Mostrando postagens com marcador ameaças exógenas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ameaças exógenas. Mostrar todas as postagens

7 de setembro de 2009

homogeneização antropogênica e extrapolações

uma das consequências mais graves da atividade humana é a redução de biodiversidade.
e uma das formas pelas quais isto ocorre, é pela introdução de espécies invasoras.
a definição que acho mais pertinente para o termo é que estas espécies são exóticas (ou seja, que não têm sua origem evolutiva no local de ocorrência; alguns preferem o termo não-nativa) E causam algum tipo de dano ecológico. os danos mais comuns seriam competição com espécies nativas, hibridização ou até mesmo extinção de populações de espécies locais (recomendo os artigos publicados na revista da SBPC indicados no fim do post).

a introdução de uma espécie exótica num ecossistema se dá de duas formas: natural ou facilitada/mediada pelo homem. como caso de introdução natural de espécie, podemos citar eventos geológicos como a união geográfica da américa do norte com a do sul. este evento ocorreu no período neogeno (também conhecido como período terciário) da era cenozóica, num evento geológico recente de poucos milhões de anos, permitindo intenso intercâmbio de faunas. outros casos mais comuns sãopela expansão da distribuição de determinada espécie. atualmente a constante alteração do uso da terra faz com que este processo seja imensamente facilitado.

portanto, o surgimento do homem acelera ou medeia invasões biológicas. esta introdução, por sua vez, pode ser intencional ou acidental.
interesses econômicos são as principais causas da introdução intencional de espécies exóticas como produção agropecuária ou o mercado de animais de estimação (tanto legal como ilegalmente).

aqui acho relevante fazer um pequeno adendo:
para pessoas que compram pets exóticos, desde peixinhos, tartaruguinhas e outros bichinhos que são amplamente adquiridos mundo afora: quando não se desejar mais ter o animal exótico, não se deve JAMAIS soltá-lo na natureza (o bem que v. nem sabe se fará ao bichinho, pois ele pode morrer na primeira hora de liberdade, pode causar males ecológicos notáveis... a política brasileira é um ótimo exemplo disso). há casos de extinções de populações inteiras na natureza por causa de atitudes como essa de ir à beira da estrada e soltar o bicho no meio do primeiro mato que o cara encontra na frente. o ideal então é contatar uma entidade competente (não sei, mas eu procuraria o ibama ou secretarias de meio ambiente para saber como proceder) para destinar o animal. há casos em que os animais são destinados a zoológicos ou centros de reabilitação, mas depende muito de cada caso. muitas vezes é melhor sacrificar o animal.


agora voltemos à programação normal:
um caso comum em que se introduz propositalmente uma espécie exótica é a introdução dos predadores naturais de espécies introduzidas previamente (pode-se dizer que, geralmente, se introduz um fator de desestruturação ecológica na tentativa de amenizar outro; aumentando problemas ao invés de resolver). casos clássicos são relatados na austrália.
a introdução de forma acidental é muito menos intuitiva, e é bem ilustrada no caso de embarcações, que levam animais marinhos na água de lastro. no Brasil, os casos mais antigos remetem à época da colonização de nosso país, com invasões biológicas de moluscos incrustados nas caravelas.

caravelas traziam colonizadores a bordo e moluscos no casco. foto

de qualquer forma, a entrada de espécies invasoras tende a homogeneizar a genética das espécies que ocorrem num determinado local. isso quer dizer que a biodiversidade sofre uma redução. sobre este fenômeno associado à atividade humana, diz-se que ocorre uma homogeneização antropogênica. as atuais atividades em nível global aceleram ainda mais tal processo.
eu considero que as cidades tenham papel fundamental na homogeneização, não apenas das espécies mas do ambiente, já que as cidades compartilham algumas características comuns como o fato de que conforme crescem, tendem a se edificar cada vez mais, além de aumentar a concentração demográfica da população humana como dos animais sinantrópicos que ocorrem ali. é claro que ainda restam características específicas de cada local. na cidade de são paulo e em proximidades, por exemplo, podemos ver facilmente animais (nativos/exóticos, domesticados/semi-ferais/ferais/silvestres) como bem-te-vis, sabiás-laranjeiras, avoantes, joões-de-barro, pardais, garças-brancas, pombos-domésticos, maritacas, cães, gatos, ratos, baratas, aranhas, etc..., além do próprio homem, sem grande variação das espécies predominantes na fauna local. isso obviamente é resultado da ocupação humana, que cria um "vegetação" homogênea (uma "selva de pedras"?!). hábitats sem variação ambiental invevitavelmente tem uma fauna pouco variada (isto é, pouco diversificada).

o papel ecológico dos componentes das cidades é bem homogêneo apesar de detalhes estéticos diferentes. a expressão humana assim como qualquer outro fator ecológico, é influenciada e influencia o ambiente ao mesmo tempo que é uma influência sobre outros seres: é a relação biótico e abiótico que define a ecologia.

são paulo, ambiente homogeneizado pela ocupção humana. foto

como ambientes urbanos são homogêneos, a expressão humana também tende a se homogeneizar. quero dizer que a cultura também sofre a homogeneização criada pelo próprio homem. músicas globais, filmes globais (não da rede globo, mas hollywoodianos!hahaha), idiomas globais. tudo isso tende a hibridizar com ou substituir culturas locais.
a diversidade de idéias parece diminuir cada vez mais. alguns sofrem mais com isso que outros, claro, mas no geral isso se dá em detrimento de folclores e artes, valores morais e familiares locais, etc... possibilitando a identificação de pessoas totalmente diferentes, mas em detrimento de regionalismos.

hoje em dia fala-se em cidadãos globais, preocupados com causas globais (a internet age como o melhor catalisador já inventado). o futuro do planeta e o estilo de vida a se seguir; tendências culturais de todas as artes nos locais mais bacanas. isso tudo tende a fazer com que idéias mais "adaptadas" sobrevivam. cada sociedade é um ambiente adequado para idéias diferentes, e mais uma vez surge a identidade local. perdem-se muitas cores e ganham-se poucas, é uma relação assimétrica, talvez desprovida de intenção. a homogeneização não ocorre apenas em cidades, mas em qualquer local que o homem ocupe e homogeneíze, afetando as diversidades biológica e cultural.

recomendações de leitura
- Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Impacto das espécies invasoras no ambiente aquático.
- Machado, CJS, Oliveira AES, Matos DMS, Pivello V, Chame M, Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Recomendações para elaboração e consolidação de uma estratégia nacional de prevenção e controle das espécies exóticas no Brasil.

31 de julho de 2009

vacina do cão

em minha opinião pessoal, o cão é um dos sinantrópicos mais notáveis.
como dono de duas cadelas, sou a favor da posse responsável de animais, prezando o bem-estar físico e psicológico deles.
para isto, uma das vacinas periódicas essenciais é a anti-rábica.
pra ter bastante adeptos, a campanha de vacinação da prefeitura de são paulo aproveita a antiga crendice de que o mês de agosto é o mês do cachorro louco. então a época de vacinação já está aí. ela ocorre no período de 03 a 16 de agosto.

se não vacinar, o bicho morde
foto tirada de worms and germs blog


v. pode levar seu gato ou cão para tomar esta vacina consultando a lista completa dos postos de vacinação (em pdf), que mesmo não sendo de fácil consulta, é útil. para mais informações e recomendações, consulte o site da COVISA(Coordenação de Vigilância em Saúde) ou ligue 156.

se não me engano, no tratado de animais silvestres, os autores dizem que a raiva é transmissível, e uma vez que ele começa a se desenvolver no hospedeiro mamífero, se torna incurável e (virtualmente)100% letal.

é bom lembrar que no ambiente urbano, as aglomerações populacionais apenas aumentam as possibilidades de contágio, por isso vacine seu cão. é uma questão não apenas de gostar dele, mas de saúde pública.

se v. ainda não tem seu cão, adote.

14 de abril de 2009

o mestre da desinformação

recebi recentemente o email de Júlio César Bicca-Marques, através do grupo de emails de primatologia, no qual ele divulga a campanha "proteja seu anjo da guarda"

mas vamos por partes: globo ataca novamente com todo seu poder de persuasão desinformativa e alienante. é uma tremenda irresponsabilidade por parte de formadores de opinião fazer todo desserviço que prestam a fazer diariamente.

"A febre amarelaG é uma doença infecciosa, transmitida por um vírus do macacos [sic]. O mosquito pica o macaco e transmite ao homem."

"o mosquito pica o macaco e transmite ao homem"? que mecanismo biológico é esse?

quem transmite a doença ao macaco é o mosquito, assim como ao homem. se este mecanismo, de um vetor picar o macaco e depois picar o homem, for motivo de perseguição ao macaco bugio - espécies do gênero Alouatta - então deveríamos perseguir todas as outras pessoas que se tornam infectadas com a doença também. mas isso é uma tremenda idiotice sem tamanho.

a consequência direta disto é o medo e a perseguição em relação ao simpático bugio. o bugio sofre os atos antropogênicos duas vezes devido a febre amarela, pois além de sofrer com a degradação ambiental na forma de perda de habitat, ainda é perseguido devido ao ódio sem sentido das pessoas que se sentem lesadas com a doença. é a culpabilização da vítima que neste caso agrava o estado de conservação do bugio, além de ser ilegal causar a morte destes animais.

bugio possivelmente vítima de febre amarela em estado avançado de decomposição
(fonte)

o nome da campanha "proteja seu anjo da guarda" se justifica pelo fato de que mortes de bugios por febre amarela serve como bioindicador da circulação do vírus na região, alertando órgãos de saúde pública e acelerando programas de vacinação ao vírus da febre amarela.

mais uma vez a frase de dostoievski cabe aqui: "O homem está sempre pronto para distorcer aquilo que dizem os seus sentidos, simplesmente para justificar a sua lógica."

G existem dois tipos de febre amarela: a urbana, erradicada do brasil por volta da década de 1960, e a silvestre. os vetores da forma silvestre são mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, enquanto a forma urbana pode ser transmitida pelo Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue.

via primatologia (yahoo! grupos)

10 de março de 2009

chumbo e comportamentos antissociais

a dentista kelly kaneshiro olympio, da faculdade de saúde pública da usp, demonstrou em sua pesquisa que comportamentos antissociais em adolescentes está associada a exposição a altos índices de chumbo.
através de um questionário e de amostras de esmalte dentário, foram relacionados comportamentos antissociais (queixas somáticas, problemas sociais, comportamento de quebrar regra) com concentrações de chumbo. altas concentrações de chumbo no esmalte dentário de adolescentes foram observadas em áreas contaminadas pelo chumbo ou até a 2km delas e também nos que conviveram com pessoas que trabalhavam/trabalham na fabricação de tintas, pigmentos, cerâmicas ou baterias, indicando que estes são fatores de risco para contaminação pelo chumbo.
se isso ocorre, é possível que níveis mais baixos causem comportamentos antissociais mais moderadamente? se sim, a poluição de são paulo poderia explicar uma pequena parte do temperamento de seus cidadãos.

via mente & cérebro

24 de janeiro de 2009

ceratopogonídeos - porvinhas

we suck blood! - pt.2

Ceratopogonidae é a família da Ordem Diptera em que as espécies hematófagas são conhecidas como maruim, mosquito pólvora, porvinhas,
pólvora, meruim, miruim, bembé, catuqui, catuquim, meruí,meurim, muruim, mosquito-do-mangue, mosquitinho-do-mangue.dentre outros nomes populares. dentro desta família o maior gênero é o Culicoides - sendo cosmopolita, excetuando antártida e nova zelândia -, no brasil ocorre ainda o gênero Focipomyia subgêneros Lasiohelea e Leptoconops.

estas espécies ocorrem preferencialmente em temperaturas acima de 25º C, umidade acima de 80% e pouco vento, alimentando-se sempre próximos a áreas de reprodução.

o horário de atividade parece variar de acordo com o local havendo relatos tantos de atividade o dia todo como só durante o dia, com picos de atividades também variáveis.
a principal espécie que ataca o homem no brasil é a Culicoides paraensis (Goeldi,1905) - descrito pelo grande naturalista emílio goeldi -, correspondendo a mais de 90% de ocorrências de picadas de porvinhas

distribuição geográfica de C. paraensis na américa
figura retirada de felippe-bauer et al.


este animal tem importância epidemiológica em humanos por ser vetor da febre oropouche além da filariose causada por Mansonella ozzardi. apesar desta última não ser patogênica, sua identificação é importante para se diferenciar suas microfilárias das de Wuchereria bancrofti, causadoras da elefantíase e transmitida pelo mosquito Culex sp.
já a febre oropouche é mais grave, causado pelo vírus de mesmo nome. estima-se que entre 1961 e 1996 o vírus tenha infectado mais de 500mil pessoas somente na amazônia brasileira. os sintomas são cefaléia, dor muscular, nas articulações, pode ocorrer meningite asséptica, sem óbitos nem sequelas. esta é uma doença reemergente ocorrendo algumas epidemias nos últimos anos, mais de duas décadas após a última epidemia.

e finalmente temos uma foto legal do famoso porvinha:
Culicoides sp, é bom lembrar que esse bicho mede 1 - 3 mm - fonte

no trabalho de felippe-bauer e colaboradores há uma chave de identificação de espécies do grupo paraensis no qual descrevem sempre a presença de 18 dentes na mandíbula, isso me fez perceber que deve ser por esse tipo de aparato bucal - mordedor ao invés de simplesmente picador - que o porvinha sempre causa um grande estrago onde ele suga o sangue. em inglês esta suposição é muito mais lógico, pois porvinha são conhecidas como biting midges, ao passo que nós chamamos erroneamente tal processo hematofágico como "picada".

além disso a saliva é constituída por diversas proteínas que causam edema, vasodilatação e prurido. juntamente a isto tudo ainda há proteínas com efeito anticoagulante.

sabendo de tudo isto é fácil entender o estrago que a mordida deste animal causa em nossa pele. para piorar o visual da mordida há pessoas que ainda têm (isso ainda tem acento??) reações alérgicas que variam muito de intensidade.

fontes consultadas
-
the Parnopoid Orders in Entomology 3rd ed. - gillott, cedric (2005)
- ocorrência de espécies de Culicoides Latreille (Diptera, Ceratopogonidae) na área metropolitana de são luis, maranhão, brasil - vera l. l. de barros, robert m. marinho, josé m. m. rebêlo - caderno de saúde pública rj (2007).
- maruins (ceratopogonidae: diptera) do estuário do rio pará e do litoral do estado do pará, brasil - rosemeire lopes da trindade e inocêncio de sousagorayeb - entomología y vectores (2005)
- descontrole de maruins - a notícia (2007)
- two new culicoides of the paraensis species group (Diptera:Ceratopogonidae) from the amazonian region of peru
- maria luiza felippe-bauer, abraham g. cáceres, cristiane s. silva, william valderrama-bazan, antero gonzales-perez - memórias do instituto oswaldo cruz (2003)
- mansonella ozzardi - site da ufrgs
-
oropouche fever epidemic in northern brazil: epidemiology and molecular characterization of isolates - helena b. vasconcelos, raimunda s. s. azevedo, samir m. casseb, joaquim p. nunes-neto, jannifer o. chiang, patrick c. cantuária, maria n. o. segura, lívia c. martins, hamilton a. o. monteiro, sueli g. rodrigues, márcio r. t. nunes, pedro f. c. vasconcelos - journal of clinical virology (2008)
- reemergence of oropouche fever, northern brazil - raimunda do socorro da silva azevedo, márcio roberto teixeira nunes, jannifer oliveira chiang, gilberta bensabath, helena baldez vasconcelos, ana yecê das neves pinto, lívia carício martins, hamilton antônio de oliveira monteiro, sueli guerreiro rodrigues, and pedro fernando da costa vasconcelos - emerging infectious diseases (2007)
- Collection and analysis of salivary proteins from the biting midge Culicoides nubeculosus (Diptera: Ceratopogonidae) - Langner KF, Darpel KE, Denison E, Drolet BS, Leibold W, Mellor PS, Mertens PP, Nimtz M, Greiser-Wilke I - Journal of Medical Entomology (2007)

18 de janeiro de 2009

we suck blood! pt.1 - intro

janeiro é a época do ano em que muitos brasileiros — pelo menos os paulistas — descem para o litoral devido ao sol e apesar das chuvas.
o litoral paulista é acompanhado por uma região serrana, que devido a irregularidade do terreno ainda mantém a maior parte do pouco que sobra da mata atlântica.
a proximidade com vegetação causa um inconveniente para a maioria das pessoas: a quantidade de insetos.

dos insetos me limitarei aos dípteros hematófagos, isto é, que se alimentam de sangue — o hábito hematófago em dípteros se dá geralmente na fêmea, e serve para que o ciclo reprodutivo seja completo, maturando os ovos. diptera é a ordem que agrupa moscas, mutucas, mosquitos, borrachudos e porvinhas dentre (vários) outros.

os dípteros apresentam hábitos alimentares filtrador (larvas aquáticas), sugador ( tanto de líquidos provenientes de matéria orgânica em decomposição como de líquidos corpóreos de outros animais vertebrados ou invertebrados) e há até mesmo formas adultas que não se alimentam.

os insetos hematófagos são bastante conhecidos em virtude de sua importância clínica, sendo vetores de diversas doenças, exemplos crassos de nossa realidade são a dengue e febre amarela, mas falarei de tais características conforme cada animal for abordado.

pessoalmente não sabia reconhecer morfologicamente um borrachudo e porvinha, mas aqui tentarei identificar os mais conhecidos. acho que é uma informação útil para pessoas mais curiosas em saber quem está devorando-as.

aguarde para mais sugadores de sangue.

we suck blood! - fonte

ps: estranho, mas o mosquito da foto parece ter antenas de macho ("plumado"). como dizem que "em geral" a fêmea se alimenta de sangue, então esta pode ser uma das exceções. ou senão é um intersexo, em que o indivíduo apresenta estrutura reprodutiva de um sexo e partes, como antena, do sexo oposto. ou ainda mais, a antena da fêmea dessa espécie pode ser assim mesmo.

16 de setembro de 2008

incríveis relações hospedeiro+parasita

numa análise bem simplista poderíamos dizer que um dos objetivos de se ter vida é a de perpetuá-la, ou seja, v. terá filhos, que terão filhos e assim por diante, indefinidamente. (obviamente, como toda regra há exceções.)

para atingir tal objetivo, parasitas têm estratégias evolutivas muito intrigantes.
basicamente na relação evolutiva entre hospedeiro e parasita, o parasita tende a ser cada vez menos nocivo ao hospedeiro, como os micróbios que temos em nosso aparelho digestório, quanto mais agressiva for esta relação, é mais provável que seja um evento evolutivo recente.

parasitas alteram o funcionamento de seu hospedeiro para propagar-se da maneira mais eficaz possível. exemplos cotidianos podem ser citados facilmente.
o espirro de uma pessoa gripada, por exemplo, propaga o vírus da gripe através do ar. assim como ocorre com a tosse do tuberculoso.

e mesmo que uma pessoa coloque a mão na frente, é improvável que ela vá lavar a mão logo em seguida. virtualmente, isto significa que até esta pessoa desinfetar sua mão, irá propagar micróbios no apertar de mãos, ao pegar na maçaneta, ao atender o telefone, etc.
este é um dos motivos pelo qual aprendemos a lavar as mãos antes de comer, pois é o momento que levamos a mão a boca, sendo um momento bem delicado nesse processo todo.

aliás, encontrei um vídeo "educativo" que mostra como deveríamos espirrar.



mas há uma estratégia utilizada por alguns parasitas que são mais intrigantes: a indução de comportamentos do hospedeiro.

digo isso porque um amigo meu me relatou que havia sido mordido por um cão raivoso.
felizmente ele - meu amigo, não o cachorro - não morreu (afinal a raiva é uma doença 100% letal), pois foi tomar uma vacina anti-rábica a tempo.

tebaldi, o cara do meio e que está sendo mordido pelo cão foi a vítima.

porém, o mais interessante do relato dele foi que ao procurar informações sobre a raiva ele leu que em estágios mais avançados, as pessoas começam a ficar com vontade de sair mordendo outras pessoas, como faz um cão raivoso.
seria uma modificação comportamental nítida para a propagação do parasita, e consequentemente, da doença.

talvez o cão raivoso não seja mais agressivo, ele apenas quer morder as pessoas. mas isto é apenas uma especulação pessoal. enfim...

um outro caso mais ou menos bem conhecido é o caso da toxoplasmose em ratos.
o rato (Rattus norvegicus) é um animal neofóbico, como já disse em algum post anterior.
só que o rato infectado com o toxoplasma (Toxoplasma gondii) fica sem medo.
poderíamos dizer que fica corajoso e perde o medo da morte.
há diversos estudos mostrando isto.
um dos experimento mais interessantes foi feito com odores. incluíam urina de gato, urina de coelho, água e materiais utilizados para a confecção do ninho (não consigo traduzir o termo bedding material, então fica assim mesmo). nele o roedor infectado com toxoplasma cheirava mais a urina de gato que ratos não infectados, sendo que as taxas de visitas em outros odores era relativamente semelhante.

o rato perde a neofobia, começa a procurar estímulos novos, desde ambientes a alimentos. é o que macdonald chama de tendência kamikaze. essa estranha tendência suicida na verdade é um aumento nas taxas de atividade do animal juntamente ao medo perdido (como ilustrado no caso dos odores), o que aumenta a probabilidade de ser encontrado por um predador, no ambiente sinantrópico ocasionalmente o predador é o gato doméstico
se analisarmos a biologia desta interação toda perceberemos que o mais interessante disto tudo não é que o rato perde o medo do gato, mas que o gato é o hospedeiro definitivo do toxoplasma. saber quão antiga essa relação entre gatos ratos e toxoplasmas é, e o quanto a convivência peridoméstica de ambos acelerou tal processo ainda não é possível. mas é nítido que a sinantropia afetou grandiosamente nessa relação.

inevitavelmente continuamos e continuaremos a afetar de tantas formas conhecidas e muitas outras formas que talvez nunca cheguemos a saber. afinal, querendo ou não, interagir é indispensável à existência.

glossário:
- hospedeiro definitivo: hospedeiro que alberga a fase reprodutiva do parasita.

fontes consultadas:
- tratado de animais selvagens, de zalmir silvino cubas, jean carlos ramos silva e josé luiz catão-dias (2007).
- the behaviour and ecology of Rattus norvegicus: from opportunism to kamikaze tendencies, de david w. macdonald, fiona mathews e manuel berdoy. in e
cologically-based management of rodent pests (1999).