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21 de outubro de 2009

pela biodiversidade alimentar e cultural

ainda na pegada da questão alimentar...

o cultivo de determinado alimento está intrinscecamente ligado ao conhecimento agrícola de manejo deste produto. porém, atualmente o que vemos por aí é a homogeneização da diversidade local de variedades alimentares. quantos vegetais vêm a mente quando v. pensa em comida? provavelmente te ocorra alguns grãos como milho, trigo, arroz, feijão, umas dez a quinze frutas, mais algumas folhas, castanhas/nozes e só... e bem provavelmente, v. ingira menos de 50 variedades de plantas no seu dia a dia.
por todo o mundo, os produtos menos difundidos culturalmente acabam extinguindo por simples desinteresse comercial e portanto há uma homogeneização na alimentação em detrimento da diversidade cultural e biológica. em países megadiversos como o brasil, este cenário é ainda mais doloroso, pois a porcentagem de cultivares que perdemos é enorme, e isso é resultante de todo o processo tecnológico já discutido no post anterior, associado aos interesses comerciais.
os fitopatógenos que se expressam devido à perda de diversidade e alta densidade demográfica chegam a forçar a migração de cultivos inteiros. a banana maçã, por exemplo, não é cultivada no estado de são paulo pois aqui esta variedade é susceptível a um fungo que "empedra" a parte comestível da banana. essa cultura sofreu um processo de migração e hoje é plantada do espírito santo pra cima.
o mamão também sofreu esse processo, vítima de um vírus causador do mosaico nessa planta. disto surgem até soluções como o emprego formal de mosaiqueiros, que são pessoas especializadas a identificar indivíduos afetados por este patógeno e são autorizados a cortar e queimar para que se evite a propagação da doença.
ambos cultivares são importados de outros estados, um dos motivos pelo qual o alimento está cada vez mais caro em são paulo.

nesse cenário, uma iniciativa que me chama a atenção, seja pelo aspecto biológico como gastronômico-comercial é a da fundação slow food para a biodiversidade (link para o site brasileiro e internacional).

esta é uma organização que
Foi fundada em 1989 como resposta aos efeitos padronizantes do fast food; ao ritmo frenético da vida atual; ao desaparecimento das tradições culinárias regionais; ao decrescente interesse das pessoas na sua alimentação, na procedência e sabor dos alimentos e em como nossa escolha alimentar pode afetar o mundo.
 dentro desta fundação há o projeto arca do gosto:
Arca do Gosto é um catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e divulga sabores quase esquecidos de produtos ameaçados de extinção, mas ainda vivos, com potenciais produtivos e comerciais reais. O objetivo é documentar produtos gastronômicos especiais, que estão em risco de desaparecer. Desde o início da iniciativa em 1996, mais de 750 produtos de dezenas de países foram integrados à Arca. Este catálogo constitui um recurso para todos os interessados em recuperar raças autóctones e aprender a verdadeira riqueza de alimentos que a terra oferece.
a iniciativa mantém alguns alimentos (incorporados à cultura brasileira ou nativos) a salvo da extinção.
a arca ainda contém apenas 9 cultivares diferentes na versão tupiniquim, mas se mostra uma iniciativa notável muito boa para a agrobiodiversidade e para nossos estômagos.


arroz do pantanal, o próximo candidato à arca. foto

texto inspirado pelo blógue come-se

17 de outubro de 2009

comida é pasto

quando pensamos no sistema de produção e distribuição do alimento, raramente vemos pela perspectiva ecológica [como "ecológica" entendo a interrelação das partes vivas com as não-vivas, assim como de cada parte consigo mesma; tudo resultante de uma história evolutiva]. aqui tentarei fazer algumas considerações interessantes sobre o assunto.

pra começar, a alimentação e a reprodução são, ao meu ver, os dois aspectos mais cruciais da vida. com a reprodução elevamos a probabilidade de manter os genes na população mesmo daqui a várias gerações - afetando o conjunto de genes dessa população (pool genético) -, mantendo ou mesmo elevando o que chamamos de fitness. e com a alimentação obtemos energia para nos manter vivos, aumentando a probabilidade de ter um sucesso reprodutivo.

acho que o modo mais claro para entender o sistema atual de produção alimentar é a partir da a evolução do próprio homem, e assim perceber como chegamos ao ponto em que estamos, e mais que isso, perceber o que estamos fazendo e para onde este modo de vida está nos levando.

o gênero Homo e o H. sapiens
pertencemos a espécie Homo sapiens, que ironicamente significa homem sapiente. se analisarmos os nossos ancestrais humanos (Homo ssp), veremos que apesar de sermos os únicos humanos atuais, outros já vagaram pela superfície do planeta.

o gênero Homo, da família Hominidae, surge há cerca de 2,5 milhões de anos, no sul e leste da áfrica. o homem sempre ocupou nichos marginais da savana africana, desenvolvendo adaptações fisiológicas, anatômicas e sociais interessantes. pelos registros fósseis se observam diversas aquisições evolutivas até o surgimento de nossa querida espécie, dentre elas podemos destacar o bipedalismo [acho o termo mais apropriado que bipedia, pois bípede só quer dizer que o bicho fica sobre duas patas, já o bipedalismo dá a idéia da locomoção por meio da alternância das pernas]. esta mudança permite ao homem abandonar o hábito arborícola e utilizar as mãos para fazer movimentos manuais finos. por toda a linhagem humana, verifica-se um gradativo aumento do volume encefálico, isto é, crescente volume do cérebro. este aumento está intimamente ligado com o aumento da capacidade cognitivo-simbólica [que originam fala, escrita, gramática, artes, religião, dentre tantas outras coisas demasiado humanas], ocorrido no paleolítico superior (num período entre 60 mil e 10 mil anos atrás conhecido como período da revolução cultural).


liberdade das mãos para manipulação de ferramentas e armas
dawn of man - cena de 2001: uma odisséia no espaço, de stanley kubrick


a alvorada do homem, apesar de toda essa história evolutiva não tem um cenário muito animador, éramos apenas uma espécie de primatas nômades no meio do semi-árido africano, motivo pelo qual somos generalistas-oportunistas e onívoros, sendo indefesos isoladamente apesar de um poder virtualmente infinito quando em grupo. antes da grande diáspora humana (de saída do continente africano), o homem é quase extinto, se não fosse sua capacidade de representação gráfica para indicar a localização de recursos.

a capacidade de habilidades manuais finas permite o desenvolvimento da tecnologia, principalmente de caça e de guerra. armas são forjadas pela primeira vez a partir de pedras lascadas (na famigerada Idade da Pedra), nos dando uma perspectiva fértil na obtenção de alimento e território. outras habilidades do homem são bem generalistas: não corre muito rápido, não é muito grande, não nada grandes distâncias, não sabe voar, não escala muito, mas é bastante resistente em atividades moderadas de longa duração. a utilização desta habilidade se torna a principal estratégia para caça, permitindo ao homem vencer uma caça pelo cansaço (ao contrário da estratégia de atacar uma presa com o fator surpresa e matar com relativa rapidez, comum em diversos predadores).

a carne de caça tem um significado único, não apenas visceral (biológico), mas a partir do desenvolvimento cognitivo já mencionado, adquire um valor simbólico afetando toda estrutura social e política do homem. o retorno dos caçadores obviamente é comemorado com festa e muita carne, ritual semelhante que ainda ocorre entre humanos. um domínio tecnológico paralelo a tudo isso é o do fogo, que permite a existência da culinária, associando a carne caçada pelos machos com elementos vegetais coletados pelas fêmeas do bando.

revoluções agrícola, industrial e verde
entre dez e cinco mil anos atrás ocorre a revolução agrícola do neolítico em diversos locais independentemente, como meio de controlar os recursos alimentares necessários as sociedades humanas. esta é uma agricultura rudimentar, na qual as espécies escolhidas, tanto de plantas como de animais, são apenas incorporadas na sociedade humana, de forma a se ter fácil acesso ao alimento. desta forma, o homem deixa, pela primeira vez, de ser nômade, fixando-se em rudimentos de cidades, baseados no núcleo familiar. a domesticação de ruminantes é o passo crucial para a consolidação tecnológica que precede a expansão agrícola. a domesticação propriamente dita, ocorre posteriormente, quando os recursos agropastoris passam a sofrer intenso manejo para a produção de alimento e não apenas agregados à sociedade para controle de recursos.

se observarmos por esta perspectiva evolutiva, percebemos mais facilmente que as mudanças ocorridas nos últimos 2 milhões de anos, faz do sistema de obtenção de alimento, um fator decisivo no desenvolvimento populacional da espécie humana.

conforme o tempo passa o homem se torna o animal que conhecemos e, desta forma, podemos traçar um elo do alimento com várias dimensões da existência humana: biológica, econômica (relação de trocas), sócio-política (estratificação e divisão do trabalho e concentração de poder), cultural e também ambiental (através da modificação de paisagens inteiras).

a desestruturação social da perda do núcleo familiar [ouso dizer que a partir do renascimento], faz com que encaremos um dilema evolutivo do que somos com o que nos tornamos culturalmente. mas é somente a partir da revolução industrial que o sistema produtivo adquire novas feições, alterando completamente a estrutura social do homem. a agricultura de comodities passa a ser expressiva, principalmente os alimentos estimulantes como chás, cafés, açúcar e chocolate, servindo como a base alimentar para a dependência químico-tecnológica da sociedade.

a revolução industrial introduziu também a monocultura para produção em larga escala de alimento para suprimir as necessidades alimentares das populações industriais, cada vez mais crescentes e pela primeira vez as paisagens se tornam domesticadas. o grande impacto de monoculturas, assim como de qualquer homogeneização da biodiversidade, é que, dentre outras coisas, os seres que constituem o sistema passam a ser mais susceptíveis a doenças, pelo fato de haver uma condição demográfica que favorece a livre circulação de patógenos, tornando-os mais nocivos do que num sistema com maior diversidade. isso podemos ver não apenas na agricultura, como também em cidades, nos quais os indivíduos de uma população ficam muito mais próximos, gerando também uma infinidade de fatores estressantes. os fatores estressantes nos grandes centros urbanos são causas de violência e doenças crônicas, afetando enormemente a qualidade de vida dos indivíduos que o constituem.


substâncias químicas eram ameaças constantes na segunda guerra.
porteriormente se tornou ameaça constante na alimentação. foto

a resposta para diversas patologias, na produção de alimentos, veio com a Revolução Verde. esta revolução ocorre no período pós-guerra, com diversos avanços nos estudos de substâncias químicas ocorridas durante a guerra provenientes de pesquisas que foram feitas principalmente com o fim de se produzir armas químicas. essas substâncias são o que conhecemos atualmente como agrotóxicos, e estão sendo progressivamente evitados pelas pessoas conforme se conhece os efeitos nocivos tanto de toxicidade humana (carcinogenia, doenças neurodegenerativas) como de ecotoxicidade (que em última análise causam a toxicidade humana).

o último salto tecnológico que percebo nessa linhagem é o surgimento de transgênicos da engenharia genética por meio do DNA recombinante. porém ao contrário dos passos anteriores, este não visa primariamente o aumento da produtividade para a segurança alimentar, mas para fins nitidamente mercadológicos a produção de plantas resistentes a patógenos e pragas.  esta tecnologia é uma faca de dois gumes e atualmente há diversas plantas modificadas geneticamente que ajudam o produtor a ter maior produtividade, ao passo que há empresas detentoras de patentes de organismos geneticamente modificados (OGMs) que praticamente escravizam os pequenos produtores, juntamente a isso, a segurança biológica é questionável, tanto para a saúde humana como para o meio ambiente.

o discurso da segurança alimentar é uma grande farsa em países não miseráveis, o brasil é um exemplo crasso e assim como uma das piores distribuições de renda do planeta, a distribuição de recursos alimentares também é bem tosca. boa parte da produção de alimento é perdido na colheita, estocagem, transporte, doenças/'pragas' e outros processos que existem entre o produtor e o consumidor final.

outros problemas ecológicos existem para a segurança alimentar, necessitando manejo cada vez mais intenso e minucioso. é necessário se preocupar com os lençóis freáticos, cada vez mais contaminados com fertilizantes, biocidas e tantos outros químicos ainda usados amplamente em países em desenvolvimento; além disso, o manejo adequado do solo e de serviços ecossistêmicos como a qualidade do ar, da água e da vegetação são cruciais para que se mantenha o mínimo de qualidade de vida do homem.

algumas opções atuais me parecem bem plausíveis na produção de alimento para o homem, indo da permacultura à agricultura de precisão, passando pelo agroflorestamento.
a permacultura é uma idéia bem natureba, mantém a diversidade local sendo uma ótima opção para pequenas produções, produzindo e distribuindo localmente recursos de forma pouco impactante aproveitando as condições ambientais que um determinado local oferece. com custo baixo, e disponibilidade de recursos para subsistência.
a agricultura de precisão, é o extremo oposto, com monoculturas extremamente mecanizadas, com a aplicação de tecnologia de ponta (i.e. de alto custo) como colheitadeiras munidos de gps e outros quitutes que permitem aproveitar ao máximo a produtividade de um determinado local, considerando todos os recursos e manejando-os de forma a não estragar o solo, fertilidade, água, etc.
já o agroflorestamento eu desconheço o quanto é aplicado. a idéia básica dele é intercalar linhas de cultivo com árvores, associando os benefícios que os dois tipos de cultura podem proporcionar.

o paradoxo que surge é que a demanda por alimento é óbviamente grande, mas a produção é ainda maior e mesmo assim muita gente passa fome. grandes extensões de terra para o plantio de commodities além da perda da diversidade cultural e biológica parecem estar nos guiando a um beco sem saída. nesse cenário de miséria geral e tecnologia e conhecimento para se dizimar tantas desigualdades a pergunta talvez seja: até quando o homem vai patrocinar a fome do outro? a ausência desse questionamento por parte de quem só ganha nesse jogo é simplesmente desanimador.


comida é um luxo, foto

para onde este sistema de produção está nos levando ainda não está muito claro, mas não precisa ser um gênio para perceber que a humanidade como um todo não anda muito bem das pernas, mas as consequências disso (não apenas ambientais, mas socio-político-economica) começam a se revelar aos poucos. a ocupação do homem no uso da terra é crítico para a manutenção da qualidade de vida, mas é necessário muito mais planejamento e administração por parte dos governos, e maior crítica e exigência por parte das pessoas com algum acesso às informações. esta provavelmente seja a maior contribuição que podemos fazer como cidadãos.

este texto é resultado da reflexão suscitada por aulas de botânica econômica, de biologia evolutiva do homem e de antropologia.

31 de julho de 2009

vacina do cão

em minha opinião pessoal, o cão é um dos sinantrópicos mais notáveis.
como dono de duas cadelas, sou a favor da posse responsável de animais, prezando o bem-estar físico e psicológico deles.
para isto, uma das vacinas periódicas essenciais é a anti-rábica.
pra ter bastante adeptos, a campanha de vacinação da prefeitura de são paulo aproveita a antiga crendice de que o mês de agosto é o mês do cachorro louco. então a época de vacinação já está aí. ela ocorre no período de 03 a 16 de agosto.

se não vacinar, o bicho morde
foto tirada de worms and germs blog


v. pode levar seu gato ou cão para tomar esta vacina consultando a lista completa dos postos de vacinação (em pdf), que mesmo não sendo de fácil consulta, é útil. para mais informações e recomendações, consulte o site da COVISA(Coordenação de Vigilância em Saúde) ou ligue 156.

se não me engano, no tratado de animais silvestres, os autores dizem que a raiva é transmissível, e uma vez que ele começa a se desenvolver no hospedeiro mamífero, se torna incurável e (virtualmente)100% letal.

é bom lembrar que no ambiente urbano, as aglomerações populacionais apenas aumentam as possibilidades de contágio, por isso vacine seu cão. é uma questão não apenas de gostar dele, mas de saúde pública.

se v. ainda não tem seu cão, adote.

12 de março de 2009

lucros com biodiversidade para populações tradicionais

brasil, bolívia, peru, venezuela, colômbia, equador, costa rica, méxico, china, índia, indonésia, filipinas, malásia, áfrica do sul, congo, madagascar e quênia, formam o b-17, os 17 países mais megabiodiversos do planeta - reunindo mais de 70% de toda a biodiversidade do planeta e cerca de 45% da população mundial -, e estão reunidos no itamaraty para a reunião do grupo, do qual brasil é o presidente até 2010.

logo na abertura, carlos minc, ministro do meio ambiente, defendeu a criação para 2010 do regime de acesso e repartição de benefícios (conhecido pela sigla abs). este mecanismo foi sugerido na lendária eco-92, e garante às populações tradicionais e povos indígenas parte dos lucros obtidos com a exploração da biodiversidade e dos conhecimentos produzidos por elas. este é um esforço na implantação de um regime internacional de acesso a recursos genéticos e repartição justa e equitativa dos benefícios dos recursos genéticos, a ser implantada na próxima conferência das partes, cop-10, a ser realizada em 2010 em nagoya, japão.

três grandes objetivos para a conservação da biodiversidade foram enumerados por minc:
- a conservação da diversidade biológica;
- o uso sustentável dos componentes da biodiversidade;
- e a justa e equitativa distribuição dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos.

este último implica na criação do que minc chamou de "talvez o maior banco genético do planeta", o que seria um grande passo na luta contra a biopirataria.

"o sistema (abs) então garantiria recursos para manter as florestas, os bancos genéticos e a biodiversidade - e para remunerar as populações que, por séculos, guardaram esses ensinamentos e impediram a extinção desses princípios ativos"


essas medidas, se implementadas com sucesso, vão evitar que acontecimentos ocorridos há poucos anos, como a que envolveu a empresa japonesa asahi foods, na patente de produtos derivados do cupuaçu (planta endêmica da amazônia brasileira e peruana) diminuam, já que estes 17 países e principalmente suas populações tradicionais sofrem enormemente com este tipo de prática, favorecendo os últimos, que são os verdadeiros detentores do conhecimento etnobiológico por trás de diversos derivados de produtos naturais.

via mma.gov.br

4 de março de 2009

enriquecimento ambiental/comportamental

"liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda"
cecília meireles

eu lembro dessa frase no ilha das flores, o melhor curta do mundo. mas vamos falar do exato oposto, que é a condição de cativeiro de animais.

antes de mais nada, não sou contra animais cativos em zoos, desde que os animais sejam saudáveis e tenham o bem estar promovido, não vejo problema algum. comparar a condição do animal cativo ao do animal doméstico também seria demasiado simplista e reducionista, uma vez que a domesticação é um processo bem mais demorado, havendo a possibilidade de adaptação e gosto pela companhia humana.

muitas pessoas são veementemente contra o cativeiro de animais, mas o que se deveria fazer com milhares de animais já cativos por todo o planeta? soltá-los seria um grande genocídio animal, uma vez que tais animais muitas vezes não teriam condições de sobreviver, por não terem desenvolvido certos conhecimentos intrínsecos a condição livre, como técnicas de forrageamento (busca por alimento), conhecimento da estrutura social, técnicas de defesa/fuga, coerência das vocalizações produzidas, etc, além disso, correm potenciais riscos de agirem como vetores de novas doenças numa reintrodução malfeita, contaminando os animais selvagens.

acho que é senso comum as pessoas acharem que a reintrodução de um animal ao seu hábitat natural seja simples, mas não é. nós, como animais sociais, deveríamos ter mais sensibilidade em perceber que não é fácil chegar num bando novo. seria como visitarmos um local com cultura totalmente distinta, em que os hábitos são outros, as cores e cheiros também. pro animal é infinitamente mais difícil por diversas razões que não vou minuciar aqui, talvez numa outra ocasião.

então vamos ao que interessa.

antigamente, os zoológicos tinham o intuito de exibir os mais diversos animais quanto fossem possíveis, para isso muitas vezes os retiravam da natureza. os recintos destes animais eram basicamente um cercado que separasse o animal do público.

nesses recintos, o chão era de concreto, pois facilitava a limpeza, apesar disto causar diversos danos à saúde dos animais, principalmente com problemas ortopédicos e dermatológicos que surgem do contato permanente com este tipo de substrato. as grades eram de ferro e inevitavelmente animais roíam as grades e quaisquer objetos que tivessem acesso, estragando os dentes e elevando o nível de estresse.

nessas condições, é claro que sou contra animais em cativeiro, e até acho legal que organizações como o peta façam barulho contra bichos nessas condições:
urso em condições precárias de cativeiro, foto do peta india

o vídeo abaixo é do último exemplar do tigre da tasmânia que se tem conhecimento, e era de cativeiro. ao assistir o vídeo podemos ver que ele não faz nada demais a não ser andar pra lá e pra cá, se coçar, deitar e comer. e nesse último parece ser o momento que ele está menos apático que nos momentos anteriores, confira:


tigre da tasmânia, extinto em 1936

mas nos tempos atuais, com todos os avanços em fisiologia, psicologia/comportamento, medicina veterinária, zootecnia e outras áreas do conhecimento relacionados a vida de um animal cativo, preocupações com a saúde do animal cresceu, havendo o monitoramento e promoção do bem-estar físico, psicológico e ambiental do animal, o que leva à melhor saúde que o conhecimento humano permite e os recursos financeiros, (algumas vezes bem) limitados, possam bancar.

a idéia básica do enriquecimento é promover um ambiente mais natural possível, fazendo o animal se comportar mais naturalmente, sendo estimulado tanto psicológica quanto fisicamente.

imaginem uma pessoa sedentária, que só come e vê tevê. provavelmente ela não sinta nenhum estímulo para mudar a situação, não tem companhia para se divertir, enfim, a vida dela é uma gigantesca monotonia. num zoo, um animal cativo pouco estimulado seria como a pessoa sedentária, mas com três diferenciais agravantes: o primeiro, de ser visto por seres humanos do lado de fora do cercado, o segundo é de ter um local muito menor do que o espaço que utilizaria em vida livre e o terceiro e mais importante, ele não tem controle sobre suas decisões.

um animal entediado é como um ser humano entediado, não se motiva a fazer muita coisa além de comer, se coçar, e outros comportamentos altamente repetitivos, o qual chamamos de estereotipias ou comportamento estereotipado.

comportamentos estereotipados são típicos de animais entediados. podem se coçar ou se lamber a ponto de se machucarem, ficam zanzando em círculos pelo recinto (pacing), dentre tantas outras anomalias comportamentais, podendo até levar a distúrbios psicológicos em que se tornam antissociais, agressivos e destrutivos(para estravasar a energia acumulada por nada fazer). há até mesmo casos de mães rejeitando filhotes ou mesmo devorando-os devido ao alto nível de estresse que apresentam.

lobos fazendo pacing num recinto com chão de concreto no zoo de belgrado

as consequências de um animal pouco estimulado psicológica e fisicamente é bastante diverso, caso v. tenha um cão é fácil perceber como ele se torna destrutivo depois de uns dias sem passear.

mas e se manejarmos o bicho de tal forma que as mudanças motivem o animal a ser mais interessado pelo mundo a que está restrito?

aberta esta possibilidade há muita coisa que pode ser feita.
o mais importante seria dar mais controle que o animal tem sobre o ambiente. para isso podemos criar uma área sombreada e acrescentar alguma vegetação que seja coerente com a ecologia do bicho. já é um bom começo, mas não o suficiente. o bicho já pode se expor à sombra ou sol quando quiser. se tiver um abrigo que não seja visível ao visitante também é uma grande mudança, pois permitimos que o animal se exiba quando queira, podendo se esconder quando não se sentir confortável. e assim, com medidas relativamente simples podemos moldar todo o ambiente.

girafa sob sombra, no zoo de são paulo - joe baba

dar controle sobre o ambiente quer dizer isso, criar oportunidades para que um animal possa escolher fazer ou não determinada ação. podemos para isso introduzir objetos que os motivem a fazer algo que queremos dele, é como uma negociação sem palavras.
brinquedos podem ser introduzidos para que eles gastem um tempo no recinto, de forma que os visitantes de um zoo possa observá-los.

uma outra forma muito comum de se facilitar a relação do tratador com os animais é o adestramento por reforço positivo, é a mesma técnica utilizada no adestramento de cães. basicamente cada ação correta é premiada, reforçando, facilitando e acelerando o aprendizado/adestramento.
o adestramento permite ao tratador dar alguns comandos de voz (com devida atenção à entonação) juntamente com gestos corporais para que o animal faça ou permita fazer algo.
no zoo a utilidade disto permite a limpeza adequada de recintos e dos próprios animais, o cambiamento (troca de recintos), aplicação de medicamentos, etc. tudo para melhorar e monitorar a qualidade de vida destes animais.

o condicionamento é geralmente feito com comida, pois este item tem um grande poder de motivação, fazendo o animal se esforçar para receber o alimento como recompensa. aliás uma das formas mais comuns de enriquecimento é modificar a forma que o alimento se apresenta.

urso polar no zoológico do alaska, perdendo um tempo para comer maçãs - neatorama

uma atividade que antigamente era a simples oferenda de alimentos ao animal se torna uma das atividades mais importantes fazendo o animal se esforçar para adquirir o alimento. pode ser um "sorvete" de sangue para carnívoros, pode ser um recipiente que o animal tem que destruir, ou um alimento escondido no recinto, tudo depende da criatividade do pessoal responsável por isso.

é sempre bom levar em conta a biologia do animal para que o enriquecimento seja otimizado ao máximo. para girafas, por exemplo, é possível criar um comedouro em que o animal utilize a língua para alcançar o alimento, um comedouro de língua, ou tongue feeder. é só levarmos em conta que este animal, ao comer, agarra a folha com a língua, enrolando-a na folha para segurar e puxar.

há diversas informações pela internet, mas uma que me chamou a atenção é o the fort worth zoo's enrichment online, neste site, diversas idéias são propostas para se fazer o enriquecimento, e não tem como dizer que eles não têm embasamento, pois são coisas que eles já fizeram no zoológico fort worth ou em outros, tudo com referências, análises de custos, riscos, materiais necessários, descrições, enfim, é um prato cheio pra quem mexe com essas coisas.

mangueira de bombeiro trançada em forma de cubo para enriquecimento de elefantes do zoo de toronto

o importante é que eles estejam psicologicamente saudáveis, e para isso pode-se introduzir diversos artifícios, desde que o animal se exercite. bolas de diversos materiais são utilizados, desde bolas caseiras feitas com mangueira de bombeiro até boomer balls(bolas industrializadas próprias para animais como hipopótamos, grandes felinos).

kendra, tigre siberiano do assiniboine park zoo, com sua boomer ball. clique no link pra ver o blog do zoo

podemos também utilizar diversos artifícios que geralmente utilizamos para pessoas e outros animais e promover o bem estar. técnicas de acupuntura, t-touch e podologia são utilizadas no zoológico de oakland para suplementar as técnicas convencionais de bem-estar animal. confira no vídeo a seguir.



no brasil, infelizmente é um campo pouco explorado, não por atraso no conhecimento - pois muitos pesquisadores brasileiros têm feito grandes avanços nesta área - mas principalmente por empecilhos da burocracia nestes tipos de instituições, que geralmente são públicos, e assim sendo tem pessoal qualificado limitado, demora pra aquisição de novos recursos, e tudo mais que estamos cansados de ver no sistema público brasileiro.

a aplicação real disto se estende a quaisquer criações de animais, sejam domésticos, de produção, em biotérios, ou onde quer que haja animais sob cuidado do homem. onde quer que estejam, merecem o bem-estar.


fonte consultada:
- second nature: environmental enrichment for captive animals. david j. shepherdson, jill d. mellen, michael hutchins. (1998)

1 de março de 2009

braquicéfalos de estimação

a grande diferença entre a seleção natural e artificial é que o homem serve como mediador no segundo caso. na prática significa que a seleção ganha um propósito, ao contrário da seleção natural que ocorre sem propósito algum.
o homem seleciona características que lhe sejam úteis ou agradáveis, de acordo com sua necessidade e vontade. isso ocorre desde o surgimento da domesticação de plantas e animais, o que nos remete a pouco mais de 10 mil anos atrás, época em que surge a agricultura e o homem deixa de ser nômade.

a domesticação permitiu o homem escolher características a fim de melhorar algum aspecto que lhe fosse interessante, como a produtividade, resistência ou sabor de uma planta ou animal, o comportamento caçador de cães, e assim por diante. em outras palavras, é uma forma primitiva do que atualmente conhecemos como melhoramento genético.

só que o maior problema dessa técnica é que muitas vezes a escolha de determinada característica significa a expressão de uma outra que pode ou não ser desejável, isso porque, em última instância, quando escolhemos um gene, ele pode expressar mais de uma característica, e essas características "colaterais" podem muitas vezes ser indesejáveis.

recentemente conheci o caso da raça faiting goat, esta é uma raça de cabra que ao tomar um susto, fica paralisado e cai devido a uma miotonia congênita, ou seja, o animal apresenta uma desordem genética que causa a tonificação muscular. veja o vídeo abaixo, e perceba que é uma expressão comportamental bem tosca, porém bem ilustrativa.



mas nem sempre essas características "colaterias" são divertidas.
animais muito mais familiares sofrem com nossa intervenção em suas proles. falo de gatos e cães. algumas raças têm modificações estruturais tão grandes que se tornam muito feios, apesar de alguém que ler este post provavelmente discorde.
o gato persa por exemplo, é um gato feio que dói, parece que caiu de cara no chão e ficou amassado, mas ele nasce daquele jeito mesmo e muita gente ainda acha bonito.
pug, outro bicho feio com o focinho achatado

não bastando, ele não é apenas feio, mas sofre. sofre como algumas outras raças de cães e gatos que têm braquicefalia.
a braquicefalia é basicamente a fusão prematura de alguns ossos do crânio, fazendo com que as estruturas da cabeça fiquem apertadas no crânio - é como se o cérebro fosse maior que o crânio. a braquicefalia faz o animal respirar mal, pois apresenta as vias respiratórias mais estreitas, podendo causar até inflamações crônicas na faringe. este tipo de anomalia seria muito ruim até para seres humanos, imagine para um animal que tem o olfato como um dos principais sentidos!

há diversas doenças ou anomalias congênitas que selecionamos sem ao menos saber, e com a melhor das intenções, e a lista é gigante. para gatos, este link pode ilustrar a vastidão de mazelas que podemos causar neles.

enfim, o homem é capaz de selecionar qualquer característica mas ainda não tem total controle sobre a natureza neste aspecto, podendo mandar para frente características indesejáveis, apesar de cada vez mais rumar a raças e variedades ideais devido ao grande avanço tecnológico em pesquisas genéticas.

21 de fevereiro de 2009

uma meta para a resolução da crise climática


o fafá, do rnam, escreveu um post interessante sobre uma meta contra a crise climática (ou "aquecimento global" como a mídia nos ensinou a denominar este problema).

350, lembrem-se deste número.

a batalha contra o aquecimento global estava até há pouco tempo numa luta meio às cegas. as informações que se tinham era de que tinhamos que repensar em nosso sistema de produção atual, reduzindo as emissões de CO2.

segundo o ipcc, alguns fatos é que o clima está mudando e que o homem é responsável por isso, apesar de certas controvérsias quanto a última parte.
a solução, como a maioria dos problemas em sistemas biológicos, não é a eliminação total do problema, mas a redução do problema a níveis que sejam aceitáveis econômica, social, biológica, ou quaisquer parâmetros que sejam usados. é assim com pragas que causam danos à saúde pública ou à agricultura p.ex., e é assim com a crise climática.

350 partes por milhão é o limiar seguro para as emissões de dióxido de carbono, para que as alterações ambientais não sejam ainda mais destrutivas e irreversíveis. estamos acima deste nível, 385 para ser mais exato, e temos que reduzí-lo o quanto antes.

para mais info acesse 350.org

2 de dezembro de 2008

estorvinhos e o ebm

roma é conhecido por alguns aspectos da fauna sinantrópica, devido a grandes populações lá existentes. há diversos estudos que abordam a biologia de animais como gatos (Felis catus), roedores comensais (Rattus rattus, R. norvegicus e Mus musculus). e diversos são os problemas relacionados com explosões populacionais dessas espécies necessitando para cada caso, medidas de manejo apropriadas, levando-se em conta a ecologia do animal para que medidas de manejo sejam mais efetivas.

foto retirada do site da bbc

roma também é palco para a chegada de estorninhos (aves do gênero Sturnus sp), que vão para lá passar as férias de o inverno. a presença desses animais pode ser um espetáculo visual - o qual ainda não presenciei - e dizem que o barulho que fazem também é bem alto. mas o que mais preocupa os moradores da cidade eterna são as fezes destes animais, que aos milhões podem causar danos consideráveis em estruturas como edificações e monumentos.

para agravar o problema, neste ano a chegada dos estorninhos bateu o recorde com cerca de 5 milhões de estorvinhos estorninhos na cidade, segundo site da bbc.

a medida de manejo adotada pela prefeitura está sendo a utilização de playbacks do que chamamos de distress calls. tais chamados são vocalizações de animais em perigo extremo, que geralmente remete a situações de sofrimento do animal.
o playback é a simulação de informação que faz com que o animal ache que há um indivíduo que realmente esteja executando tal comportamento.
o caso de utilizar o distress call é para assustar outros indivíduos para que eles vejam o local como não sendo seguro para se abrigar.

como ocorre para qualquer animal passível de manejo, é questão de tempo para que esta ação perca sua efetividade, a não ser que seja alternada com outras medidas, compondo um manejo baseado no ecossistema (ebm, na sigla em inglês para ecosystem-based management, sob mesma sigla é possével encontrar o termo ecologically-based management - manejo ecologicamente baseado -, ainda não sei se é a mesma coisa, mas aparentemente sim, caso não seja, me corrigirei assim que descobrir)

apesar de apenas recentemente esta idéia ter ganhado força (algo em torno de 15 a 20 anos), ela não é nova, e remete ao the ecosystem concept in natural resouce management, de van dyne (1969).

essa é a melhor forma encontrada pela ciência para manejar os bichos que vivem conosco, tratando-os da melhor forma possível, para que não sejam danosos entre eles, e principalmente para não serem danoso para nós.

nenhuma espécie deveria ser um estorvo para nós, mas se não soubemos como usufruir o que a natureza oferece, uma hora isto volta contra nós.

fonte consultada
- milhões de estorninhos invadem roma - site da bbc