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7 de abril de 2009

and now... the misconceptions!

"false facts are highly injurious to the progress of science, for they often endure long; but false views, if supported by some evidence, do little harm, for everyone takes a salutary pleasure in proving their falseness; and when this is done, one path towards error is closed and the road to truth is often at the same time opened."
charles darwin


fui introduzido ao conceito de misconceptions há alguns meses pelo prof. ranvaud, da usp.
a princípio a idéia veio da educação, no qual os seguintes itens caracterizam-na:

1. a idéia é muito difusa (arbitrariamente, talvez >20% dos alunos)
2. resiste a mudança (os alunos confabulam desculpas pra mostrar que estão certos)
3. convive com outros conceitos que são terminantemente incompatíveis com a misconception em questão
4. é grave, uma verdadeira ameaça à integridade da estrutura cognitiva em que aquela área está montada para a pessoa

porém, não só na educação isto ocorre, mas muitos conceitos ou pré-conceitos e pensamentos intuitivos reforçam essas tais concepções errôneas, podendo haver onde quer que o conhecimento humano exista.

alguns exemplos crassos relacionados à biologia:
- a teoria da evolução aborda a origem da vida
- machos de outras espécies são aptos a se reproduzir o ano todo assim como humanos.
- o cérebro humano apresenta 100 bilhões de neurônios
- cobra = serpente
- pássaro = ave
- ecologia = ambientalismo

o fato é que tanto o conhecimento popular como o meio acadêmico está sujeito às misconceptions.

talvez haja algum valor adaptativo nisto, pois não temos acesso a todas as informações que precisamos o tempo todo, precisando de extrapolações a partir do que temos em mãos.

então vou relatar aqui uma misconception pessoal que só me dei conta durante minha graduação quando, devido ao meu tcc com territorialidade de coruja-buraqueira (Athene cunicularia), tive mais contato com a ornitologia. o fato é que aves não dormem em ninhos a vida toda, como muitos desenhos me induziram a pensar durante um bom tempo.
aves dormem, geralmente, empoleirados em árvores conhecidas, apropriadamente, como dormitórios, ou então dormem no chão e no máximo em buracos, conforme os hábitos e plasticidade da espécie.

passarinho dormindo em comedouro (foto)

o ninho é um importante detalhe do comportamento reprodutivo das aves, o qual serve para oviposição, incubação, eclosão, proteção ao filhote que ainda não tem penas, até que o filhote se emancipe (aprendendo a voar e se alimentar por conta própria). após este período, as aves caem fora do ninho, abandonam-na, podendo retornar para o mesmo ninho, contruir um novo ninho ou até mesmo utilizar um outro ninho na próxima estação reprodutiva.

...são enormes detalhes que fazem toda diferença.

29 de março de 2009

é sempre lua cheia na cidade

ontem rolou a hora do planeta, promovida mundialmente pela wwf, esta foi a primeira participação da wwf tupiniquim neste evento.
segundo o site do wwf-br, o evento é um "ato simbólico (...) para demonstrar preocupação com o aquecimento global".
na paulicéia, os seguintes estabelecimentos/locais participaram oficialmente: ponte estaiada, monumento às bandeiras,viaduto do chá,estádio do pacaembu, teatro municipal, obelisco, parque do ibirapuera, fonte do parque independência, instituto butantan, museu de arte moderna, edifício copan, world trade center, sheraton hotel e sede da vivo.

apesar de alguns eventos terem sido promovidos aproveitando a pouca escuridão que se obtinha, muito provavelmente a maioria das pessoas que não tivesse conhecimento do evento, apenas estranhasse que alguns pontos estivessem menos iluminados que o normal.

por ser simbólico, muitas pessoas devem ter acendido velas por aí, para não iluminar, mas talvez parafina de velas seja bem mais poluentes que watts gastos eletricamente.

apesar do blecaute bem parcial da cidade ter sido em protesto aos danos indiretos da iluminação, aqui neste post falarei exatamente dos danos diretos que causamos com a iluminação.

poluição luminosa

a national geographic deste mês trouxe de brinde a edição de nov/08 em que a reportagem de capa era "o fim da noite", a matéria é escrita por verlyn klinkenborg, e logo de cara ele cita um fato evolutivo crucial pra existência de tanta luz: "se os seres humanos se sentissem de fato à vontade sob a luz da lua e das estrelas, atravessaríamos contentes a escuridão com o mundo da meia-noite tão visível para nós quanto ele é para um vasto número de espécies noturnas". o fato é esse mesmo, evoluímos de bichos diurnos e acendemos luzes para nos sentir mais a vontade.

a preocupação com a poluição luminosa começou devido às observações astronômicas, mas atualmente percebemos que o buraco é bem mais embaixo. boa parte da iluminação não é aproveitada onde deveria, pois a luz vaza para cima e para os lados, onde a iluminação pública não é útil para pessoas, que estão andando num nível abaixo dos postes.

acho que todos conhecem o fato de insetos se aglomerarem em fontes de luz, voando em torno de lâmpadas e holofotes. os fatores específicos que explicam este comportamento errático é bem complexo, envolvendo diversos efeitos, mas basicamente o que ocorre é que muitos animais se orientam a noite pela luz da lua, mas a invenção da luz gerou uma infinidade de fontes de luz tão ou mais fortes que o luar, desorientando tais animais.
a maioria destes animais ficam voando até a exaustão, quando, então, caem e morrem.

aquilo que popularmente chamamos de relógio biológico (e tecnicamente por relógio/ciclo/ritmo circadiano), que é responsável por respostas fisiológicas e comportamentais de acordo com as diversas situações que o ambiente proporciona, é também responsável por diversos aspectos do funcionamento normal do corpo, como ciclo sono/vigília, ciclos hormonais, atividades neurais, oscilações térmicas e tantas outras periodicidades que ocorrem em nosso corpo ao longo das 24h diárias. a iluminação gera alterações relevantes no funcionamento adequado, podendo levar a distúrbios como os de sono e até aumentar tendências a cânceres.

alterações desses ciclos obviamente ocorrem nos outros animais que também sejam expostos à luz. um dos casos que mais bem ilustra a gravidade da iluminação na fauna é o das tartarugas. as fêmeas de tartarugas fazem a desova em praias escuras, nos quais os filhotes, assim que eclodem, podem se orientar pelo luar, indo em direção ao mar. em áreas urbanas litorâneas, a luz da cidade confunde o bicho, e a luz, que é o gatilho biológico da tartaruga recém-nascida, a faz rumar para a cidade, lá são expostas a diversos perigos, desde carros, pessoas desatentas, animais domésticos, predadores oportunistas, e a morte por exaustão.

outro exemplo bem interessante são dos vagalumes, que necessitam da bioluminescência para a reprodução. mas sendo a iluminação artificial mais clara que a bioluminescência, estes animais não conseguem se comunicar eficazmente, reduzindo consideravelmente suas populações, podendo levá-las a extinção.

adaptações simples que evitem o vazamento da luz são possíveis, talvez tornando a poluição a luminosa o tipo de poluição mais fácil de remediar. bastando um desenho que otimize a luz para baixo.
toronto, canadá

em cidades superedificadas, os prédios iluminados a noite se tornam verdadeiros labirintos de luz. grupos como o flap (fatal light awareness program), programa de alerta para a luz fatal em inglês, tentam conscientizar e minimizar ameaças a aves que o meio urbano propicia. o flap estima que apenas na américa do norte, pelo menos 100 milhões de aves morram todos os anos em colisões com edifícios.

av. paulista

se compararmos a cidade de são paulo com grandes cidades do hemisfério norte, provavelmente não teremos tantos prédios altos (um skyline grandioso de prédios altíssimos de mais de 50 ou mais andares), tão comuns naqueles cantos do mundo, e provavelmente o impacto aqui seja menor, mas nenhum estudo do tipo jamais foi executado por essas bandas, sendo uma lacuna bem interessante que provavelmente ainda ficará aberta por um bom tempo.

uma das coisas que urbanização traz consigo é a fauna sinúrbica, animais especializados e adaptados ao meio urbano. morcegos que se especilizam em predar insetos sob luzes públicas é uma delas. e quando isto é novidade em algum lugar, estes animais provavelmente substituam a fauna original, reduzindo e até eventualmente extinguindo uma espécie do local. este se torna mais um tipo de invasão biológica promovida pelo homem e todo progresso urbano que levamos conosco, é nocivo a tantas outras formas de vida nativas.

efeitos de pilares de luz, devido ao reflexo de luz artificial
em locais bem gelados, para mais fotos, clique aqui


dentre tantos fenômenos belos como os pilares de luz (como na foto acima) ou catastróficos como a morte de milhões de animais, uma coisa é certa, a luz artificial noturna, como qualquer outra coisa, deve ser utilizada com moderação, caso contrário, poderemos ser nós quem veremos e viveremos as piores consequências de se adequar o ambiente que vivemos ao nosso bel prazer (e conforto), alterando tantos ciclos (circadianos e ultradianos), em tantas espécies (não apenas animais), que por milhões de anos permaneceram iguais, e que aos poucos a cronobiologia desvenda.

links relacionados
- ecological consequences of artificial night lighting - ucla institute of the environment and the urban wildlands group
- network features of the mammalian circadian clock - julie e. baggs, tom s. price, luciano di tacchio, satchidananda panda, garret a. fitzgerald, john b. hogenesch - plos biology (2009)
- of owls, larks and alarm clocks - melissa lee phillips, nature (2009)

4 de março de 2009

enriquecimento ambiental/comportamental

"liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda"
cecília meireles

eu lembro dessa frase no ilha das flores, o melhor curta do mundo. mas vamos falar do exato oposto, que é a condição de cativeiro de animais.

antes de mais nada, não sou contra animais cativos em zoos, desde que os animais sejam saudáveis e tenham o bem estar promovido, não vejo problema algum. comparar a condição do animal cativo ao do animal doméstico também seria demasiado simplista e reducionista, uma vez que a domesticação é um processo bem mais demorado, havendo a possibilidade de adaptação e gosto pela companhia humana.

muitas pessoas são veementemente contra o cativeiro de animais, mas o que se deveria fazer com milhares de animais já cativos por todo o planeta? soltá-los seria um grande genocídio animal, uma vez que tais animais muitas vezes não teriam condições de sobreviver, por não terem desenvolvido certos conhecimentos intrínsecos a condição livre, como técnicas de forrageamento (busca por alimento), conhecimento da estrutura social, técnicas de defesa/fuga, coerência das vocalizações produzidas, etc, além disso, correm potenciais riscos de agirem como vetores de novas doenças numa reintrodução malfeita, contaminando os animais selvagens.

acho que é senso comum as pessoas acharem que a reintrodução de um animal ao seu hábitat natural seja simples, mas não é. nós, como animais sociais, deveríamos ter mais sensibilidade em perceber que não é fácil chegar num bando novo. seria como visitarmos um local com cultura totalmente distinta, em que os hábitos são outros, as cores e cheiros também. pro animal é infinitamente mais difícil por diversas razões que não vou minuciar aqui, talvez numa outra ocasião.

então vamos ao que interessa.

antigamente, os zoológicos tinham o intuito de exibir os mais diversos animais quanto fossem possíveis, para isso muitas vezes os retiravam da natureza. os recintos destes animais eram basicamente um cercado que separasse o animal do público.

nesses recintos, o chão era de concreto, pois facilitava a limpeza, apesar disto causar diversos danos à saúde dos animais, principalmente com problemas ortopédicos e dermatológicos que surgem do contato permanente com este tipo de substrato. as grades eram de ferro e inevitavelmente animais roíam as grades e quaisquer objetos que tivessem acesso, estragando os dentes e elevando o nível de estresse.

nessas condições, é claro que sou contra animais em cativeiro, e até acho legal que organizações como o peta façam barulho contra bichos nessas condições:
urso em condições precárias de cativeiro, foto do peta india

o vídeo abaixo é do último exemplar do tigre da tasmânia que se tem conhecimento, e era de cativeiro. ao assistir o vídeo podemos ver que ele não faz nada demais a não ser andar pra lá e pra cá, se coçar, deitar e comer. e nesse último parece ser o momento que ele está menos apático que nos momentos anteriores, confira:


tigre da tasmânia, extinto em 1936

mas nos tempos atuais, com todos os avanços em fisiologia, psicologia/comportamento, medicina veterinária, zootecnia e outras áreas do conhecimento relacionados a vida de um animal cativo, preocupações com a saúde do animal cresceu, havendo o monitoramento e promoção do bem-estar físico, psicológico e ambiental do animal, o que leva à melhor saúde que o conhecimento humano permite e os recursos financeiros, (algumas vezes bem) limitados, possam bancar.

a idéia básica do enriquecimento é promover um ambiente mais natural possível, fazendo o animal se comportar mais naturalmente, sendo estimulado tanto psicológica quanto fisicamente.

imaginem uma pessoa sedentária, que só come e vê tevê. provavelmente ela não sinta nenhum estímulo para mudar a situação, não tem companhia para se divertir, enfim, a vida dela é uma gigantesca monotonia. num zoo, um animal cativo pouco estimulado seria como a pessoa sedentária, mas com três diferenciais agravantes: o primeiro, de ser visto por seres humanos do lado de fora do cercado, o segundo é de ter um local muito menor do que o espaço que utilizaria em vida livre e o terceiro e mais importante, ele não tem controle sobre suas decisões.

um animal entediado é como um ser humano entediado, não se motiva a fazer muita coisa além de comer, se coçar, e outros comportamentos altamente repetitivos, o qual chamamos de estereotipias ou comportamento estereotipado.

comportamentos estereotipados são típicos de animais entediados. podem se coçar ou se lamber a ponto de se machucarem, ficam zanzando em círculos pelo recinto (pacing), dentre tantas outras anomalias comportamentais, podendo até levar a distúrbios psicológicos em que se tornam antissociais, agressivos e destrutivos(para estravasar a energia acumulada por nada fazer). há até mesmo casos de mães rejeitando filhotes ou mesmo devorando-os devido ao alto nível de estresse que apresentam.

lobos fazendo pacing num recinto com chão de concreto no zoo de belgrado

as consequências de um animal pouco estimulado psicológica e fisicamente é bastante diverso, caso v. tenha um cão é fácil perceber como ele se torna destrutivo depois de uns dias sem passear.

mas e se manejarmos o bicho de tal forma que as mudanças motivem o animal a ser mais interessado pelo mundo a que está restrito?

aberta esta possibilidade há muita coisa que pode ser feita.
o mais importante seria dar mais controle que o animal tem sobre o ambiente. para isso podemos criar uma área sombreada e acrescentar alguma vegetação que seja coerente com a ecologia do bicho. já é um bom começo, mas não o suficiente. o bicho já pode se expor à sombra ou sol quando quiser. se tiver um abrigo que não seja visível ao visitante também é uma grande mudança, pois permitimos que o animal se exiba quando queira, podendo se esconder quando não se sentir confortável. e assim, com medidas relativamente simples podemos moldar todo o ambiente.

girafa sob sombra, no zoo de são paulo - joe baba

dar controle sobre o ambiente quer dizer isso, criar oportunidades para que um animal possa escolher fazer ou não determinada ação. podemos para isso introduzir objetos que os motivem a fazer algo que queremos dele, é como uma negociação sem palavras.
brinquedos podem ser introduzidos para que eles gastem um tempo no recinto, de forma que os visitantes de um zoo possa observá-los.

uma outra forma muito comum de se facilitar a relação do tratador com os animais é o adestramento por reforço positivo, é a mesma técnica utilizada no adestramento de cães. basicamente cada ação correta é premiada, reforçando, facilitando e acelerando o aprendizado/adestramento.
o adestramento permite ao tratador dar alguns comandos de voz (com devida atenção à entonação) juntamente com gestos corporais para que o animal faça ou permita fazer algo.
no zoo a utilidade disto permite a limpeza adequada de recintos e dos próprios animais, o cambiamento (troca de recintos), aplicação de medicamentos, etc. tudo para melhorar e monitorar a qualidade de vida destes animais.

o condicionamento é geralmente feito com comida, pois este item tem um grande poder de motivação, fazendo o animal se esforçar para receber o alimento como recompensa. aliás uma das formas mais comuns de enriquecimento é modificar a forma que o alimento se apresenta.

urso polar no zoológico do alaska, perdendo um tempo para comer maçãs - neatorama

uma atividade que antigamente era a simples oferenda de alimentos ao animal se torna uma das atividades mais importantes fazendo o animal se esforçar para adquirir o alimento. pode ser um "sorvete" de sangue para carnívoros, pode ser um recipiente que o animal tem que destruir, ou um alimento escondido no recinto, tudo depende da criatividade do pessoal responsável por isso.

é sempre bom levar em conta a biologia do animal para que o enriquecimento seja otimizado ao máximo. para girafas, por exemplo, é possível criar um comedouro em que o animal utilize a língua para alcançar o alimento, um comedouro de língua, ou tongue feeder. é só levarmos em conta que este animal, ao comer, agarra a folha com a língua, enrolando-a na folha para segurar e puxar.

há diversas informações pela internet, mas uma que me chamou a atenção é o the fort worth zoo's enrichment online, neste site, diversas idéias são propostas para se fazer o enriquecimento, e não tem como dizer que eles não têm embasamento, pois são coisas que eles já fizeram no zoológico fort worth ou em outros, tudo com referências, análises de custos, riscos, materiais necessários, descrições, enfim, é um prato cheio pra quem mexe com essas coisas.

mangueira de bombeiro trançada em forma de cubo para enriquecimento de elefantes do zoo de toronto

o importante é que eles estejam psicologicamente saudáveis, e para isso pode-se introduzir diversos artifícios, desde que o animal se exercite. bolas de diversos materiais são utilizados, desde bolas caseiras feitas com mangueira de bombeiro até boomer balls(bolas industrializadas próprias para animais como hipopótamos, grandes felinos).

kendra, tigre siberiano do assiniboine park zoo, com sua boomer ball. clique no link pra ver o blog do zoo

podemos também utilizar diversos artifícios que geralmente utilizamos para pessoas e outros animais e promover o bem estar. técnicas de acupuntura, t-touch e podologia são utilizadas no zoológico de oakland para suplementar as técnicas convencionais de bem-estar animal. confira no vídeo a seguir.



no brasil, infelizmente é um campo pouco explorado, não por atraso no conhecimento - pois muitos pesquisadores brasileiros têm feito grandes avanços nesta área - mas principalmente por empecilhos da burocracia nestes tipos de instituições, que geralmente são públicos, e assim sendo tem pessoal qualificado limitado, demora pra aquisição de novos recursos, e tudo mais que estamos cansados de ver no sistema público brasileiro.

a aplicação real disto se estende a quaisquer criações de animais, sejam domésticos, de produção, em biotérios, ou onde quer que haja animais sob cuidado do homem. onde quer que estejam, merecem o bem-estar.


fonte consultada:
- second nature: environmental enrichment for captive animals. david j. shepherdson, jill d. mellen, michael hutchins. (1998)

2 de janeiro de 2009

animal behavior society meeting


quando: 22 e 26 de junho de 2009.
o que: encontro da animal behavior society, algo como o congresso internacional de comportamento animal.
onde: pirenópolis, goiás.
+ info: os interessados podem se inscrever entre 15 de fevereiro e 17 de abril com preços mais baixos, e a partir desta última data, há um pequeno aumento no preço das inscrições.
a submissão dos resumos vão de 15 de fevereiro a 17 de abril também.
para mais informações acesse o site oficial do evento

updated

como pediram os preços, coloco-os abaixo, mas como já disse em cima: para mais informações acesse o site oficial do evento

9 de novembro de 2008

animalzinho político

nós, primatas, temos algo de sensacional: a política.
na verdade não sei em que ponto se encontra o conhecimento etológico das estruturas sociais de espécies mais distantes de nós, mas pelo menos o chimpanzé e o homem apresentam um senso político como poucos.
um tema bem pertinente nesses tempos eleitorais.
apesar de competição espermática não ter nada a ver com política
esta charge (tirado daqui) veio a calhar.


o que estou definindo como senso político aqui é a capacidade não apenas de interagir com coespecíficos de forma diplomática, mas também a capacidade de tramar estratégias e até golpes para se tirar o indivíduo dominante do "poder"

se não me engano, no lorenz (fundamentos de etologia) ou no alcock (animal behavior) é citado como ocorre a tomada de poder pelos babuínos [não lembro exatamente qual/quais espécie(s)].
na sociedade dos babuínos sempre há um macho alfa (dominante) e o alfa é quem tem certos privilégios, principalmente em ocasiões de reprodução. eis que dois ou três outros babuínos subdominantes (ou submissos) se juntam para 'pegar' o alfa.
é uma coisa meio covarde mesmo. os outros animais não se atêem a valores bestas como honra ou senso de igualdade. então esses três babuínos tomam o poder. mas não bastando, um deles quer ser mais poderoso que o outro. então eles se pegam até sobrar um babuíno apenas no poder, até que tramem outro golpe sobre ele.

outro caso intrigante de estratégias políticas é o caso de chimpanzés. o dominante não é apenas o mais forte, mas aquele indivíduo que consegue bolar estratégiar para então se consolidar como líder do bando.
foi em algum documentário que vi, não sei se da bbc ou da discovery ou afins. basicamente o bando de machos saía em busca de carne, sendo que a carne não tem importância nutricional ou reprodutiva nesse caso, mas para consolidar, refazer ou fazer novas alianças.
a cena é algo impressionante, o bando de chimpanzés vai atrás de um indivíduo da espécie Colobus badius, isolando este indivíduo do grupo, emboscando-o, matando-o e por fim compartilhando a carne entre eles (sendo este último a maior demonstração de politicagem nessa espécie).
Colobus badius, a presa do chimpanzé - origem da foto

a falha de um indivíduo que não consegue administrar o grupo, obviamente o faz cair do poder e outro que tenha um senso de liderança mais eficaz toma seu lugar.

esta é provavelmente a maior pista evolutiva de como nos tornamos o que somos, administrando interesses e fazendo jogadas políticas para mantermos o status social.

mas na vida selvagem, aparentar não basta - sendo tudo muito mais pragmático -, deve-se mostrar porque se está no poder.

fonte consultada:
- why do chimpanzees hunt and share meat? john c. mitani, david p. watts, animal behavior (2001)

16 de setembro de 2008

incríveis relações hospedeiro+parasita

numa análise bem simplista poderíamos dizer que um dos objetivos de se ter vida é a de perpetuá-la, ou seja, v. terá filhos, que terão filhos e assim por diante, indefinidamente. (obviamente, como toda regra há exceções.)

para atingir tal objetivo, parasitas têm estratégias evolutivas muito intrigantes.
basicamente na relação evolutiva entre hospedeiro e parasita, o parasita tende a ser cada vez menos nocivo ao hospedeiro, como os micróbios que temos em nosso aparelho digestório, quanto mais agressiva for esta relação, é mais provável que seja um evento evolutivo recente.

parasitas alteram o funcionamento de seu hospedeiro para propagar-se da maneira mais eficaz possível. exemplos cotidianos podem ser citados facilmente.
o espirro de uma pessoa gripada, por exemplo, propaga o vírus da gripe através do ar. assim como ocorre com a tosse do tuberculoso.

e mesmo que uma pessoa coloque a mão na frente, é improvável que ela vá lavar a mão logo em seguida. virtualmente, isto significa que até esta pessoa desinfetar sua mão, irá propagar micróbios no apertar de mãos, ao pegar na maçaneta, ao atender o telefone, etc.
este é um dos motivos pelo qual aprendemos a lavar as mãos antes de comer, pois é o momento que levamos a mão a boca, sendo um momento bem delicado nesse processo todo.

aliás, encontrei um vídeo "educativo" que mostra como deveríamos espirrar.



mas há uma estratégia utilizada por alguns parasitas que são mais intrigantes: a indução de comportamentos do hospedeiro.

digo isso porque um amigo meu me relatou que havia sido mordido por um cão raivoso.
felizmente ele - meu amigo, não o cachorro - não morreu (afinal a raiva é uma doença 100% letal), pois foi tomar uma vacina anti-rábica a tempo.

tebaldi, o cara do meio e que está sendo mordido pelo cão foi a vítima.

porém, o mais interessante do relato dele foi que ao procurar informações sobre a raiva ele leu que em estágios mais avançados, as pessoas começam a ficar com vontade de sair mordendo outras pessoas, como faz um cão raivoso.
seria uma modificação comportamental nítida para a propagação do parasita, e consequentemente, da doença.

talvez o cão raivoso não seja mais agressivo, ele apenas quer morder as pessoas. mas isto é apenas uma especulação pessoal. enfim...

um outro caso mais ou menos bem conhecido é o caso da toxoplasmose em ratos.
o rato (Rattus norvegicus) é um animal neofóbico, como já disse em algum post anterior.
só que o rato infectado com o toxoplasma (Toxoplasma gondii) fica sem medo.
poderíamos dizer que fica corajoso e perde o medo da morte.
há diversos estudos mostrando isto.
um dos experimento mais interessantes foi feito com odores. incluíam urina de gato, urina de coelho, água e materiais utilizados para a confecção do ninho (não consigo traduzir o termo bedding material, então fica assim mesmo). nele o roedor infectado com toxoplasma cheirava mais a urina de gato que ratos não infectados, sendo que as taxas de visitas em outros odores era relativamente semelhante.

o rato perde a neofobia, começa a procurar estímulos novos, desde ambientes a alimentos. é o que macdonald chama de tendência kamikaze. essa estranha tendência suicida na verdade é um aumento nas taxas de atividade do animal juntamente ao medo perdido (como ilustrado no caso dos odores), o que aumenta a probabilidade de ser encontrado por um predador, no ambiente sinantrópico ocasionalmente o predador é o gato doméstico
se analisarmos a biologia desta interação toda perceberemos que o mais interessante disto tudo não é que o rato perde o medo do gato, mas que o gato é o hospedeiro definitivo do toxoplasma. saber quão antiga essa relação entre gatos ratos e toxoplasmas é, e o quanto a convivência peridoméstica de ambos acelerou tal processo ainda não é possível. mas é nítido que a sinantropia afetou grandiosamente nessa relação.

inevitavelmente continuamos e continuaremos a afetar de tantas formas conhecidas e muitas outras formas que talvez nunca cheguemos a saber. afinal, querendo ou não, interagir é indispensável à existência.

glossário:
- hospedeiro definitivo: hospedeiro que alberga a fase reprodutiva do parasita.

fontes consultadas:
- tratado de animais selvagens, de zalmir silvino cubas, jean carlos ramos silva e josé luiz catão-dias (2007).
- the behaviour and ecology of Rattus norvegicus: from opportunism to kamikaze tendencies, de david w. macdonald, fiona mathews e manuel berdoy. in e
cologically-based management of rodent pests (1999).

7 de setembro de 2008

dinheiro, uma grande pressão seletiva

nem sempre a idéia do infanticídio é divertida como ilustrada pelo genial bill waterson.
o infanticídio é um comportamento que podemos considerar hediondo, mesmo que ocorra naturalmente.
biologicamente o infanticídio é caracterizado como a morte de um indivíduo jovem dependente causado por um co-específico, isto é, um indivíduo da mesma espécie. isto é geralmente associado a casos em que o macho ou a fêmea quer aumentar seu fitness*, tendo diversas explicações para o ato.
no caso dos próprios pais matarem a cria é um sinal de que não há bem-estar suficiente, sendo esta situação comum em animais estressados em cativeiro ou mesmo em nossa espécie, podendo ser expressa em psicopatologias e distúrbios comportamentais que levem ao resultado infanticida.

estou falando deste tema pois hoje saiu nos noticiários o caso de dois irmãos que foram asfixiados e esquartejados pelo pai e madrasta. os meninos, de 12 e 13 anos, fugiram de casa e moravam em um abrigo.
os meninos foram levados pra delegacia e depois encaminhados ao conselho tutelar. o resultado é que foram levados pra casa contra a vontade. eles queriam ir para o abrigo em que viveram no último ano, mas foram levados pra casa, onde eram maltratados. lá, a vida findou para eles.

a mãe havia deixado os filhos sob tutela do pai por falta de condições financeiras.
não conheço o estresse que a falta de recursos econômicos pode causar, mas é triste pensar que o dinheiro tenha se tornado, em nossa sociedade, numa pressão seletiva tão significante e trágica.

*fitness: brevemente, é um termo biológico que indica a probabilidade de um determinado genótipo ter sucesso biológico, ou seja, estar presente na população mundial (pool genético) daqui a várias gerações.

fontes consultadas:
- infanticide and maternal offspring defence in european rabbits under natural breeding conditions, de heiko g. rödel, anett starkloff, amando bautista, anne-christin friedrich e dietrich von holst, ethology (2008)
- the zoos forum handbook, uk department for environment, food and rural affairs (2007)
- pai e madrasta matam e esquartejam dois meninos em ribeirão pires, kleber tomaz e joão pequeno, folha cotidiano (2008)

24 de agosto de 2008

o espelho

o espelho sempre levou o homem a refletir sobre si mesmo, não apenas a imagem, mas filosofias e pensamentos muito profundos a respeito de sua própria natureza. mas é possível que não só o homem esteja condenado a estas auto-avaliações.

apesar dessa afirmação ser bem antropomórfica, a seguir vou falar da habilidade que alguns animais desenvolveram durante sua história evolutiva, e que se expressa na forma de comportamentos bem complexos, apesar de padronizáveis.

o reflexo da própria imagem tem efeitos intrigantes sobre a cabecinha dos indivíduos. uma das coisas mais engraçadas é quando o indivíduo não se reconhece no espelho, acha que o reflexo é outro indivíduo e faz uma seqüência de comportamentos sociais e/ou de auto-preservação, como ameaças ou mesmo a fuga.
minha cadela, rita, muitas vezes fica rosnando pra própria imagem. é um desconforto muito nítido, ela evita olhar no olho do próprio reflexo e devido a esse incômodo acaba por se retirar da frente do espelho, mas as vezes chega a verificar se há alguém estranho por trás do espelho, sem muito sucesso.

a habilidade oposta, porém, é algo que intriga muito mais em termos de capacidade cognitiva, e isto ocorre sem aprendizado. é o que em inglês é conhecido como mirror self-recognition (msr). para um animal ser caracterizado como tendo o msr, deve passar por 4 estágios. na seqüência apresentam: (i) resposta social (como a que descrevi para a rita), (ii) inspeção física do espelho (como a verificação da parte de trás do espelho), (iii) comportamentos-testes repetitivos diante do espelho (para o entendimento do espelho, como movimentos para frente e para trás diante do mesmo) e finalmente (iv) comportamentos auto-direcionados (nesta parte se utilizam marcas, no corpo do próprio animal, que não são visualizáveis sem o espelho, estimulando o animal a tocar ou remover a marca.)
animais sem msr normalmente param nos estágios i e ii, assim como descrevi para minha amiga canina. tenho também uma labradora, que as vezes faz comportamentos correspondentes ao estágio i, e nunca passa disso, pois mesmo dentro da espécie, as respostas a um determinado estímulo pode ser muito variada, diferindo de indivíduo para indivíduo.

esta habilidade é reconhecida em alguns poucos mamíferos.
além dos grandes primatas, dentro do qual nos incluímos, o golfinhos nariz-de- garrafa (Tursiops truncatus) e o elefante asiático (Elephas maximus) também apresentam msr.
porém, na semana passada (dia 19), foi publicado no PLoS(Public Library of Science) Biology um estudo em que descobriram o msr em goldie e gerti - que reconheceram uma marca colorida no pescoço, sob a boca.
o interessante é que esses dois indivíduos não pertence a nenhum dos grupos já mencionados, nem mesmo pertence a classe dos mamíferos. goldie e gerti são na verdade o primeiro caso conhecido fora do grupo dos mamíferos a apresentar tal habilidade. são duas aves da espécie Pica pica, conhecidos em inglês como european magpie, não sei como a chamam no brasil, mas em portugal tem o nome de pega-rabuda, pertencentes à família corvidae.
corvídeos são reconhecidos pelo alto desenvolvimento social e por seu cérebro relativamente grande. é também conhecido pelas habilidades deste grupo no manuseio de ferramentas além de insights comportamentais muito engenhosos, vide video do último post. devido a essa curiosidade aguçada e alta capacidade de observação, este grupo foi selecionado como um dos primeiros grupos de aves a serem testadas na verificação do msr.

a foto acima mostra a marca no pescoço de goldie, que esfregava a parte marcada como se tentasse tirá-la ao se olhar no espelho, removendo a marca.

o msr é reconhecido como evidência da auto-consciência e auto-reflexão, e acredita-se que esteja presente em animais nos quais a empatia e o entendimento social tenham grande importância, como de fato ocorre nos mamíferos que apresentam este comportamento.

marcas de outras cores além do amarelo também foram testadas, inclusive o preto, que serviu como controle pois nas penas pretas era praticamente invisível, confirmando que a marca não exercera nenhum estímulo tátil. de 5 indivíduos apenas goldie e gerti passaram no teste de msr, mas o autor do estudo, helmut prior, afirma que esta é a taxa de sucesso semelhante ao dos chimpanzés.

considerando-se que os ancestrais das aves e mamíferos se separaram há mais de 300 milhões de anos, é bem provável que o msr tenha surgido independentemente na história evolutiva destes animais, provavelmente surgindo devido a pressões sociais. o que corrobora a idéia do aparecimento indepentemente nos dois grupos é que além disso há o fato do cérebro de ave ser totalmente diferente de um cérebro mamífero, provando também que esta habilidade não se limita a uma estrutura neural em particular como o neocórtex dos mamíferos.

todos estes estudos em não-primatas indicam que habilidades "superiores"como msr não é tão limitado como se pensava, e que v. não precisa de uma cabecinha primata para o auto-reconhecimento, que antes se pensava ser exclusivo deste grupo. aliás, não precisa nem ser mamífero.

fontes consultadas:
- the magpie in the mirror, de virginia morell, ScienceNOW Daily News (2008)
- self-recognition in an asian elephant, de joshua m. plotnik, frans b. m. de waal e diana reiss, pnas (2006)
- mirror self-recognition in the bottlenose dolphin: a case of cognitive convergence, de diana reiss e lori marino, pnas (2001)