida é pasto

quando pensamos no sistema de produção e distribuição do alimento, raramente vemos pela perspectiva ecológica [como "ecológica" entendo a interrelação das partes vivas com as não-vivas, assim como de cada parte consigo mesma; tudo resultante de uma história evolutiva]. aqui tentarei fazer algumas considerações interessantes sobre o assunto.

pra começar, a alimentação e a reprodução são, ao meu ver, os dois aspectos mais cruciais da vida. com a reprodução elevamos a probabilidade de manter os genes na população mesmo daqui a várias gerações - afetando o conjunto de genes dessa população (pool genético) -, mantendo ou mesmo elevando o que chamamos de fitness. e com a alimentação obtemos energia para nos manter vivos, aumentando a probabilidade de ter um sucesso reprodutivo.

acho que o modo mais claro para entender o sistema atual de produção alimentar é a partir da a evolução do próprio homem, e assim perceber como chegamos ao ponto em que estamos, e mais que isso, perceber o que estamos fazendo e para onde este modo de vida está nos levando.

o gênero Homo e o H. sapiens
pertencemos a espécie Homo sapiens, que ironicamente significa homem sapiente. se analisarmos os nossos ancestrais humanos (Homo ssp), veremos que apesar de sermos os únicos humanos atuais, outros já vagaram pela superfície do planeta.

o gênero Homo, da família Hominidae, surge há cerca de 2,5 milhões de anos, no sul e leste da áfrica. o homem sempre ocupou nichos marginais da savana africana, desenvolvendo adaptações fisiológicas, anatômicas e sociais interessantes. pelos registros fósseis se observam diversas aquisições evolutivas até o surgimento de nossa querida espécie, dentre elas podemos destacar o bipedalismo [acho o termo mais apropriado que bipedia, pois bípede só quer dizer que o bicho fica sobre duas patas, já o bipedalismo dá a idéia da locomoção por meio da alternância das pernas]. esta mudança permite ao homem abandonar o hábito arborícola e utilizar as mãos para fazer movimentos manuais finos. por toda a linhagem humana, verifica-se um gradativo aumento do volume encefálico, isto é, crescente volume do cérebro. este aumento está intimamente ligado com o aumento da capacidade cognitivo-simbólica [que originam fala, escrita, gramática, artes, religião, dentre tantas outras coisas demasiado humanas], ocorrido no paleolítico superior (num período entre 60 mil e 10 mil anos atrás conhecido como período da revolução cultural).


liberdade das mãos para manipulação de ferramentas e armas
dawn of man - cena de 2001: uma odisséia no espaço, de stanley kubrick


a alvorada do homem, apesar de toda essa história evolutiva não tem um cenário muito animador, éramos apenas uma espécie de primatas nômades no meio do semi-árido africano, motivo pelo qual somos generalistas-oportunistas e onívoros, sendo indefesos isoladamente apesar de um poder virtualmente infinito quando em grupo. antes da grande diáspora humana (de saída do continente africano), o homem é quase extinto, se não fosse sua capacidade de representação gráfica para indicar a localização de recursos.

a capacidade de habilidades manuais finas permite o desenvolvimento da tecnologia, principalmente de caça e de guerra. armas são forjadas pela primeira vez a partir de pedras lascadas (na famigerada Idade da Pedra), nos dando uma perspectiva fértil na obtenção de alimento e território. outras habilidades do homem são bem generalistas: não corre muito rápido, não é muito grande, não nada grandes distâncias, não sabe voar, não escala muito, mas é bastante resistente em atividades moderadas de longa duração. a utilização desta habilidade se torna a principal estratégia para caça, permitindo ao homem vencer uma caça pelo cansaço (ao contrário da estratégia de atacar uma presa com o fator surpresa e matar com relativa rapidez, comum em diversos predadores).

a carne de caça tem um significado único, não apenas visceral (biológico), mas a partir do desenvolvimento cognitivo já mencionado, adquire um valor simbólico afetando toda estrutura social e política do homem. o retorno dos caçadores obviamente é comemorado com festa e muita carne, ritual semelhante que ainda ocorre entre humanos. um domínio tecnológico paralelo a tudo isso é o do fogo, que permite a existência da culinária, associando a carne caçada pelos machos com elementos vegetais coletados pelas fêmeas do bando.

revoluções agrícola, industrial e verde
entre dez e cinco mil anos atrás ocorre a revolução agrícola do neolítico em diversos locais independentemente, como meio de controlar os recursos alimentares necessários as sociedades humanas. esta é uma agricultura rudimentar, na qual as espécies escolhidas, tanto de plantas como de animais, são apenas incorporadas na sociedade humana, de forma a se ter fácil acesso ao alimento. desta forma, o homem deixa, pela primeira vez, de ser nômade, fixando-se em rudimentos de cidades, baseados no núcleo familiar. a domesticação de ruminantes é o passo crucial para a consolidação tecnológica que precede a expansão agrícola. a domesticação propriamente dita, ocorre posteriormente, quando os recursos agropastoris passam a sofrer intenso manejo para a produção de alimento e não apenas agregados à sociedade para controle de recursos.

se observarmos por esta perspectiva evolutiva, percebemos mais facilmente que as mudanças ocorridas nos últimos 2 milhões de anos, faz do sistema de obtenção de alimento, um fator decisivo no desenvolvimento populacional da espécie humana.

conforme o tempo passa o homem se torna o animal que conhecemos e, desta forma, podemos traçar um elo do alimento com várias dimensões da existência humana: biológica, econômica (relação de trocas), sócio-política (estratificação e divisão do trabalho e concentração de poder), cultural e também ambiental (através da modificação de paisagens inteiras).

a desestruturação social da perda do núcleo familiar [ouso dizer que a partir do renascimento], faz com que encaremos um dilema evolutivo do que somos com o que nos tornamos culturalmente. mas é somente a partir da revolução industrial que o sistema produtivo adquire novas feições, alterando completamente a estrutura social do homem. a agricultura de comodities passa a ser expressiva, principalmente os alimentos estimulantes como chás, cafés, açúcar e chocolate, servindo como a base alimentar para a dependência químico-tecnológica da sociedade.

a revolução industrial introduziu também a monocultura para produção em larga escala de alimento para suprimir as necessidades alimentares das populações industriais, cada vez mais crescentes e pela primeira vez as paisagens se tornam domesticadas. o grande impacto de monoculturas, assim como de qualquer homogeneização da biodiversidade, é que, dentre outras coisas, os seres que constituem o sistema passam a ser mais susceptíveis a doenças, pelo fato de haver uma condição demográfica que favorece a livre circulação de patógenos, tornando-os mais nocivos do que num sistema com maior diversidade. isso podemos ver não apenas na agricultura, como também em cidades, nos quais os indivíduos de uma população ficam muito mais próximos, gerando também uma infinidade de fatores estressantes. os fatores estressantes nos grandes centros urbanos são causas de violência e doenças crônicas, afetando enormemente a qualidade de vida dos indivíduos que o constituem.


substâncias químicas eram ameaças constantes na segunda guerra.
porteriormente se tornou ameaça constante na alimentação. foto

a resposta para diversas patologias, na produção de alimentos, veio com a Revolução Verde. esta revolução ocorre no período pós-guerra, com diversos avanços nos estudos de substâncias químicas ocorridas durante a guerra provenientes de pesquisas que foram feitas principalmente com o fim de se produzir armas químicas. essas substâncias são o que conhecemos atualmente como agrotóxicos, e estão sendo progressivamente evitados pelas pessoas conforme se conhece os efeitos nocivos tanto de toxicidade humana (carcinogenia, doenças neurodegenerativas) como de ecotoxicidade (que em última análise causam a toxicidade humana).

o último salto tecnológico que percebo nessa linhagem é o surgimento de transgênicos da engenharia genética por meio do DNA recombinante. porém ao contrário dos passos anteriores, este não visa primariamente o aumento da produtividade para a segurança alimentar, mas para fins nitidamente mercadológicos a produção de plantas resistentes a patógenos e pragas.  esta tecnologia é uma faca de dois gumes e atualmente há diversas plantas modificadas geneticamente que ajudam o produtor a ter maior produtividade, ao passo que há empresas detentoras de patentes de organismos geneticamente modificados (OGMs) que praticamente escravizam os pequenos produtores, juntamente a isso, a segurança biológica é questionável, tanto para a saúde humana como para o meio ambiente.

o discurso da segurança alimentar é uma grande farsa em países não miseráveis, o brasil é um exemplo crasso e assim como uma das piores distribuições de renda do planeta, a distribuição de recursos alimentares também é bem tosca. boa parte da produção de alimento é perdido na colheita, estocagem, transporte, doenças/'pragas' e outros processos que existem entre o produtor e o consumidor final.

outros problemas ecológicos existem para a segurança alimentar, necessitando manejo cada vez mais intenso e minucioso. é necessário se preocupar com os lençóis freáticos, cada vez mais contaminados com fertilizantes, biocidas e tantos outros químicos ainda usados amplamente em países em desenvolvimento; além disso, o manejo adequado do solo e de serviços ecossistêmicos como a qualidade do ar, da água e da vegetação são cruciais para que se mantenha o mínimo de qualidade de vida do homem.

algumas opções atuais me parecem bem plausíveis na produção de alimento para o homem, indo da permacultura à agricultura de precisão, passando pelo agroflorestamento.
a permacultura é uma idéia bem natureba, mantém a diversidade local sendo uma ótima opção para pequenas produções, produzindo e distribuindo localmente recursos de forma pouco impactante aproveitando as condições ambientais que um determinado local oferece. com custo baixo, e disponibilidade de recursos para subsistência.
a agricultura de precisão, é o extremo oposto, com monoculturas extremamente mecanizadas, com a aplicação de tecnologia de ponta (i.e. de alto custo) como colheitadeiras munidos de gps e outros quitutes que permitem aproveitar ao máximo a produtividade de um determinado local, considerando todos os recursos e manejando-os de forma a não estragar o solo, fertilidade, água, etc.
já o agroflorestamento eu desconheço o quanto é aplicado. a idéia básica dele é intercalar linhas de cultivo com árvores, associando os benefícios que os dois tipos de cultura podem proporcionar.

o paradoxo que surge é que a demanda por alimento é óbviamente grande, mas a produção é ainda maior e mesmo assim muita gente passa fome. grandes extensões de terra para o plantio de commodities além da perda da diversidade cultural e biológica parecem estar nos guiando a um beco sem saída. nesse cenário de miséria geral e tecnologia e conhecimento para se dizimar tantas desigualdades a pergunta talvez seja: até quando o homem vai patrocinar a fome do outro? a ausência desse questionamento por parte de quem só ganha nesse jogo é simplesmente desanimador.


comida é um luxo, foto

para onde este sistema de produção está nos levando ainda não está muito claro, mas não precisa ser um gênio para perceber que a humanidade como um todo não anda muito bem das pernas, mas as consequências disso (não apenas ambientais, mas socio-político-economica) começam a se revelar aos poucos. a ocupação do homem no uso da terra é crítico para a manutenção da qualidade de vida, mas é necessário muito mais planejamento e administração por parte dos governos, e maior crítica e exigência por parte das pessoas com algum acesso às informações. esta provavelmente seja a maior contribuição que podemos fazer como cidadãos.

este texto é resultado da reflexão suscitada por aulas de botânica econômica, de biologia evolutiva do homem e de antropologia.

17 de setembro de 2009

zoneamento agroecológico da cana

quinta-feira, dia 17 de setembro de 2009, foi lançado o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar (ZAE Cana) no Brasil. é uma iniciativa com muitos aspectos positivos, sim, mas nem por isso são apenas as mil maravilhas. aparentemente apresenta mais pontos positivos que negativos...

pra começar, eis o vídeo de lançamento do ZAE Cana:



o vídeo é lindo, isso é inegável: belas imagens, frases de impacto, uma musiquinha contínua, calma e com alguma identidade folclórica genuinamente brasileira...

então vamos ver... vou apontando alguns aspectos que achei relevante, tanto positiva como negativamente:

- a iniciativa é de entidades respeitadas que agiram sinergicamente como embrapa (empresa brasileira de pesquisa agropecuária), unicamp(universidade estadual de campinas), ibge (instituto brasileiro de geografia e estatística), cepagri (centro de pesquisas metereológicas e climáticas aplicadas a agricultura), conab (companhia nacional de abastecimento), inpe (instituto nacional de pesquisas espaciais), cprm (companhia de pesquisa de recursos minerais), além da participação dos ministérios do meio ambiente (MMA), de agricultura, pecuária e abastecimento (MAPA), de minas e energia (MME), ciência e tecnologia (MCT), do planejamento, orçamento e gestão, e da casa civil. o estudo foi detalhado abordando diversos aspectos, como as condições do solo e do clima de cada região, tudo tendo a cana como referencial.

- regulamenta políticas públicas para a ocupação de terras por plantações de cana-de-açúcar, delimitando seu cultivo apenas a áreas já degradadas pela agricultura intensiva ou semi-intensiva, lavouras especiais (perenes, anuais) e pastagens, limitando e ordenando sua expansão. além disso considerou-se características climáticas e do solo, relacionados com os requerimentos desta cultura, classificando cada um dos três tipo de uso da terra (agrícola, pecuária ou agropecuária) em aptidões agrícolas alta, média ou baixa. é possível verificar isso em mapas detalhados em nível nacional ou estadual aqui.

- algumas áreas foram excluídas do zoneamento:
1. as terras com declividade superior a 12%, observando-se a premissa da colheita mecânica e sem queima para as áreas de expansão. [acabar com queimadas para colheita é bem importante, já que os principais fatores de ecotoxicidade assim como de toxicidade humana, estão relacionadas às queimadas. a degradação do solo também é bastante reduzida se suspendermos a queimada. a mecanização da colheita também é um grande diferencial, pois dá condições de trabalho mais dignas ao passo que gera outro grande problema social: emprega mão-de-obra especializada em operar máquinas para colheita de cana em detrimento de mão-de-obra pouco ou nada qualificado que é/era utilizado na colheita manual, agravando ainda mais a situação de oportunidade de trabalho para classes mais baixas];

queimadas da cana para colheita, ainda bastante comuns no estado de são paulo

2. as áreas com cobertura vegetal nativa [ótimo! o que sobra de Cerrado e outros biomas tende a continuar intacto, pelo menos em relação a cana...];
3. os biomas Amazônia e Pantanal [esse ponto é um ponto crítico para gringos, creio eu, já que o que eles conhecem de brasil é que temos o que erroneamente é conhecido como o "pulmão do planeta". sabiam que os usineiros brasileiros usam como argumento o fato dos canaviais estarem distantes destes biomas para justificar a "sustentabilidade" da produção sucroalcooleira? pois é! os outros biomas nem são levados em consideração!] além da Bacia do Alto Paraguai;
4. as áreas de proteção ambiental e remanescentes florestais;
5. as terras indígenas [também acho ótimo não mexer com terras indígenas, apesar de que há índios muito mais "cara-pálida" que muitos de nós];
6. dunas;
7. mangues;
8. escarpas e afloramentos de rocha;
9. reflorestamentos e
10. áreas urbanas e de mineração.

- estabelece que o país dispõe de 64,7 milhões de hectares=647 mil km2 de áreas potenciais para ocupação por canaviais. isso corresponde a mais de 7 (SETE) vezes a área remanescente de mata atlântica ou 1,5 vezes maior que o que resta de Cerrado, isso sem mencionar os outros biomas menores (em extensão). considerando isso, restam"apenas" 7,5% do território nacional potenciais para o plantio de cana (se plantassem em toda área com potencial de plantio, seria praticamente um novo bioma pouquíssimo biodiverso e de origem antrópica). isso pelo menos é ótimo pelo fato de que não mais será preciso devastar novas áreas para este fim, uma vez que a vontade econômica dos governantes é de produzir cada vez mais cana.
o brasil é exemplo em alguns aspectos da produção de cana, pois somos capazes de utilizar o máximo da tecnologia a que temos acesso, produzindo muito mais do que seria esperado com a tecnologia vigente. só para ilustrar um fato que foi espantoso para mim quando fiquei sabendo, a lavagem da cana é feito com a água que extraem da própria cana, não necessitando de água de rios para isso.

- segundo o documento, um dos impactos esperados é a produção de biocombustíveis de forma sustentável e ecologicamente limpa. isso parece piada, pois uma coisa é querer reduzir os danos causados no ambiente nos processos de produção e uso dum combustível, mas dizer que se espera produzir um biocombustível limpo é uma mentira. o biocombustível é queimado e emite poluentes e isso já é o suficiente para que não seja limpo.
além disso, um dos grandes problemas da produção de biocombustíveis a partir de cana é a produção de vinhoto: para cada litro de bioetanol obtidos da cana, 14 litros de vinhoto são produzidos. esse grande volume é reutilizado para adubação do solo, mas boa parte acaba caindo em rios nas proximidades do canavial, e claro, sem tratamento.

- ao meu ver esta foi uma ótima forma de conter os ânimos de ruralistas como o ministro da agricultura reinolds stephanes, por que se dependesse dele, o país viraria um gigante deserto agrícola. e obviamente os ruralistas do pantanal e da amazônia devem se sentir injustiçados com isso.

- uma das intenções desse estudo é também a possibilidade de se conseguir créditos de carbono, e atrair investimentos nacionais e internacionais. ao meu ver o que fundamenta créditos de carbono são meramente aspectos econômicos e nada ambiental. não acho que concentrar as emissões de carbono seja mais benéfico que fragmentá-lo, ao contrário da lógica aplicada em fragmentos vegetacionais.

gostaria de conhecer um pouco mais de manejo de solo pois acredito que em longo prazo monoculturas danifiquem muito este recurso natural. por enquanto só fica a suposição quanto a isso.

mais uma vez friso que este zoneamento parece ser bastante positivo. os pontos fracos ficam no argumento de combustível limpo e do papo furado da sustentabilidade (que teoricamente deveria abranger as sustentabilidade ambiental, social e econômica). a cana brasileira tem em mãos boa fatia do mercado mundial, possibilitando esse tipo de iniciativa. este zoneamentos agroecológicos é bem completo e releva aspectos importantes para que possamos usufruir mais apropriadamente dos recursos naturais disponíveis, minimizando os danos desta atividade na escala em que é praticada (nesta escala, a principal vítima é o cerrado: uma área bastante extensa dela é tomada por atividades não apenas sucroalcooleiras, mas agropecuárias diversas).
já que é opção deste país a produção agrícola em nível industrial, o ideal seria que cada uma das principais culturas fosse feito um zoneamento agroecológico próprio, mas é pouco provável que haja interesses político e econômico tão engajados como no caso da cana.

7 de setembro de 2009

homogeneização antropogênica e extrapolações

uma das consequências mais graves da atividade humana é a redução de biodiversidade.
e uma das formas pelas quais isto ocorre, é pela introdução de espécies invasoras.
a definição que acho mais pertinente para o termo é que estas espécies são exóticas (ou seja, que não têm sua origem evolutiva no local de ocorrência; alguns preferem o termo não-nativa) E causam algum tipo de dano ecológico. os danos mais comuns seriam competição com espécies nativas, hibridização ou até mesmo extinção de populações de espécies locais (recomendo os artigos publicados na revista da SBPC indicados no fim do post).

a introdução de uma espécie exótica num ecossistema se dá de duas formas: natural ou facilitada/mediada pelo homem. como caso de introdução natural de espécie, podemos citar eventos geológicos como a união geográfica da américa do norte com a do sul. este evento ocorreu no período neogeno (também conhecido como período terciário) da era cenozóica, num evento geológico recente de poucos milhões de anos, permitindo intenso intercâmbio de faunas. outros casos mais comuns sãopela expansão da distribuição de determinada espécie. atualmente a constante alteração do uso da terra faz com que este processo seja imensamente facilitado.

portanto, o surgimento do homem acelera ou medeia invasões biológicas. esta introdução, por sua vez, pode ser intencional ou acidental.
interesses econômicos são as principais causas da introdução intencional de espécies exóticas como produção agropecuária ou o mercado de animais de estimação (tanto legal como ilegalmente).

aqui acho relevante fazer um pequeno adendo:
para pessoas que compram pets exóticos, desde peixinhos, tartaruguinhas e outros bichinhos que são amplamente adquiridos mundo afora: quando não se desejar mais ter o animal exótico, não se deve JAMAIS soltá-lo na natureza (o bem que v. nem sabe se fará ao bichinho, pois ele pode morrer na primeira hora de liberdade, pode causar males ecológicos notáveis... a política brasileira é um ótimo exemplo disso). há casos de extinções de populações inteiras na natureza por causa de atitudes como essa de ir à beira da estrada e soltar o bicho no meio do primeiro mato que o cara encontra na frente. o ideal então é contatar uma entidade competente (não sei, mas eu procuraria o ibama ou secretarias de meio ambiente para saber como proceder) para destinar o animal. há casos em que os animais são destinados a zoológicos ou centros de reabilitação, mas depende muito de cada caso. muitas vezes é melhor sacrificar o animal.


agora voltemos à programação normal:
um caso comum em que se introduz propositalmente uma espécie exótica é a introdução dos predadores naturais de espécies introduzidas previamente (pode-se dizer que, geralmente, se introduz um fator de desestruturação ecológica na tentativa de amenizar outro; aumentando problemas ao invés de resolver). casos clássicos são relatados na austrália.
a introdução de forma acidental é muito menos intuitiva, e é bem ilustrada no caso de embarcações, que levam animais marinhos na água de lastro. no Brasil, os casos mais antigos remetem à época da colonização de nosso país, com invasões biológicas de moluscos incrustados nas caravelas.

caravelas traziam colonizadores a bordo e moluscos no casco. foto

de qualquer forma, a entrada de espécies invasoras tende a homogeneizar a genética das espécies que ocorrem num determinado local. isso quer dizer que a biodiversidade sofre uma redução. sobre este fenômeno associado à atividade humana, diz-se que ocorre uma homogeneização antropogênica. as atuais atividades em nível global aceleram ainda mais tal processo.
eu considero que as cidades tenham papel fundamental na homogeneização, não apenas das espécies mas do ambiente, já que as cidades compartilham algumas características comuns como o fato de que conforme crescem, tendem a se edificar cada vez mais, além de aumentar a concentração demográfica da população humana como dos animais sinantrópicos que ocorrem ali. é claro que ainda restam características específicas de cada local. na cidade de são paulo e em proximidades, por exemplo, podemos ver facilmente animais (nativos/exóticos, domesticados/semi-ferais/ferais/silvestres) como bem-te-vis, sabiás-laranjeiras, avoantes, joões-de-barro, pardais, garças-brancas, pombos-domésticos, maritacas, cães, gatos, ratos, baratas, aranhas, etc..., além do próprio homem, sem grande variação das espécies predominantes na fauna local. isso obviamente é resultado da ocupação humana, que cria um "vegetação" homogênea (uma "selva de pedras"?!). hábitats sem variação ambiental invevitavelmente tem uma fauna pouco variada (isto é, pouco diversificada).

o papel ecológico dos componentes das cidades é bem homogêneo apesar de detalhes estéticos diferentes. a expressão humana assim como qualquer outro fator ecológico, é influenciada e influencia o ambiente ao mesmo tempo que é uma influência sobre outros seres: é a relação biótico e abiótico que define a ecologia.

são paulo, ambiente homogeneizado pela ocupção humana. foto

como ambientes urbanos são homogêneos, a expressão humana também tende a se homogeneizar. quero dizer que a cultura também sofre a homogeneização criada pelo próprio homem. músicas globais, filmes globais (não da rede globo, mas hollywoodianos!hahaha), idiomas globais. tudo isso tende a hibridizar com ou substituir culturas locais.
a diversidade de idéias parece diminuir cada vez mais. alguns sofrem mais com isso que outros, claro, mas no geral isso se dá em detrimento de folclores e artes, valores morais e familiares locais, etc... possibilitando a identificação de pessoas totalmente diferentes, mas em detrimento de regionalismos.

hoje em dia fala-se em cidadãos globais, preocupados com causas globais (a internet age como o melhor catalisador já inventado). o futuro do planeta e o estilo de vida a se seguir; tendências culturais de todas as artes nos locais mais bacanas. isso tudo tende a fazer com que idéias mais "adaptadas" sobrevivam. cada sociedade é um ambiente adequado para idéias diferentes, e mais uma vez surge a identidade local. perdem-se muitas cores e ganham-se poucas, é uma relação assimétrica, talvez desprovida de intenção. a homogeneização não ocorre apenas em cidades, mas em qualquer local que o homem ocupe e homogeneíze, afetando as diversidades biológica e cultural.

recomendações de leitura
- Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Impacto das espécies invasoras no ambiente aquático.
- Machado, CJS, Oliveira AES, Matos DMS, Pivello V, Chame M, Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Recomendações para elaboração e consolidação de uma estratégia nacional de prevenção e controle das espécies exóticas no Brasil.

7 de junho de 2009

fake plastic ocean

essa notícia é meio velha, já tem duas semanas de idade(divulgada pela afp - agence france-presse), mas vale a pena comentar.
é sobre o vórtex plástico(plastic vortex), também conhecido como grande mancha de lixo do pacífico (great pacific garbage patch).
este é um grande acúmulo de lixo que fica flutuando pelo pacífico, entre a ásia e a américa, sendo levados de um lado para outro pelas correntes marítimas. o lixo é proveniente do descarte tanto em mar aberto como na costa e são levados ao meio do oceano, sendo acumulados nas últimas décadas, principalemente nos últimos 60 anos.

esquema que destaca as correntes envolvidas no vórtex plástico

estima-se que a mancha leste de lixo tenha um tamanho aproximado de 2 texas em extensão. considera-se ainda que a parte submersa meça cerca de 10 metros de altura, totalizando mais de 4 milhões de toneladas de lixo. o acúmulo de lixo sempre gera um problema em dois níveis distintos: macro e microscópico (o primeiro em curto, e o segundo em médio a longo prazo).

o macro é basicamente o que vemos a olho nu. um monte de lixo que é feio, sujo e fedido. até aí nada de mais, muitas vezes as pessoas acabam se preocupando apenas com este aspecto. é claro que é um aspecto de suprema importância a ser relevada, pois mata, num curto a médio prazo, animais diversos que se alimentam de tais materiais, confundindo-os com alimento. isto não quer dizer que estes animais são estúpidos. a verdade é que dentro do repertório normal de comportamentos, objetos que eles encontram boiando é comida. o plástico é uma invenção humana recente, e portanto, nenhum outro animal sabe como lidar com isto (aliás, nem nós mesmo que o criamos, sabemos direito).

foto tirada do site do kaisei project

o micro é tão ou mais nocivo a todo o ecossistema que o envolve. principalmente devido a fotodegradação do plástico, que geram partículas menores que agora podem ser absorvidos por seres menores, tornando o mar em uma grande sopa tóxica. o bioacúmulo deste tipo de substância não é tão conhecido nos detalhes, mas nenhum mecanismo fisiológico ainda é capaz de aproveitar (ou degradar em grande escala) esse tipo de recurso, sendo extremamente tóxico e passando por toda a teia trófica destes ambientes.

segundo a UNEP, conhecido em português pela sigla PNUMA (programa das nações unidas para o meio ambiente), há cerca de 13 mil peças de lixo plástico/km², havendo 5 "giros oceânicos" em que o acúmulo de lixo é um problema grave, sendo o do Pacífico norte o pior de todos.

uma expedição (Kaisei Project) organizada e liderada por Doug Woodring analisará as possibilidades de se retirar o lixo da mancha leste, além de tentar analisar os danos que este lixo todo causa. segundo ele, as pequenas partes de plástico que os peixes comem, na verdade agem como bombas tóxicas, possivelmente entrando na alimentação humana.

a expedição durará 50 dias indo e voltando de San Francisco ao Havaí, passando duas vezes pelo vórtex. pescadores que utilizam a técnica de arrasto tentarão pegar o lixo sem danificar muito a vida marinha. segundo Woodring, a rede deve ser pequena o suficiente para capturar bastante lixo, mas grande suficiente para deixar passar o plâncton.
a equipe ainda conta com documentaristas da National Geographic e oceanógrafos.
se possível, ainda esperam utilizar o lixo recolhido para reciclagem ou geração de combustíveis.

a missão ainda procura financiamento de 2 milhões de dólares, sendo que já conta com apoio da UNEP. por localizar-se em águas internacionais, nenhum governo é inteiramente responsável, não havendo pressões para a limpeza.

muitas expedições já foram feitas, mas esta é esperada como sendo a mais científica de todas até agora, sendo a primeira a estudar poluentes superficiais do mar, impacto a organismos em profundidades médias, sedimentos de fundo, e os impactos a organismos causados pela extração de substâncias químicas que constituem os plásticos descartados.

este é mais um alerta a respeito do lixo, que em minha humilde opinião é um dos maiores problemas ambientais atuais (gerados pelo consumismo exacerbado) além de intimamente relacionado com o da água (por poluição direta ou indireta).

mar de lixo em terra firme: repensar é preciso. tirado daqui

e mais uma vez digo que precisamos mudar nossos hábitos, não porque precisamos salvar o planeta, afinal ele não precisa ser salvo, pois dentro de algumas dezenas ou centenas de milhões de anos (e muito além da extinção de nossa espécie) ele se regenerará. mas a humanidade precisa ser salva. e já que é para vivermos, que seja com qualidade, isto quer dizer várias coisas, mas principalmente que a preocupação ambiental deve ser antes de mais nada, uma preocupação social.

de que adianta gabar de tanta inteligência se ao vermos a casca de banana, já lamentamos a queda?

para mais informações sobre a expedição ao vórtex plástico acesse o site do projeto kaisei

4 de junho de 2009

metal pesado nos jardins

não, isto não é sobre a divulgação de nenhum evento de metaleiros em praça pública.
aqui, o termo metal pesado se refere a metais tóxicos, no caso, As (arsênio), Ba(bário), Cr(cromo), Cu(cobre), Pb(chumbo), Sb(antimônio) e Zn(zinco). estes metais foram encontrados em diversos parques de São Paulo, por meio de um estudo sobre contaminação de metais nos solos dos parques da cidade¹.
a média das concentrações na cidade, é maior do que a mesma média para o estado, e em parques próximos a alto tráfego de veículos automotores, as concentrações de Cu, Pb e Zn eram mais elevadas.
a inalação da poeira proveniente do solo de parques e jardins públicos expostos a níveis significativos de poluentes, além da ingestão direta deste solo, tem efeitos tóxicos. crianças são mais sucetíveis aos efeitos adversos deste tipo de poluição, por dois motivos básicos: cuidados higiênicos e a fase do desenvolvimento (principalmente do sistema nervoso).
a região metropolitana de são paulo tem uma população estimada de 19 milhões de pessoas, e 7,8 milhões de automóveis circulando diariamente, sendo este a principal fonte de poluição na região. o crescimento desordenado da cidade causa uma ocupação caótica, na qual solo para agricultura e áreas de vegetação florestal foram dizimadas. neste cenário, os parques e jardins públicos tem grande importância no lazer da população local.

7 parques foram amostrados na capital: alfredo volpi (antiga fazenda de chá com significante remanescente da floresta atlântica); na região central, aclimação (área residencial), buenos aires, luz e trianon (áreas próximas a avenidas com alto tráfego de automóveis); ibirapuera (um dos maiores e mais visitados parques da cidade, na região sul); e raposo tavares (peculiar por ter sido construído sobre um aterro sanitário).
parque do ibirapuera, o maior e mais visitado de todos - foto

a amostra de solo coletado foi da parte superficial (0-5 cm de profundidade), sendo coletado a cada 10 metros, a fim de ter uma amostra representativa dos parques, os locais analisados foram principalmente os de recreação, como áreas de práticas de esportes e playgrounds. a superficialidade do solo amostrado abrange o estrato do solo que está em contato direto com os usuários destes locais.

para entender os níveis de poluição, foi utilizado o VRQ (Valor de referência de qualidade), da companhia de tecnologia de saneamento ambiental - CETESB², que indica as condições de um solo considerado limpo ou de águas subterrâneas em seu estado natural, constituindo uma base para os processos de avaliação dos riscos apresentados e de medidas de prevenção e controle a serem adotadas.
clique no link para consultar os valores orientadores para solos e para águas subterrâneas no Estado de São Paulo, a partir disso, são estabelecidos os seguintes valores:
valor de prevenção - VP é a concentração de determinada substância, acima da qual podem ocorrer alterações prejudiciais à qualidade do solo e da água subterrânea. Este valor indica a qualidade de um solo capaz de sustentar as suas funções primárias, protegendo-se os receptores ecológicos e a qualidade das águas subterrâneas. Foi determinado para o solo com base em ensaios com receptores ecológicos.
valor de intervenção - VI é a concentração de determinada substância no solo ou na água subterrânea acima da qual existem riscos potenciais, diretos ou indiretos, à saúde humana, considerado um cenário de exposição genérico. Para o solo, foram estabelecidos para cenários de exposição Agrícola-Área de Proteção Máxima - APMax, Residencial e Industrial.

um gráfico interessante e que resume muitas informações é este que segue abaixo.
este gráfico representa as concentrações nos locais amostrados (na ordem: ibirapuera, aclimação, buenos aires, alfredo volpi, luz, trianon, raposo tavares. seguido dos VRQ, VP e VIA-APMax), clique na imagem para vê-la ampliada.

um fato intrigante apontado pelo estudo é que concentrações de chumbo, elevado nos parques buenos aires, luz e trianon, não eram esperadas mesmo em regiões de intenso tráfego de automóveis, uma vez que combustível livre deste metal pesado existe no país desde 1983, mas o estudo ainda aponta a possibilidade de que essas emissões se devam a grande quantidade de carros velhos ainda em circulação. pessoalmente não entendo como isso é possível, uma vez que essa emissão deveria se relacionar ao combustível utilizado, e não ao carro. é provavel que a grande concentração deste metal se deva a um outro fator apontado no estudo: a baixa mobilidade (e consequente acúmulo) deste metal, associado ao fato destes serem os parques mais antigos da cidade.

"os resultados do estudo indicam que solos de parques públicos da são paulo apresentam concentrações de As, Ba, Cr, Cu, Pb, Sb e Zn mais altos do que os valores de referência para o estado, reportados pela CETESB. Exceto no parque alfredo volpi, As, Ba, Cr, Sb e Zn apresentaram níveis de concentrações próximo ou abaixo do VP. As concentrações mais altas de Cu, Zn e Pb foram obtidas nos parques localizados próximos a avenidas com grande tráfego de carros, caminhões e ônibus, sugerindo que estes três metais originam de emissões veiculares. as concentrações mais altas obtidas sugerem que o potencial dano à qualidade do solo pode afetar a saúde humana."

só para fins ilustrativos, fiz aqui uma lista de potenciais danos a saude que cada um destes metais tóxicos podem causar(via wikipedia).

As. utilizado para vários fins clínicos, porém já foi utilizada como arma química, altamente concentrada, devido a fatores vesicantes (que formam lesões cutâneas em forma de bolhas) e causador de irritação pulmonar. utilizado na formulação de inseticida e herbicidas. fisiologicamente afeta a síntese de ATP, além de aumentar a produtividade de peróxido de oxigênio (água oxigenada para os mais leigos), causando estresse oxidativo. estas interferências metabólicas podem levar a falência múltipla dos órgãos, morte celular necrótica, além de hemorragia severa.

Ba. em doses baixas funciona como um estimulante muscular, e em altas doses, afeta o sistema nervoso (bloqueando canais iônicos de potássio), causando irregularidades cardíacas, tremores, fraqueza, ansiedade, dispnéia e paralisia.

Cr. o cromo trivalente é necessário ao metabolismo normal de açúcar e lipídios, sua versão hexavalente no entanto apresenta potencial mutagênico se inalado, o contato deste último com a pele pode causar dermatite.

Cu. essencial a qualquer planta ou animal. a toxicidade do cobre é associada a utilização de materiais de cozinha feitos deste metal, o qual pode causa cirrose em crianças com certas anomalias genéticas. num corpo humano normal, o metal transita livremente, sendo excretado, não havendo relatos de complicações clínicas em pessoas sadias.

Pb. o chumbo é tóxico se ingerido ou inalado, podendo afetar todos os órgãos e tecidos, causa principalmente lesões neuronais e sanguíneas. as lesões neuronais podem levar a déficits cognitivos em crianças (mais facilmente) e adultos. altas concentrações do metal também é associado a puberdade tardia em meninas, além de comprometer a capacidade reprodutiva de mulheres.

Sb. em pequenas doses, o antimônio causa cefaléias, vertigem e depressão; em doses altas, vômitos violentos e frequentes,podendo levar a morte em poucos dias. a intoxicação é semelhante ao do arsênio.

Zn. o zinco apesar de necessário, pode, em altas dosagens, suprimir a absorção de ferro e cobre. o íon livre de zinco é extremamente tóxico para diversos invertebrados e inclusive alguns peixes, sendo concentrações micromolares suficientes para matar alguns organismos.

dica do harry (pança)

¹Figueiredo AMG, Enzweiler J, Camargo SP, Sigolo JB, Gumiero FC, Pavese AC, Milian FM, 2009. Metal contamination in urban park soils of São Paulo. Journal of Radioanalytical and Nuclear Chemistry, 280(2):419-425.
² site da CETESB, para mais informações sobre os valores orientadores para solo e água subterrânea, clique aqui

12 de março de 2009

mudanças climáticas = redução nutricional de algas

em grandes tanques, chamados limnotrons, pesquisadores holandeses, enxertaram ar com grandes concentrações de gás carbônico e ar normal, a fim de comparar o efeito do gás sobre micro-algas de água doce.

foram, então, examinadas a relação entre elementos importantes como carbono, nitrogênio e fósforo. micro-algas são o primeiro item duma cadeia alimentar, e em concentrações altas de CO2, aceleram o crescimento.

porém, este crecimento foi associado com uma mudança na composição da alga. algas cultivadas em águas com maior concentração de CO2, continham mais carbono e relativamente menos fósforo. isto significa uma redução no valor nutritivo, que pode ter efeitos nocivos sobre pequenos animais que se alimentam dessas algas.

por serem produtores da cadeia alimentar, afeta todo o ecossistema. para saber as consequências da perda nutricional, estudos em ecossistemas reais ainda estão em andamento pelo centro de limnologia (NIOO-KNAW) e pelo departmento de microbiologia aquática da universidade de amsterdam.

diatomáceas roxas

o aquecimento de águas só tende a pronunciar esse efeito, e serve para nos alertar que mudanças climáticas afetam não só habitats de animais e plantas, mas também gera mudanças significativas na vida subaquática, agora só nos resta dimensionar o tamanho deste problema.

via eurekalert!