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20 de fevereiro de 2010

doméstico, pero no mucho

espécies domesticadas geralmente têm alguma característica inata de interesse para o homem (desenvolvida através dos tempos pela seleção natural) que é posteriormente aperfeiçoada para maior desempenho pela seleção artificial juntamente com a amenização de aspectos selvagens por meio da domesticação
por estas características são relativamente poucas as espécies domesticáveis, já que nem todos suportam nossa presença e atividade (se bem que os misantropos também não lidam bem com isso... tudo leva a crer que as espécies não-sinantrópicas também sejam misantropas, haha), já que algumas espécies são mais tolerantes que outras  sejam espécies vegetais, animais ou pertencentes a quaisquer outros reinos taxonômicos.
os animais domesticados se destacam geralmente por características como produção de alimento (carnes e leites), vestimentas e afins (lãs e peles) e auxílio em atividade humanas (pastoreio, pesca, caça, transporte, carga, etc), acompanhando o homem desde que ele aprendeu a domesticar os vegetais (que culminou na agricultura há cerca de 10 mil anos). 
desde então o homem expandiu sua ocupação geográfica, assim como aumentou vertiginosamente sua população (assim como a dos animais que levava consigo), aumentando as demandas de recursos naturais como consequência.
no leque de animais domésticos, um que se destaca exatamente por apresentar virtualmente nenhuma dessas principais característica que interessam ao homem, está aquele que descende dos predadores mais elegantes da natureza: os gatos.


raças clássicas de gato, apesar de tudo, a diferença entre eles surgiu recentemente(fonte)

a origem destes animais como pet não é muito clara. 
a evidência aqueológica mais antiga (datada em 9.500 anos de idade), é de um corpo enterrado com um gato, descoberto em 2004, no chipre. até então, era comum a afirmação de que a domesticação do felino tivesse ocorrido no egito antigo, há apenas 3.500 anos.
gato no chipre há 9.500 anos atrás (circulado): provavelmente vieram do oriente médio.¹ 

apesar do gato mais velho já encontrado ser do chipre, é sabido que o gato selvagem do oriente médio (Felis silvestris lybica), o ancestral direto dos gatos domésticos atuais, não ocorre naquela ilha. sua distribuição original se situa na parte continental entre o norte da áfrica e a ásia menor, permitindo a inferência de que estes animais tenham sido levado pelo homem a partir do oriente médio.
é interessante lembrar que o oriente médio, mais especificamente o crescente fértil é o berço de um dos mais velhos (e mais intensamente manejados) sistemas agrícolas. traçando o paralelo entre a agricultura e a distribuição original do gato doméstico percebemos que ambos coexistem no espaço e tempo.
desta forma, percebemos o nicho marginal que o gato apresentou no processo de domesticação e sua inserção nas sociedades humanas: aqueles indivíduos que nos toleravam, podia aproveitar as sobras alimentares que a expansão das primeiras cidades provia, além dos pequenos animais (principalmente roedores) que eram atraídos pela estocagem de produtos agrícolas.
por este processo, o gato foi aos poucos aceitando o homem (e não o contrário, como poderíamos supor), tolerando o convívio nada fácil conosco, colonizando novos hábitats graças a atividade antrópica.
o gato é um animal explorador e, como qualquer outro animal, vai em busca de ambientes favoráveis, locais estes que apresentem condições mínimas de abrigo, água e alimento. atualmente, estas condições são satisfeitas virtualmente em todos os lugares que o homem habite. a capacidade de exploração é bastante notável, bem ilustrado no caso de sandy, o gato inglês que foi encontrado num navio em bilbao, na espanha.




tira de paulo kielwagen, lencinho umedecido é o escambau!


a expansão biogeográfica dos gatos domésticos está intrinsecamente relacionado à história do próprio homem, apesar de não ser claro a partir de que momento conseguimos domesticá-lo de verdade, sabemos com certeza que eles nos acompanham pelo menos desde o egito antigo (há 2900 anos a deusa Bastet é personificada na forma de um gato, sendo considerado um dos aspectos mais claros da domesticação do gato pelo homem). porém, a ocupação geográfica do gato doméstico sofreu um verdadeiro boom com a expansão do império romano, assim como das diversas rotas comerciais que surgiam, influenciando diversas culturas humanas ao longo de toda história e registrados extensivamente em forma de estatuetas e pinturas. estima-se que atualmente cerca de 600 milhões de gatos vivam conosco como animal de estimação.
porém, mesmo depois de tanto tempo de domesticação, o gato ainda é um animal um tanto "menos doméstico" do que aqueles que assim denominamos, devido principalmente à ausência de pressões de seleção que exercemos sobre eles, já que, como dito, não apresentam virtualmente nenhuma "utilidade" explícita para o homem, sendo acolhido mais pela aparência que por outro aspecto. 
eles são tão cuti-cuti!!

devido a isso, o gato não apresenta tão discrepantes diferenças de tamanho, forma e temperamento (em comparação com outros animais domésticos). para agravar, os intercruzamentos de variedades domésticas ferais e selvagens ocorre com certa frequência, mantendo obscuro o limite entre populações distintas.
as pressões seletivas humanas mais relevantes em relação às raças de gato ocorreram bem mais recentemente, lá pelos idos do século XIX (e todos com ênfase na aparência deste belo predador), e, hoje, com os avanços zootécnicos, os gatos estão num estágio totalmente novo de sua domesticação: a hibridização com espécies selvagens, gerando variedades de formas, tamanhos e manchas totalmente novas em gatos. (como exemplo veja o link da foto abaixo)
gato x serval, uma bela mistura denominada savannah cat ("gato da savana", em tradução livre) (fonte)


Fonte consultada:
¹Driscoll CA, Clutton-Brock J, Kitchener AC, O'Brien SJ. The taming of the cat. Scientific American June 2009.

21 de outubro de 2009

pela biodiversidade alimentar e cultural

ainda na pegada da questão alimentar...

o cultivo de determinado alimento está intrinscecamente ligado ao conhecimento agrícola de manejo deste produto. porém, atualmente o que vemos por aí é a homogeneização da diversidade local de variedades alimentares. quantos vegetais vêm a mente quando v. pensa em comida? provavelmente te ocorra alguns grãos como milho, trigo, arroz, feijão, umas dez a quinze frutas, mais algumas folhas, castanhas/nozes e só... e bem provavelmente, v. ingira menos de 50 variedades de plantas no seu dia a dia.
por todo o mundo, os produtos menos difundidos culturalmente acabam extinguindo por simples desinteresse comercial e portanto há uma homogeneização na alimentação em detrimento da diversidade cultural e biológica. em países megadiversos como o brasil, este cenário é ainda mais doloroso, pois a porcentagem de cultivares que perdemos é enorme, e isso é resultante de todo o processo tecnológico já discutido no post anterior, associado aos interesses comerciais.
os fitopatógenos que se expressam devido à perda de diversidade e alta densidade demográfica chegam a forçar a migração de cultivos inteiros. a banana maçã, por exemplo, não é cultivada no estado de são paulo pois aqui esta variedade é susceptível a um fungo que "empedra" a parte comestível da banana. essa cultura sofreu um processo de migração e hoje é plantada do espírito santo pra cima.
o mamão também sofreu esse processo, vítima de um vírus causador do mosaico nessa planta. disto surgem até soluções como o emprego formal de mosaiqueiros, que são pessoas especializadas a identificar indivíduos afetados por este patógeno e são autorizados a cortar e queimar para que se evite a propagação da doença.
ambos cultivares são importados de outros estados, um dos motivos pelo qual o alimento está cada vez mais caro em são paulo.

nesse cenário, uma iniciativa que me chama a atenção, seja pelo aspecto biológico como gastronômico-comercial é a da fundação slow food para a biodiversidade (link para o site brasileiro e internacional).

esta é uma organização que
Foi fundada em 1989 como resposta aos efeitos padronizantes do fast food; ao ritmo frenético da vida atual; ao desaparecimento das tradições culinárias regionais; ao decrescente interesse das pessoas na sua alimentação, na procedência e sabor dos alimentos e em como nossa escolha alimentar pode afetar o mundo.
 dentro desta fundação há o projeto arca do gosto:
Arca do Gosto é um catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e divulga sabores quase esquecidos de produtos ameaçados de extinção, mas ainda vivos, com potenciais produtivos e comerciais reais. O objetivo é documentar produtos gastronômicos especiais, que estão em risco de desaparecer. Desde o início da iniciativa em 1996, mais de 750 produtos de dezenas de países foram integrados à Arca. Este catálogo constitui um recurso para todos os interessados em recuperar raças autóctones e aprender a verdadeira riqueza de alimentos que a terra oferece.
a iniciativa mantém alguns alimentos (incorporados à cultura brasileira ou nativos) a salvo da extinção.
a arca ainda contém apenas 9 cultivares diferentes na versão tupiniquim, mas se mostra uma iniciativa notável muito boa para a agrobiodiversidade e para nossos estômagos.


arroz do pantanal, o próximo candidato à arca. foto

texto inspirado pelo blógue come-se

17 de outubro de 2009

comida é pasto

quando pensamos no sistema de produção e distribuição do alimento, raramente vemos pela perspectiva ecológica [como "ecológica" entendo a interrelação das partes vivas com as não-vivas, assim como de cada parte consigo mesma; tudo resultante de uma história evolutiva]. aqui tentarei fazer algumas considerações interessantes sobre o assunto.

pra começar, a alimentação e a reprodução são, ao meu ver, os dois aspectos mais cruciais da vida. com a reprodução elevamos a probabilidade de manter os genes na população mesmo daqui a várias gerações - afetando o conjunto de genes dessa população (pool genético) -, mantendo ou mesmo elevando o que chamamos de fitness. e com a alimentação obtemos energia para nos manter vivos, aumentando a probabilidade de ter um sucesso reprodutivo.

acho que o modo mais claro para entender o sistema atual de produção alimentar é a partir da a evolução do próprio homem, e assim perceber como chegamos ao ponto em que estamos, e mais que isso, perceber o que estamos fazendo e para onde este modo de vida está nos levando.

o gênero Homo e o H. sapiens
pertencemos a espécie Homo sapiens, que ironicamente significa homem sapiente. se analisarmos os nossos ancestrais humanos (Homo ssp), veremos que apesar de sermos os únicos humanos atuais, outros já vagaram pela superfície do planeta.

o gênero Homo, da família Hominidae, surge há cerca de 2,5 milhões de anos, no sul e leste da áfrica. o homem sempre ocupou nichos marginais da savana africana, desenvolvendo adaptações fisiológicas, anatômicas e sociais interessantes. pelos registros fósseis se observam diversas aquisições evolutivas até o surgimento de nossa querida espécie, dentre elas podemos destacar o bipedalismo [acho o termo mais apropriado que bipedia, pois bípede só quer dizer que o bicho fica sobre duas patas, já o bipedalismo dá a idéia da locomoção por meio da alternância das pernas]. esta mudança permite ao homem abandonar o hábito arborícola e utilizar as mãos para fazer movimentos manuais finos. por toda a linhagem humana, verifica-se um gradativo aumento do volume encefálico, isto é, crescente volume do cérebro. este aumento está intimamente ligado com o aumento da capacidade cognitivo-simbólica [que originam fala, escrita, gramática, artes, religião, dentre tantas outras coisas demasiado humanas], ocorrido no paleolítico superior (num período entre 60 mil e 10 mil anos atrás conhecido como período da revolução cultural).


liberdade das mãos para manipulação de ferramentas e armas
dawn of man - cena de 2001: uma odisséia no espaço, de stanley kubrick


a alvorada do homem, apesar de toda essa história evolutiva não tem um cenário muito animador, éramos apenas uma espécie de primatas nômades no meio do semi-árido africano, motivo pelo qual somos generalistas-oportunistas e onívoros, sendo indefesos isoladamente apesar de um poder virtualmente infinito quando em grupo. antes da grande diáspora humana (de saída do continente africano), o homem é quase extinto, se não fosse sua capacidade de representação gráfica para indicar a localização de recursos.

a capacidade de habilidades manuais finas permite o desenvolvimento da tecnologia, principalmente de caça e de guerra. armas são forjadas pela primeira vez a partir de pedras lascadas (na famigerada Idade da Pedra), nos dando uma perspectiva fértil na obtenção de alimento e território. outras habilidades do homem são bem generalistas: não corre muito rápido, não é muito grande, não nada grandes distâncias, não sabe voar, não escala muito, mas é bastante resistente em atividades moderadas de longa duração. a utilização desta habilidade se torna a principal estratégia para caça, permitindo ao homem vencer uma caça pelo cansaço (ao contrário da estratégia de atacar uma presa com o fator surpresa e matar com relativa rapidez, comum em diversos predadores).

a carne de caça tem um significado único, não apenas visceral (biológico), mas a partir do desenvolvimento cognitivo já mencionado, adquire um valor simbólico afetando toda estrutura social e política do homem. o retorno dos caçadores obviamente é comemorado com festa e muita carne, ritual semelhante que ainda ocorre entre humanos. um domínio tecnológico paralelo a tudo isso é o do fogo, que permite a existência da culinária, associando a carne caçada pelos machos com elementos vegetais coletados pelas fêmeas do bando.

revoluções agrícola, industrial e verde
entre dez e cinco mil anos atrás ocorre a revolução agrícola do neolítico em diversos locais independentemente, como meio de controlar os recursos alimentares necessários as sociedades humanas. esta é uma agricultura rudimentar, na qual as espécies escolhidas, tanto de plantas como de animais, são apenas incorporadas na sociedade humana, de forma a se ter fácil acesso ao alimento. desta forma, o homem deixa, pela primeira vez, de ser nômade, fixando-se em rudimentos de cidades, baseados no núcleo familiar. a domesticação de ruminantes é o passo crucial para a consolidação tecnológica que precede a expansão agrícola. a domesticação propriamente dita, ocorre posteriormente, quando os recursos agropastoris passam a sofrer intenso manejo para a produção de alimento e não apenas agregados à sociedade para controle de recursos.

se observarmos por esta perspectiva evolutiva, percebemos mais facilmente que as mudanças ocorridas nos últimos 2 milhões de anos, faz do sistema de obtenção de alimento, um fator decisivo no desenvolvimento populacional da espécie humana.

conforme o tempo passa o homem se torna o animal que conhecemos e, desta forma, podemos traçar um elo do alimento com várias dimensões da existência humana: biológica, econômica (relação de trocas), sócio-política (estratificação e divisão do trabalho e concentração de poder), cultural e também ambiental (através da modificação de paisagens inteiras).

a desestruturação social da perda do núcleo familiar [ouso dizer que a partir do renascimento], faz com que encaremos um dilema evolutivo do que somos com o que nos tornamos culturalmente. mas é somente a partir da revolução industrial que o sistema produtivo adquire novas feições, alterando completamente a estrutura social do homem. a agricultura de comodities passa a ser expressiva, principalmente os alimentos estimulantes como chás, cafés, açúcar e chocolate, servindo como a base alimentar para a dependência químico-tecnológica da sociedade.

a revolução industrial introduziu também a monocultura para produção em larga escala de alimento para suprimir as necessidades alimentares das populações industriais, cada vez mais crescentes e pela primeira vez as paisagens se tornam domesticadas. o grande impacto de monoculturas, assim como de qualquer homogeneização da biodiversidade, é que, dentre outras coisas, os seres que constituem o sistema passam a ser mais susceptíveis a doenças, pelo fato de haver uma condição demográfica que favorece a livre circulação de patógenos, tornando-os mais nocivos do que num sistema com maior diversidade. isso podemos ver não apenas na agricultura, como também em cidades, nos quais os indivíduos de uma população ficam muito mais próximos, gerando também uma infinidade de fatores estressantes. os fatores estressantes nos grandes centros urbanos são causas de violência e doenças crônicas, afetando enormemente a qualidade de vida dos indivíduos que o constituem.


substâncias químicas eram ameaças constantes na segunda guerra.
porteriormente se tornou ameaça constante na alimentação. foto

a resposta para diversas patologias, na produção de alimentos, veio com a Revolução Verde. esta revolução ocorre no período pós-guerra, com diversos avanços nos estudos de substâncias químicas ocorridas durante a guerra provenientes de pesquisas que foram feitas principalmente com o fim de se produzir armas químicas. essas substâncias são o que conhecemos atualmente como agrotóxicos, e estão sendo progressivamente evitados pelas pessoas conforme se conhece os efeitos nocivos tanto de toxicidade humana (carcinogenia, doenças neurodegenerativas) como de ecotoxicidade (que em última análise causam a toxicidade humana).

o último salto tecnológico que percebo nessa linhagem é o surgimento de transgênicos da engenharia genética por meio do DNA recombinante. porém ao contrário dos passos anteriores, este não visa primariamente o aumento da produtividade para a segurança alimentar, mas para fins nitidamente mercadológicos a produção de plantas resistentes a patógenos e pragas.  esta tecnologia é uma faca de dois gumes e atualmente há diversas plantas modificadas geneticamente que ajudam o produtor a ter maior produtividade, ao passo que há empresas detentoras de patentes de organismos geneticamente modificados (OGMs) que praticamente escravizam os pequenos produtores, juntamente a isso, a segurança biológica é questionável, tanto para a saúde humana como para o meio ambiente.

o discurso da segurança alimentar é uma grande farsa em países não miseráveis, o brasil é um exemplo crasso e assim como uma das piores distribuições de renda do planeta, a distribuição de recursos alimentares também é bem tosca. boa parte da produção de alimento é perdido na colheita, estocagem, transporte, doenças/'pragas' e outros processos que existem entre o produtor e o consumidor final.

outros problemas ecológicos existem para a segurança alimentar, necessitando manejo cada vez mais intenso e minucioso. é necessário se preocupar com os lençóis freáticos, cada vez mais contaminados com fertilizantes, biocidas e tantos outros químicos ainda usados amplamente em países em desenvolvimento; além disso, o manejo adequado do solo e de serviços ecossistêmicos como a qualidade do ar, da água e da vegetação são cruciais para que se mantenha o mínimo de qualidade de vida do homem.

algumas opções atuais me parecem bem plausíveis na produção de alimento para o homem, indo da permacultura à agricultura de precisão, passando pelo agroflorestamento.
a permacultura é uma idéia bem natureba, mantém a diversidade local sendo uma ótima opção para pequenas produções, produzindo e distribuindo localmente recursos de forma pouco impactante aproveitando as condições ambientais que um determinado local oferece. com custo baixo, e disponibilidade de recursos para subsistência.
a agricultura de precisão, é o extremo oposto, com monoculturas extremamente mecanizadas, com a aplicação de tecnologia de ponta (i.e. de alto custo) como colheitadeiras munidos de gps e outros quitutes que permitem aproveitar ao máximo a produtividade de um determinado local, considerando todos os recursos e manejando-os de forma a não estragar o solo, fertilidade, água, etc.
já o agroflorestamento eu desconheço o quanto é aplicado. a idéia básica dele é intercalar linhas de cultivo com árvores, associando os benefícios que os dois tipos de cultura podem proporcionar.

o paradoxo que surge é que a demanda por alimento é óbviamente grande, mas a produção é ainda maior e mesmo assim muita gente passa fome. grandes extensões de terra para o plantio de commodities além da perda da diversidade cultural e biológica parecem estar nos guiando a um beco sem saída. nesse cenário de miséria geral e tecnologia e conhecimento para se dizimar tantas desigualdades a pergunta talvez seja: até quando o homem vai patrocinar a fome do outro? a ausência desse questionamento por parte de quem só ganha nesse jogo é simplesmente desanimador.


comida é um luxo, foto

para onde este sistema de produção está nos levando ainda não está muito claro, mas não precisa ser um gênio para perceber que a humanidade como um todo não anda muito bem das pernas, mas as consequências disso (não apenas ambientais, mas socio-político-economica) começam a se revelar aos poucos. a ocupação do homem no uso da terra é crítico para a manutenção da qualidade de vida, mas é necessário muito mais planejamento e administração por parte dos governos, e maior crítica e exigência por parte das pessoas com algum acesso às informações. esta provavelmente seja a maior contribuição que podemos fazer como cidadãos.

este texto é resultado da reflexão suscitada por aulas de botânica econômica, de biologia evolutiva do homem e de antropologia.

14 de outubro de 2009

grow to go

um incentivo à agricultura orgânica de subsistência

sou um simpatizante da agricultura orgânica de subsistência.
não por ser mais correto ou qualquer bla-bla-bla utilizado no marketing verde atual.
a verdade é que a qualidade do alimento é bem diferente.
sempre gostei de pegar frutas no sítio da minha vó, comer alimentos frescos e coisas do tipo.
e gosto também de usar os temperos que planto no quintal, apesar de estar seriamente em falta com as cebolinhas e os manjericões, mas isso é outra história.

me empolgo com algumas idéias que vejo, principalmente nos blógues de design, de incentivar as pessoas para que plantem algumas coisas que consomem na própria casa, mesmo que apenas parcialmente. gosto de achar que é um pouco da volta de valores domésticos/familiares do qual fomos progressivamente afastados nos últimos séculos (a partir do renascimento, e que está acelerando continuamente desde a Revolução Industrial).
é um pouco da sensatez ao repensar os hábitos a partir das informações a que temos acesso.

o estudio austríaco de design bradedescalope pegou diversos conceitos de fast food e contruiu um tipo de loja de conveniencia em que v. compra semente de plantas, no vienna design week '09. dentre outras coisas, transformaram as embalagens em substratos prontos para o plantio de diversos tipos de alimentos. a embalagem que lembra as embalagens de hamburguer feitas de isopor são na verdade feitos de arroz e é degradado servindo também como adubo.

então é assim: v. entra numa loja com parência de fast food, sai com pacotes que remetem a fast food mas na verdade é tudo fachada pra v. levar pra casa material pra cultivo (semente+substrato) de coisas que v. poderá colher e comer... tudo prontinho, como um fast food, mas sem ser.

a idéia é ótima, e já que as pessoas não tomam vergonha na cara pra comprar pacotinhos de sementes a menos de R$0,50 em qualquer loja que venda plantas além de alguns quilos de terra por uns cinco reais, acho que isso é uma iniciativa válida.
afinal, se o marketing ensina algo é que podemos manipular o comportamento alheio a fim de vender algum produto, dando uma roupagem atrativa a ele.
apesar disso, acho que uma idéia desse tipo não cole no Brasil, pelo menos não tão cedo... sendo otimista, quem sabe daqui a algumas décadas. (quando os gringos já estiverem avançando sobre outras idéias)

e viva as facilidades modernas!

via design boom

18 de março de 2009

viva o homem!

o homem criou algumas coisas fantásticas em sua curta história (nem um milhão de anos) e, em minha opinião, as três coisas mais fascinantes do homem são a domesticação, a arte e a tecnologia.

a primeira remete à compreensão da natureza. de entender como ela se comporta e a partir disso, acumular informações para obter sucesso em criar variedades de seres com as características que almejamos, no caso o cão (border collie) e a ovelha.

a segunda, é o ápice da capacidade simbólica. é como uma consequencia da comunicação, que derivou e expandiu seu potencial simbólico, permitindo a representação não apenas mental mas fisicamente também.

e o último é a capacidade de criar, modificar e aperfeiçoar ferramentas que não têm utilidade imediata no sentido de aumentar o sucesso biológicoG da espécie.

juntando tudo isso - até agora não sei se isso é montagem, mas parece ser de verdade - podemos ter uma boa propaganda:


G sucesso biológico refere-se ao fitness, que indica a probabilidade de um determinado genótipo estar presente na população mundial (pool genético) daqui a várias gerações.

via point of view

1 de março de 2009

braquicéfalos de estimação

a grande diferença entre a seleção natural e artificial é que o homem serve como mediador no segundo caso. na prática significa que a seleção ganha um propósito, ao contrário da seleção natural que ocorre sem propósito algum.
o homem seleciona características que lhe sejam úteis ou agradáveis, de acordo com sua necessidade e vontade. isso ocorre desde o surgimento da domesticação de plantas e animais, o que nos remete a pouco mais de 10 mil anos atrás, época em que surge a agricultura e o homem deixa de ser nômade.

a domesticação permitiu o homem escolher características a fim de melhorar algum aspecto que lhe fosse interessante, como a produtividade, resistência ou sabor de uma planta ou animal, o comportamento caçador de cães, e assim por diante. em outras palavras, é uma forma primitiva do que atualmente conhecemos como melhoramento genético.

só que o maior problema dessa técnica é que muitas vezes a escolha de determinada característica significa a expressão de uma outra que pode ou não ser desejável, isso porque, em última instância, quando escolhemos um gene, ele pode expressar mais de uma característica, e essas características "colaterais" podem muitas vezes ser indesejáveis.

recentemente conheci o caso da raça faiting goat, esta é uma raça de cabra que ao tomar um susto, fica paralisado e cai devido a uma miotonia congênita, ou seja, o animal apresenta uma desordem genética que causa a tonificação muscular. veja o vídeo abaixo, e perceba que é uma expressão comportamental bem tosca, porém bem ilustrativa.



mas nem sempre essas características "colaterias" são divertidas.
animais muito mais familiares sofrem com nossa intervenção em suas proles. falo de gatos e cães. algumas raças têm modificações estruturais tão grandes que se tornam muito feios, apesar de alguém que ler este post provavelmente discorde.
o gato persa por exemplo, é um gato feio que dói, parece que caiu de cara no chão e ficou amassado, mas ele nasce daquele jeito mesmo e muita gente ainda acha bonito.
pug, outro bicho feio com o focinho achatado

não bastando, ele não é apenas feio, mas sofre. sofre como algumas outras raças de cães e gatos que têm braquicefalia.
a braquicefalia é basicamente a fusão prematura de alguns ossos do crânio, fazendo com que as estruturas da cabeça fiquem apertadas no crânio - é como se o cérebro fosse maior que o crânio. a braquicefalia faz o animal respirar mal, pois apresenta as vias respiratórias mais estreitas, podendo causar até inflamações crônicas na faringe. este tipo de anomalia seria muito ruim até para seres humanos, imagine para um animal que tem o olfato como um dos principais sentidos!

há diversas doenças ou anomalias congênitas que selecionamos sem ao menos saber, e com a melhor das intenções, e a lista é gigante. para gatos, este link pode ilustrar a vastidão de mazelas que podemos causar neles.

enfim, o homem é capaz de selecionar qualquer característica mas ainda não tem total controle sobre a natureza neste aspecto, podendo mandar para frente características indesejáveis, apesar de cada vez mais rumar a raças e variedades ideais devido ao grande avanço tecnológico em pesquisas genéticas.