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7 de setembro de 2009

homogeneização antropogênica e extrapolações

uma das consequências mais graves da atividade humana é a redução de biodiversidade.
e uma das formas pelas quais isto ocorre, é pela introdução de espécies invasoras.
a definição que acho mais pertinente para o termo é que estas espécies são exóticas (ou seja, que não têm sua origem evolutiva no local de ocorrência; alguns preferem o termo não-nativa) E causam algum tipo de dano ecológico. os danos mais comuns seriam competição com espécies nativas, hibridização ou até mesmo extinção de populações de espécies locais (recomendo os artigos publicados na revista da SBPC indicados no fim do post).

a introdução de uma espécie exótica num ecossistema se dá de duas formas: natural ou facilitada/mediada pelo homem. como caso de introdução natural de espécie, podemos citar eventos geológicos como a união geográfica da américa do norte com a do sul. este evento ocorreu no período neogeno (também conhecido como período terciário) da era cenozóica, num evento geológico recente de poucos milhões de anos, permitindo intenso intercâmbio de faunas. outros casos mais comuns sãopela expansão da distribuição de determinada espécie. atualmente a constante alteração do uso da terra faz com que este processo seja imensamente facilitado.

portanto, o surgimento do homem acelera ou medeia invasões biológicas. esta introdução, por sua vez, pode ser intencional ou acidental.
interesses econômicos são as principais causas da introdução intencional de espécies exóticas como produção agropecuária ou o mercado de animais de estimação (tanto legal como ilegalmente).

aqui acho relevante fazer um pequeno adendo:
para pessoas que compram pets exóticos, desde peixinhos, tartaruguinhas e outros bichinhos que são amplamente adquiridos mundo afora: quando não se desejar mais ter o animal exótico, não se deve JAMAIS soltá-lo na natureza (o bem que v. nem sabe se fará ao bichinho, pois ele pode morrer na primeira hora de liberdade, pode causar males ecológicos notáveis... a política brasileira é um ótimo exemplo disso). há casos de extinções de populações inteiras na natureza por causa de atitudes como essa de ir à beira da estrada e soltar o bicho no meio do primeiro mato que o cara encontra na frente. o ideal então é contatar uma entidade competente (não sei, mas eu procuraria o ibama ou secretarias de meio ambiente para saber como proceder) para destinar o animal. há casos em que os animais são destinados a zoológicos ou centros de reabilitação, mas depende muito de cada caso. muitas vezes é melhor sacrificar o animal.


agora voltemos à programação normal:
um caso comum em que se introduz propositalmente uma espécie exótica é a introdução dos predadores naturais de espécies introduzidas previamente (pode-se dizer que, geralmente, se introduz um fator de desestruturação ecológica na tentativa de amenizar outro; aumentando problemas ao invés de resolver). casos clássicos são relatados na austrália.
a introdução de forma acidental é muito menos intuitiva, e é bem ilustrada no caso de embarcações, que levam animais marinhos na água de lastro. no Brasil, os casos mais antigos remetem à época da colonização de nosso país, com invasões biológicas de moluscos incrustados nas caravelas.

caravelas traziam colonizadores a bordo e moluscos no casco. foto

de qualquer forma, a entrada de espécies invasoras tende a homogeneizar a genética das espécies que ocorrem num determinado local. isso quer dizer que a biodiversidade sofre uma redução. sobre este fenômeno associado à atividade humana, diz-se que ocorre uma homogeneização antropogênica. as atuais atividades em nível global aceleram ainda mais tal processo.
eu considero que as cidades tenham papel fundamental na homogeneização, não apenas das espécies mas do ambiente, já que as cidades compartilham algumas características comuns como o fato de que conforme crescem, tendem a se edificar cada vez mais, além de aumentar a concentração demográfica da população humana como dos animais sinantrópicos que ocorrem ali. é claro que ainda restam características específicas de cada local. na cidade de são paulo e em proximidades, por exemplo, podemos ver facilmente animais (nativos/exóticos, domesticados/semi-ferais/ferais/silvestres) como bem-te-vis, sabiás-laranjeiras, avoantes, joões-de-barro, pardais, garças-brancas, pombos-domésticos, maritacas, cães, gatos, ratos, baratas, aranhas, etc..., além do próprio homem, sem grande variação das espécies predominantes na fauna local. isso obviamente é resultado da ocupação humana, que cria um "vegetação" homogênea (uma "selva de pedras"?!). hábitats sem variação ambiental invevitavelmente tem uma fauna pouco variada (isto é, pouco diversificada).

o papel ecológico dos componentes das cidades é bem homogêneo apesar de detalhes estéticos diferentes. a expressão humana assim como qualquer outro fator ecológico, é influenciada e influencia o ambiente ao mesmo tempo que é uma influência sobre outros seres: é a relação biótico e abiótico que define a ecologia.

são paulo, ambiente homogeneizado pela ocupção humana. foto

como ambientes urbanos são homogêneos, a expressão humana também tende a se homogeneizar. quero dizer que a cultura também sofre a homogeneização criada pelo próprio homem. músicas globais, filmes globais (não da rede globo, mas hollywoodianos!hahaha), idiomas globais. tudo isso tende a hibridizar com ou substituir culturas locais.
a diversidade de idéias parece diminuir cada vez mais. alguns sofrem mais com isso que outros, claro, mas no geral isso se dá em detrimento de folclores e artes, valores morais e familiares locais, etc... possibilitando a identificação de pessoas totalmente diferentes, mas em detrimento de regionalismos.

hoje em dia fala-se em cidadãos globais, preocupados com causas globais (a internet age como o melhor catalisador já inventado). o futuro do planeta e o estilo de vida a se seguir; tendências culturais de todas as artes nos locais mais bacanas. isso tudo tende a fazer com que idéias mais "adaptadas" sobrevivam. cada sociedade é um ambiente adequado para idéias diferentes, e mais uma vez surge a identidade local. perdem-se muitas cores e ganham-se poucas, é uma relação assimétrica, talvez desprovida de intenção. a homogeneização não ocorre apenas em cidades, mas em qualquer local que o homem ocupe e homogeneíze, afetando as diversidades biológica e cultural.

recomendações de leitura
- Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Impacto das espécies invasoras no ambiente aquático.
- Machado, CJS, Oliveira AES, Matos DMS, Pivello V, Chame M, Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Recomendações para elaboração e consolidação de uma estratégia nacional de prevenção e controle das espécies exóticas no Brasil.

7 de abril de 2009

and now... the misconceptions!

"false facts are highly injurious to the progress of science, for they often endure long; but false views, if supported by some evidence, do little harm, for everyone takes a salutary pleasure in proving their falseness; and when this is done, one path towards error is closed and the road to truth is often at the same time opened."
charles darwin


fui introduzido ao conceito de misconceptions há alguns meses pelo prof. ranvaud, da usp.
a princípio a idéia veio da educação, no qual os seguintes itens caracterizam-na:

1. a idéia é muito difusa (arbitrariamente, talvez >20% dos alunos)
2. resiste a mudança (os alunos confabulam desculpas pra mostrar que estão certos)
3. convive com outros conceitos que são terminantemente incompatíveis com a misconception em questão
4. é grave, uma verdadeira ameaça à integridade da estrutura cognitiva em que aquela área está montada para a pessoa

porém, não só na educação isto ocorre, mas muitos conceitos ou pré-conceitos e pensamentos intuitivos reforçam essas tais concepções errôneas, podendo haver onde quer que o conhecimento humano exista.

alguns exemplos crassos relacionados à biologia:
- a teoria da evolução aborda a origem da vida
- machos de outras espécies são aptos a se reproduzir o ano todo assim como humanos.
- o cérebro humano apresenta 100 bilhões de neurônios
- cobra = serpente
- pássaro = ave
- ecologia = ambientalismo

o fato é que tanto o conhecimento popular como o meio acadêmico está sujeito às misconceptions.

talvez haja algum valor adaptativo nisto, pois não temos acesso a todas as informações que precisamos o tempo todo, precisando de extrapolações a partir do que temos em mãos.

então vou relatar aqui uma misconception pessoal que só me dei conta durante minha graduação quando, devido ao meu tcc com territorialidade de coruja-buraqueira (Athene cunicularia), tive mais contato com a ornitologia. o fato é que aves não dormem em ninhos a vida toda, como muitos desenhos me induziram a pensar durante um bom tempo.
aves dormem, geralmente, empoleirados em árvores conhecidas, apropriadamente, como dormitórios, ou então dormem no chão e no máximo em buracos, conforme os hábitos e plasticidade da espécie.

passarinho dormindo em comedouro (foto)

o ninho é um importante detalhe do comportamento reprodutivo das aves, o qual serve para oviposição, incubação, eclosão, proteção ao filhote que ainda não tem penas, até que o filhote se emancipe (aprendendo a voar e se alimentar por conta própria). após este período, as aves caem fora do ninho, abandonam-na, podendo retornar para o mesmo ninho, contruir um novo ninho ou até mesmo utilizar um outro ninho na próxima estação reprodutiva.

...são enormes detalhes que fazem toda diferença.

29 de março de 2009

é sempre lua cheia na cidade

ontem rolou a hora do planeta, promovida mundialmente pela wwf, esta foi a primeira participação da wwf tupiniquim neste evento.
segundo o site do wwf-br, o evento é um "ato simbólico (...) para demonstrar preocupação com o aquecimento global".
na paulicéia, os seguintes estabelecimentos/locais participaram oficialmente: ponte estaiada, monumento às bandeiras,viaduto do chá,estádio do pacaembu, teatro municipal, obelisco, parque do ibirapuera, fonte do parque independência, instituto butantan, museu de arte moderna, edifício copan, world trade center, sheraton hotel e sede da vivo.

apesar de alguns eventos terem sido promovidos aproveitando a pouca escuridão que se obtinha, muito provavelmente a maioria das pessoas que não tivesse conhecimento do evento, apenas estranhasse que alguns pontos estivessem menos iluminados que o normal.

por ser simbólico, muitas pessoas devem ter acendido velas por aí, para não iluminar, mas talvez parafina de velas seja bem mais poluentes que watts gastos eletricamente.

apesar do blecaute bem parcial da cidade ter sido em protesto aos danos indiretos da iluminação, aqui neste post falarei exatamente dos danos diretos que causamos com a iluminação.

poluição luminosa

a national geographic deste mês trouxe de brinde a edição de nov/08 em que a reportagem de capa era "o fim da noite", a matéria é escrita por verlyn klinkenborg, e logo de cara ele cita um fato evolutivo crucial pra existência de tanta luz: "se os seres humanos se sentissem de fato à vontade sob a luz da lua e das estrelas, atravessaríamos contentes a escuridão com o mundo da meia-noite tão visível para nós quanto ele é para um vasto número de espécies noturnas". o fato é esse mesmo, evoluímos de bichos diurnos e acendemos luzes para nos sentir mais a vontade.

a preocupação com a poluição luminosa começou devido às observações astronômicas, mas atualmente percebemos que o buraco é bem mais embaixo. boa parte da iluminação não é aproveitada onde deveria, pois a luz vaza para cima e para os lados, onde a iluminação pública não é útil para pessoas, que estão andando num nível abaixo dos postes.

acho que todos conhecem o fato de insetos se aglomerarem em fontes de luz, voando em torno de lâmpadas e holofotes. os fatores específicos que explicam este comportamento errático é bem complexo, envolvendo diversos efeitos, mas basicamente o que ocorre é que muitos animais se orientam a noite pela luz da lua, mas a invenção da luz gerou uma infinidade de fontes de luz tão ou mais fortes que o luar, desorientando tais animais.
a maioria destes animais ficam voando até a exaustão, quando, então, caem e morrem.

aquilo que popularmente chamamos de relógio biológico (e tecnicamente por relógio/ciclo/ritmo circadiano), que é responsável por respostas fisiológicas e comportamentais de acordo com as diversas situações que o ambiente proporciona, é também responsável por diversos aspectos do funcionamento normal do corpo, como ciclo sono/vigília, ciclos hormonais, atividades neurais, oscilações térmicas e tantas outras periodicidades que ocorrem em nosso corpo ao longo das 24h diárias. a iluminação gera alterações relevantes no funcionamento adequado, podendo levar a distúrbios como os de sono e até aumentar tendências a cânceres.

alterações desses ciclos obviamente ocorrem nos outros animais que também sejam expostos à luz. um dos casos que mais bem ilustra a gravidade da iluminação na fauna é o das tartarugas. as fêmeas de tartarugas fazem a desova em praias escuras, nos quais os filhotes, assim que eclodem, podem se orientar pelo luar, indo em direção ao mar. em áreas urbanas litorâneas, a luz da cidade confunde o bicho, e a luz, que é o gatilho biológico da tartaruga recém-nascida, a faz rumar para a cidade, lá são expostas a diversos perigos, desde carros, pessoas desatentas, animais domésticos, predadores oportunistas, e a morte por exaustão.

outro exemplo bem interessante são dos vagalumes, que necessitam da bioluminescência para a reprodução. mas sendo a iluminação artificial mais clara que a bioluminescência, estes animais não conseguem se comunicar eficazmente, reduzindo consideravelmente suas populações, podendo levá-las a extinção.

adaptações simples que evitem o vazamento da luz são possíveis, talvez tornando a poluição a luminosa o tipo de poluição mais fácil de remediar. bastando um desenho que otimize a luz para baixo.
toronto, canadá

em cidades superedificadas, os prédios iluminados a noite se tornam verdadeiros labirintos de luz. grupos como o flap (fatal light awareness program), programa de alerta para a luz fatal em inglês, tentam conscientizar e minimizar ameaças a aves que o meio urbano propicia. o flap estima que apenas na américa do norte, pelo menos 100 milhões de aves morram todos os anos em colisões com edifícios.

av. paulista

se compararmos a cidade de são paulo com grandes cidades do hemisfério norte, provavelmente não teremos tantos prédios altos (um skyline grandioso de prédios altíssimos de mais de 50 ou mais andares), tão comuns naqueles cantos do mundo, e provavelmente o impacto aqui seja menor, mas nenhum estudo do tipo jamais foi executado por essas bandas, sendo uma lacuna bem interessante que provavelmente ainda ficará aberta por um bom tempo.

uma das coisas que urbanização traz consigo é a fauna sinúrbica, animais especializados e adaptados ao meio urbano. morcegos que se especilizam em predar insetos sob luzes públicas é uma delas. e quando isto é novidade em algum lugar, estes animais provavelmente substituam a fauna original, reduzindo e até eventualmente extinguindo uma espécie do local. este se torna mais um tipo de invasão biológica promovida pelo homem e todo progresso urbano que levamos conosco, é nocivo a tantas outras formas de vida nativas.

efeitos de pilares de luz, devido ao reflexo de luz artificial
em locais bem gelados, para mais fotos, clique aqui


dentre tantos fenômenos belos como os pilares de luz (como na foto acima) ou catastróficos como a morte de milhões de animais, uma coisa é certa, a luz artificial noturna, como qualquer outra coisa, deve ser utilizada com moderação, caso contrário, poderemos ser nós quem veremos e viveremos as piores consequências de se adequar o ambiente que vivemos ao nosso bel prazer (e conforto), alterando tantos ciclos (circadianos e ultradianos), em tantas espécies (não apenas animais), que por milhões de anos permaneceram iguais, e que aos poucos a cronobiologia desvenda.

links relacionados
- ecological consequences of artificial night lighting - ucla institute of the environment and the urban wildlands group
- network features of the mammalian circadian clock - julie e. baggs, tom s. price, luciano di tacchio, satchidananda panda, garret a. fitzgerald, john b. hogenesch - plos biology (2009)
- of owls, larks and alarm clocks - melissa lee phillips, nature (2009)

10 de março de 2009

a questão ambiental é no fundo uma questão social

quando houve o lançamento do livro charles darwin - em um futuro não tão distante, uma das pessoas que falou foi sérgio besserman vianna, economista da puc-rj. sua fala me intrigou muito, e assim que peguei o livro, comecei lendo o capítulo escrito por ele, intitulado darwin e a consciência no século xxi. é bastante interessante, pois sai do âmbito meramente biológico, passeando por psicanálise, economia e outras ditas ciências sociais, e uma das idéias defendidas por ele, e que concordo, é de que a questão ambiental é no fundo, ou talvez nem tão fundo assim, uma questão social. mas não uma mera questão social, mas uma questão social no nível específico! um problema como nunca antes enfrentamos.

devemos nos colocar em nosso lugar, nada de querer cuidar da natureza por que ela não sabe se defender. o enfoque que deveria ser dado no ambientalismo é totalmente outro: devemos cuidar da natureza, pois caso contrário, quem vai se dar mal somos nós, e nem sobreviveremos pra contar a história.
segue um trecho que escolhi de seu capítulo:

"ainda que, com o aumento do seu poder sobre a natureza, a humanidade tenha desenvolvido um ingênuo sentimento de onipotência, a verdade é que na escala de tempo adequada, que não é a das décadas da nossa existência, ou dos séculos e milênios de nossa história, ou mesmo das poucas centenas de milhares de anos do Homo sapiens, mas sim dezenas de milhões de anos, a nossa espécie Homo sapiens não tem capacidade de gerar um dano notável na natureza do planeta. no máximo, provocaríamos mais uma grande extinção, ao final da qual uma nova era, com uma nova biodiversidade, surgiria (calcula-se em cinco a dez milhões de anos o tempo de recuperação da natureza após cada uma das cinco grandes extinções). nós, certamente, não estaríamos aqui.
por essa razão, preocupar-se com o meio ambiente do planeta não é uma consciência que possa decorrer de uma postura paternalista, algo ridícula, em relação ao meio natural, mas, ao contrário, um reconhecimento da nossa impotência e dependência do planeta. o fundamento da consciência ecológica é o humanismo"

7 de março de 2009

cleptoparasita sinantrópico













o cleptoparasitismo é o comportamento de aquisição de comida através do "roubo" de alimento de outro organismo.
talvez ser um cleptoparasito no meio de humanos possa ser divertido e refrescante.
inveja dessas gaivotas, gostaria de uma vida com sorvetes grátis e ainda conseguir voar com destreza...

via jet-point

1 de março de 2009

braquicéfalos de estimação

a grande diferença entre a seleção natural e artificial é que o homem serve como mediador no segundo caso. na prática significa que a seleção ganha um propósito, ao contrário da seleção natural que ocorre sem propósito algum.
o homem seleciona características que lhe sejam úteis ou agradáveis, de acordo com sua necessidade e vontade. isso ocorre desde o surgimento da domesticação de plantas e animais, o que nos remete a pouco mais de 10 mil anos atrás, época em que surge a agricultura e o homem deixa de ser nômade.

a domesticação permitiu o homem escolher características a fim de melhorar algum aspecto que lhe fosse interessante, como a produtividade, resistência ou sabor de uma planta ou animal, o comportamento caçador de cães, e assim por diante. em outras palavras, é uma forma primitiva do que atualmente conhecemos como melhoramento genético.

só que o maior problema dessa técnica é que muitas vezes a escolha de determinada característica significa a expressão de uma outra que pode ou não ser desejável, isso porque, em última instância, quando escolhemos um gene, ele pode expressar mais de uma característica, e essas características "colaterais" podem muitas vezes ser indesejáveis.

recentemente conheci o caso da raça faiting goat, esta é uma raça de cabra que ao tomar um susto, fica paralisado e cai devido a uma miotonia congênita, ou seja, o animal apresenta uma desordem genética que causa a tonificação muscular. veja o vídeo abaixo, e perceba que é uma expressão comportamental bem tosca, porém bem ilustrativa.



mas nem sempre essas características "colaterias" são divertidas.
animais muito mais familiares sofrem com nossa intervenção em suas proles. falo de gatos e cães. algumas raças têm modificações estruturais tão grandes que se tornam muito feios, apesar de alguém que ler este post provavelmente discorde.
o gato persa por exemplo, é um gato feio que dói, parece que caiu de cara no chão e ficou amassado, mas ele nasce daquele jeito mesmo e muita gente ainda acha bonito.
pug, outro bicho feio com o focinho achatado

não bastando, ele não é apenas feio, mas sofre. sofre como algumas outras raças de cães e gatos que têm braquicefalia.
a braquicefalia é basicamente a fusão prematura de alguns ossos do crânio, fazendo com que as estruturas da cabeça fiquem apertadas no crânio - é como se o cérebro fosse maior que o crânio. a braquicefalia faz o animal respirar mal, pois apresenta as vias respiratórias mais estreitas, podendo causar até inflamações crônicas na faringe. este tipo de anomalia seria muito ruim até para seres humanos, imagine para um animal que tem o olfato como um dos principais sentidos!

há diversas doenças ou anomalias congênitas que selecionamos sem ao menos saber, e com a melhor das intenções, e a lista é gigante. para gatos, este link pode ilustrar a vastidão de mazelas que podemos causar neles.

enfim, o homem é capaz de selecionar qualquer característica mas ainda não tem total controle sobre a natureza neste aspecto, podendo mandar para frente características indesejáveis, apesar de cada vez mais rumar a raças e variedades ideais devido ao grande avanço tecnológico em pesquisas genéticas.

17 de dezembro de 2008

medidas anti-engasgos

o japão é conhecido, entre outras coisas - pessoas bizarras, tecnologias do futuro, caça as baleias, dragon ball, etc. -, por apresentar uma expectativa de vida bastante elevada e com estrutura etária de muitos velhos na população. muitos velhos geralmente quer dizer uma dor de cabeça enorme no setor de saúde pública. mas a medicina preventiva é o melhor remédio.
estou dizendo isto pois outro dia no canal japonês nhk estava passando num programa uma série de exercícios para fortalecer a musculatura do pescoço. isto porque quando ficamos velhos essa musculatura, por ser pouco usada, fica enfraquecida, e então as pessoas ficam mais propensas a engasgarem com alimentos. e engasgar pode muitas vezes significar a morte.
pessoas que falam bastante podem ter essa musculatura naturalmente fortalecidas, mas pessoas que não falam tanto podem obter o benefício com os exercícios apresentados. basicamente consistem em esticar a língua abrindo a boca o máximo possível, depois, esticar a língua pros lados e assim por diante.
isso tudo não é pra remeter à idéia de presença de utilidades dentro da tela, mas pra lembrar de um fato evolutivo muito intrigante: o surgimento da fala.

nos outros mamíferos, nos quais a vocalização não é tão pronunciada como em nossa espécie, o sistema respiratório é completamente separado do sistema digestório, havendo ínfimas possibilidades de se engasgarem com o alimento devido a vocalização.


em caso de engasgos, nada como a manobra heimlich... - fonte

... que parece funcionar em outras espécies também. fonte

ter evoluído e consolidado um sistema de comunicação que põe em risco a própria vida só pode significar que a comunicação verbal é de extrema valia, em outras palavras, a fala é tão importante que vale a pena morrer por ela.

16 de dezembro de 2008

(ovo)²

há algum tempo atrás eu postei sobre um ovo que encontraram dentro de outro ovo.
prometi trazer uma resposta caso conseguisse.
pois bem, enviei um email pra minha professora de embriologia da graduação e ela só me respondeu essa semana.

na verdade o que ocorre é bem simples de entender.

ovo no ovo, mais fácil de entender do que parece. fonte

o processo de oviposição tem sentido único, sendo que ao passar pelo oviduto o ovo é "montado" de dentro pra fora, sendo a casca a última parte do ovo. portanto é muito estranho que haja dois ovos, um dentro de outro.
mas sistemas biológicos podem funcionar de forma imprevisível, principalmente em situações de estresse.
galinhas cativas geralmente ficam sob condições extremas de estresse crônico, e isso pode causar diversas anomalias no funcionamento de seu organismo e uma das possibilidades deste estresse é a inversão do peristaltismo que ocorre no oviduto.
caso o ovo já esteja formado e a inversão ocorra, o ovo poderá voltar e, portanto, passar duas vezes no oviduto, sendo "montado" novamente e dando origem ao ovo dentro do ovo.

25 de novembro de 2008

fome de pensamento

Homo sapiens,
esta é a nomenclatura científica de nossa singular espécie.
homem sapiente, em tradução literal

segundo a edição virtual do dicionário houaiss, sapiência tem sua etimologia no latim sapientìa,ae cujos significados ficam no entorno de: sabor, bom paladar; aptidão, habilidade, capacidade, instrução; razão, bom senso; sabedoria, prudência, siso, tino; moderação, indulgência, benignidade
os sinônimos em português seriam: agnição, ciência, cognição, compreensão, conhecença, conhecimento, consciência, cultivo, cultura, domínio, educação, entendimento, erudição, escola, estudo, experiência, gnose, ilustração, informação, instrução, lume, lustração, luz, noção, notícia, percepção, proficiência, razão, sabedoria, sabença, saber.

todos estes termos sugerem a idéia do pensar.
pensar provavelmente tenha grande valor adaptativo. quem pensa (seja o homem ou qualquer outro animal), consegue enxergar estratégias que podem lhe salvar a vida. mas não precisamos imaginar um caso extremo em que a vida esteja em jogo para perceber as grandes vantagens de se pensar.

restringindo esta idéia ao ser humano - pois é apenas esta perspectiva que tenho - poderíamos dizer que boa parte do nosso comportamento está atrelada ao pensamento, mesmo fazendo muitas outras coisas intuitivamente.

evoluímos de forma a priorizar o intelecto.
ao analisarmos nossa história evolutiva, a partir do momento em que deixamos de ser nômades, pudemos investir na imobilidade. domesticamos espécies de plantas e animais para obtermos isto.
na imobilidade há uma implicação interessantíssima: tornamos o ambiente ao nosso redor mais previsível, nos aproveitando dos ciclos naturais de produtividade de animais e plantas.

milênios mais tarde somos capazes de nos concentrar em atividades puramente intelectuais.
no ocidente temos pelo menos dois pontos altos da intelectualidade, na antiguidade e no iluminismo.
e o mais interessante disto, biologicamente, é que há um grande custo energético em se pensar, e isto é muito fácil de constatar, basta v. estudar um pouco, tentar resolver problemas durante uma manhã inteira e perceberá como isso dá uma fome grandiosa.

evoluímos de forma a pensar, por isso, usar a cabeça as vezes é bom.

9 de novembro de 2008

retomada

aos poucos vou retomar este blógue.
estive meio por fora das coisas, acho que por simples relaxo mesmo.
pra recomeçar, algo bem leve.

dizem que isso é um ovo dentro de outro.
foi encontrado num colégio japonês, em shiga.
a princípio era apenas um ovo anormalmente grande, mas ao quebrarem sua casca, havia outro ovo dentro!
um ovo com duas gemas é mais comum.
mas formar casca, dentro de outra?
mesmo que seja muito efeito de hormônio e que talvez devessemos realmente nos preocupar com o que consumimos, qual o princípio biológico por trás deste processo?

não me lembro direito das aulas de embriologia de galinha.

vou continuar este post mais tarde, depois de consultar o velho gilbert.

aguardem

visto aqui

10 de outubro de 2008

ah! a arte

não acho que a linguagem, a criação da tecnologia ou mesmo a auto-consciência seja original do homem, há diversos tipos de gradações que podemos encontrar nos outros animais, apesar disso nenhuma espécie é tão plástica como a do homem.
talvez a arte seja a expressão humana mais legítima, em todo reino animal.
a expressão através das impressões, como ocorre em quase tudo no homem. a objetividade através da subjetividade.

a arte provavelmente já teve sua importância biológica em nossa espécie. há especulações de que se não fosse pelo surgimento da pintura, informações de grande relevância como a indicação de recursos alimentares, água, abrigo, etc, não teríamos sobrevivido à diáspora que dispersou o homem pela superfície deste planeta, permitindo nossa saída do berço da humanidade: a áfrica.
a informação visual é de tamanha relevância que mesmo hoje as utilizamos como placas, sinais e outras marcas informativas, seja no trânsito, seja pra não pisar na grama, ou pra não se sentar na escada rolante.

mas seria um erro reduzir a arte apenas as artes visuais.

a música! a música é dentre as artes, a minha preferida.
a música, assim como muitas outras características de nossa espécie surge de ritos sociais. ritos, estes, que reproduzimos ainda hoje, como as refeições à mesa junto com familiares, cerimônias fúnebres ou festas, onipresentes em todas as culturas, provavelmente desde que deixamos de ser nômades e pudemos contar com a sazonalidade.
a arte, é antes de mais nada uma forma de comunicação. e a comunicação sempre foi fator importante na coesão social, independentemente da espécie.por sermos uma espécie altamente social, essa sociabilidade se faz indispensável.
e o que fazemos até os dias de hoje é nos identificar com outras pessoas que tenham interesses semelhantes e são de certa forma exercícios de diplomacia que praticamos.

hoje, o que caracterizou os laços sociais acabaram sendo individualizados, como tantas outras coisas; talvez tenha sido culpa do século xx, onde a subversão foi mais gloriosa do que nunca fora em nossa história.
o surgimento das vanguardas modernistas ilustra isso muito bem, em quaisquer artes que virmos, seja na música, na pintura, na literatura, no cinema, continuamos a querer inovar ad infinitum. chegando até a ser exaustivo.

é claro que com o advento da linguagem e de outras capacidades neurais que aumentam a capacidade simbólica de nosso cérebro, somos capazes de criar muito mais coisas do que já foi imaginado na natureza. e indiscutivelmente acabamos por utilizar esta capacidade em todas as outras coisas como a tecnologia e a própria linguagem.

hoje a tecnologia claramente não se reduz simplesmente a ferramentas (de caça), mas ocorre em todos os âmbitos da atividade humana.
uma frase que ouvi recentemente numa aula de música foi: "a criatividade vem da necessidade", o professor se referia a músca, mas consigo fazer paralelos em praticamente tudo. do surgimento da ferramenta, passando pelas inovações artísticas que ocorrem de tempos em tempos, ou mesmo ideologias políticas que se renovam.

o homem necessita se reformular toda vez, apenas variando o tema. sempre.

a arte já passou pela auto promoção, a auto negação, e hoje é praticamente um misto amorfo de idéias, das quais inevitavelmente surgem coisas boas assim como ruins, e que serão referência para o futuro, seja lá o que vier.

alguns dizem que a arte está na intenção do artista, mas há artistas que dizem que a arte está na percepção da pessoa que aprecia a obra.
enfim, as definições são de menos.
apenas a aprecie/interaja/etc.

agende-se: mostra sesc de artes, 08 a 18 de outubro, nas unidades do sesc
pianos de rua, em oito pontos da cidade de são paulo, para qualquer um sentar e tocar.