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21 de outubro de 2009

pela biodiversidade alimentar e cultural

ainda na pegada da questão alimentar...

o cultivo de determinado alimento está intrinscecamente ligado ao conhecimento agrícola de manejo deste produto. porém, atualmente o que vemos por aí é a homogeneização da diversidade local de variedades alimentares. quantos vegetais vêm a mente quando v. pensa em comida? provavelmente te ocorra alguns grãos como milho, trigo, arroz, feijão, umas dez a quinze frutas, mais algumas folhas, castanhas/nozes e só... e bem provavelmente, v. ingira menos de 50 variedades de plantas no seu dia a dia.
por todo o mundo, os produtos menos difundidos culturalmente acabam extinguindo por simples desinteresse comercial e portanto há uma homogeneização na alimentação em detrimento da diversidade cultural e biológica. em países megadiversos como o brasil, este cenário é ainda mais doloroso, pois a porcentagem de cultivares que perdemos é enorme, e isso é resultante de todo o processo tecnológico já discutido no post anterior, associado aos interesses comerciais.
os fitopatógenos que se expressam devido à perda de diversidade e alta densidade demográfica chegam a forçar a migração de cultivos inteiros. a banana maçã, por exemplo, não é cultivada no estado de são paulo pois aqui esta variedade é susceptível a um fungo que "empedra" a parte comestível da banana. essa cultura sofreu um processo de migração e hoje é plantada do espírito santo pra cima.
o mamão também sofreu esse processo, vítima de um vírus causador do mosaico nessa planta. disto surgem até soluções como o emprego formal de mosaiqueiros, que são pessoas especializadas a identificar indivíduos afetados por este patógeno e são autorizados a cortar e queimar para que se evite a propagação da doença.
ambos cultivares são importados de outros estados, um dos motivos pelo qual o alimento está cada vez mais caro em são paulo.

nesse cenário, uma iniciativa que me chama a atenção, seja pelo aspecto biológico como gastronômico-comercial é a da fundação slow food para a biodiversidade (link para o site brasileiro e internacional).

esta é uma organização que
Foi fundada em 1989 como resposta aos efeitos padronizantes do fast food; ao ritmo frenético da vida atual; ao desaparecimento das tradições culinárias regionais; ao decrescente interesse das pessoas na sua alimentação, na procedência e sabor dos alimentos e em como nossa escolha alimentar pode afetar o mundo.
 dentro desta fundação há o projeto arca do gosto:
Arca do Gosto é um catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e divulga sabores quase esquecidos de produtos ameaçados de extinção, mas ainda vivos, com potenciais produtivos e comerciais reais. O objetivo é documentar produtos gastronômicos especiais, que estão em risco de desaparecer. Desde o início da iniciativa em 1996, mais de 750 produtos de dezenas de países foram integrados à Arca. Este catálogo constitui um recurso para todos os interessados em recuperar raças autóctones e aprender a verdadeira riqueza de alimentos que a terra oferece.
a iniciativa mantém alguns alimentos (incorporados à cultura brasileira ou nativos) a salvo da extinção.
a arca ainda contém apenas 9 cultivares diferentes na versão tupiniquim, mas se mostra uma iniciativa notável muito boa para a agrobiodiversidade e para nossos estômagos.


arroz do pantanal, o próximo candidato à arca. foto

texto inspirado pelo blógue come-se

17 de outubro de 2009

comida é pasto

quando pensamos no sistema de produção e distribuição do alimento, raramente vemos pela perspectiva ecológica [como "ecológica" entendo a interrelação das partes vivas com as não-vivas, assim como de cada parte consigo mesma; tudo resultante de uma história evolutiva]. aqui tentarei fazer algumas considerações interessantes sobre o assunto.

pra começar, a alimentação e a reprodução são, ao meu ver, os dois aspectos mais cruciais da vida. com a reprodução elevamos a probabilidade de manter os genes na população mesmo daqui a várias gerações - afetando o conjunto de genes dessa população (pool genético) -, mantendo ou mesmo elevando o que chamamos de fitness. e com a alimentação obtemos energia para nos manter vivos, aumentando a probabilidade de ter um sucesso reprodutivo.

acho que o modo mais claro para entender o sistema atual de produção alimentar é a partir da a evolução do próprio homem, e assim perceber como chegamos ao ponto em que estamos, e mais que isso, perceber o que estamos fazendo e para onde este modo de vida está nos levando.

o gênero Homo e o H. sapiens
pertencemos a espécie Homo sapiens, que ironicamente significa homem sapiente. se analisarmos os nossos ancestrais humanos (Homo ssp), veremos que apesar de sermos os únicos humanos atuais, outros já vagaram pela superfície do planeta.

o gênero Homo, da família Hominidae, surge há cerca de 2,5 milhões de anos, no sul e leste da áfrica. o homem sempre ocupou nichos marginais da savana africana, desenvolvendo adaptações fisiológicas, anatômicas e sociais interessantes. pelos registros fósseis se observam diversas aquisições evolutivas até o surgimento de nossa querida espécie, dentre elas podemos destacar o bipedalismo [acho o termo mais apropriado que bipedia, pois bípede só quer dizer que o bicho fica sobre duas patas, já o bipedalismo dá a idéia da locomoção por meio da alternância das pernas]. esta mudança permite ao homem abandonar o hábito arborícola e utilizar as mãos para fazer movimentos manuais finos. por toda a linhagem humana, verifica-se um gradativo aumento do volume encefálico, isto é, crescente volume do cérebro. este aumento está intimamente ligado com o aumento da capacidade cognitivo-simbólica [que originam fala, escrita, gramática, artes, religião, dentre tantas outras coisas demasiado humanas], ocorrido no paleolítico superior (num período entre 60 mil e 10 mil anos atrás conhecido como período da revolução cultural).


liberdade das mãos para manipulação de ferramentas e armas
dawn of man - cena de 2001: uma odisséia no espaço, de stanley kubrick


a alvorada do homem, apesar de toda essa história evolutiva não tem um cenário muito animador, éramos apenas uma espécie de primatas nômades no meio do semi-árido africano, motivo pelo qual somos generalistas-oportunistas e onívoros, sendo indefesos isoladamente apesar de um poder virtualmente infinito quando em grupo. antes da grande diáspora humana (de saída do continente africano), o homem é quase extinto, se não fosse sua capacidade de representação gráfica para indicar a localização de recursos.

a capacidade de habilidades manuais finas permite o desenvolvimento da tecnologia, principalmente de caça e de guerra. armas são forjadas pela primeira vez a partir de pedras lascadas (na famigerada Idade da Pedra), nos dando uma perspectiva fértil na obtenção de alimento e território. outras habilidades do homem são bem generalistas: não corre muito rápido, não é muito grande, não nada grandes distâncias, não sabe voar, não escala muito, mas é bastante resistente em atividades moderadas de longa duração. a utilização desta habilidade se torna a principal estratégia para caça, permitindo ao homem vencer uma caça pelo cansaço (ao contrário da estratégia de atacar uma presa com o fator surpresa e matar com relativa rapidez, comum em diversos predadores).

a carne de caça tem um significado único, não apenas visceral (biológico), mas a partir do desenvolvimento cognitivo já mencionado, adquire um valor simbólico afetando toda estrutura social e política do homem. o retorno dos caçadores obviamente é comemorado com festa e muita carne, ritual semelhante que ainda ocorre entre humanos. um domínio tecnológico paralelo a tudo isso é o do fogo, que permite a existência da culinária, associando a carne caçada pelos machos com elementos vegetais coletados pelas fêmeas do bando.

revoluções agrícola, industrial e verde
entre dez e cinco mil anos atrás ocorre a revolução agrícola do neolítico em diversos locais independentemente, como meio de controlar os recursos alimentares necessários as sociedades humanas. esta é uma agricultura rudimentar, na qual as espécies escolhidas, tanto de plantas como de animais, são apenas incorporadas na sociedade humana, de forma a se ter fácil acesso ao alimento. desta forma, o homem deixa, pela primeira vez, de ser nômade, fixando-se em rudimentos de cidades, baseados no núcleo familiar. a domesticação de ruminantes é o passo crucial para a consolidação tecnológica que precede a expansão agrícola. a domesticação propriamente dita, ocorre posteriormente, quando os recursos agropastoris passam a sofrer intenso manejo para a produção de alimento e não apenas agregados à sociedade para controle de recursos.

se observarmos por esta perspectiva evolutiva, percebemos mais facilmente que as mudanças ocorridas nos últimos 2 milhões de anos, faz do sistema de obtenção de alimento, um fator decisivo no desenvolvimento populacional da espécie humana.

conforme o tempo passa o homem se torna o animal que conhecemos e, desta forma, podemos traçar um elo do alimento com várias dimensões da existência humana: biológica, econômica (relação de trocas), sócio-política (estratificação e divisão do trabalho e concentração de poder), cultural e também ambiental (através da modificação de paisagens inteiras).

a desestruturação social da perda do núcleo familiar [ouso dizer que a partir do renascimento], faz com que encaremos um dilema evolutivo do que somos com o que nos tornamos culturalmente. mas é somente a partir da revolução industrial que o sistema produtivo adquire novas feições, alterando completamente a estrutura social do homem. a agricultura de comodities passa a ser expressiva, principalmente os alimentos estimulantes como chás, cafés, açúcar e chocolate, servindo como a base alimentar para a dependência químico-tecnológica da sociedade.

a revolução industrial introduziu também a monocultura para produção em larga escala de alimento para suprimir as necessidades alimentares das populações industriais, cada vez mais crescentes e pela primeira vez as paisagens se tornam domesticadas. o grande impacto de monoculturas, assim como de qualquer homogeneização da biodiversidade, é que, dentre outras coisas, os seres que constituem o sistema passam a ser mais susceptíveis a doenças, pelo fato de haver uma condição demográfica que favorece a livre circulação de patógenos, tornando-os mais nocivos do que num sistema com maior diversidade. isso podemos ver não apenas na agricultura, como também em cidades, nos quais os indivíduos de uma população ficam muito mais próximos, gerando também uma infinidade de fatores estressantes. os fatores estressantes nos grandes centros urbanos são causas de violência e doenças crônicas, afetando enormemente a qualidade de vida dos indivíduos que o constituem.


substâncias químicas eram ameaças constantes na segunda guerra.
porteriormente se tornou ameaça constante na alimentação. foto

a resposta para diversas patologias, na produção de alimentos, veio com a Revolução Verde. esta revolução ocorre no período pós-guerra, com diversos avanços nos estudos de substâncias químicas ocorridas durante a guerra provenientes de pesquisas que foram feitas principalmente com o fim de se produzir armas químicas. essas substâncias são o que conhecemos atualmente como agrotóxicos, e estão sendo progressivamente evitados pelas pessoas conforme se conhece os efeitos nocivos tanto de toxicidade humana (carcinogenia, doenças neurodegenerativas) como de ecotoxicidade (que em última análise causam a toxicidade humana).

o último salto tecnológico que percebo nessa linhagem é o surgimento de transgênicos da engenharia genética por meio do DNA recombinante. porém ao contrário dos passos anteriores, este não visa primariamente o aumento da produtividade para a segurança alimentar, mas para fins nitidamente mercadológicos a produção de plantas resistentes a patógenos e pragas.  esta tecnologia é uma faca de dois gumes e atualmente há diversas plantas modificadas geneticamente que ajudam o produtor a ter maior produtividade, ao passo que há empresas detentoras de patentes de organismos geneticamente modificados (OGMs) que praticamente escravizam os pequenos produtores, juntamente a isso, a segurança biológica é questionável, tanto para a saúde humana como para o meio ambiente.

o discurso da segurança alimentar é uma grande farsa em países não miseráveis, o brasil é um exemplo crasso e assim como uma das piores distribuições de renda do planeta, a distribuição de recursos alimentares também é bem tosca. boa parte da produção de alimento é perdido na colheita, estocagem, transporte, doenças/'pragas' e outros processos que existem entre o produtor e o consumidor final.

outros problemas ecológicos existem para a segurança alimentar, necessitando manejo cada vez mais intenso e minucioso. é necessário se preocupar com os lençóis freáticos, cada vez mais contaminados com fertilizantes, biocidas e tantos outros químicos ainda usados amplamente em países em desenvolvimento; além disso, o manejo adequado do solo e de serviços ecossistêmicos como a qualidade do ar, da água e da vegetação são cruciais para que se mantenha o mínimo de qualidade de vida do homem.

algumas opções atuais me parecem bem plausíveis na produção de alimento para o homem, indo da permacultura à agricultura de precisão, passando pelo agroflorestamento.
a permacultura é uma idéia bem natureba, mantém a diversidade local sendo uma ótima opção para pequenas produções, produzindo e distribuindo localmente recursos de forma pouco impactante aproveitando as condições ambientais que um determinado local oferece. com custo baixo, e disponibilidade de recursos para subsistência.
a agricultura de precisão, é o extremo oposto, com monoculturas extremamente mecanizadas, com a aplicação de tecnologia de ponta (i.e. de alto custo) como colheitadeiras munidos de gps e outros quitutes que permitem aproveitar ao máximo a produtividade de um determinado local, considerando todos os recursos e manejando-os de forma a não estragar o solo, fertilidade, água, etc.
já o agroflorestamento eu desconheço o quanto é aplicado. a idéia básica dele é intercalar linhas de cultivo com árvores, associando os benefícios que os dois tipos de cultura podem proporcionar.

o paradoxo que surge é que a demanda por alimento é óbviamente grande, mas a produção é ainda maior e mesmo assim muita gente passa fome. grandes extensões de terra para o plantio de commodities além da perda da diversidade cultural e biológica parecem estar nos guiando a um beco sem saída. nesse cenário de miséria geral e tecnologia e conhecimento para se dizimar tantas desigualdades a pergunta talvez seja: até quando o homem vai patrocinar a fome do outro? a ausência desse questionamento por parte de quem só ganha nesse jogo é simplesmente desanimador.


comida é um luxo, foto

para onde este sistema de produção está nos levando ainda não está muito claro, mas não precisa ser um gênio para perceber que a humanidade como um todo não anda muito bem das pernas, mas as consequências disso (não apenas ambientais, mas socio-político-economica) começam a se revelar aos poucos. a ocupação do homem no uso da terra é crítico para a manutenção da qualidade de vida, mas é necessário muito mais planejamento e administração por parte dos governos, e maior crítica e exigência por parte das pessoas com algum acesso às informações. esta provavelmente seja a maior contribuição que podemos fazer como cidadãos.

este texto é resultado da reflexão suscitada por aulas de botânica econômica, de biologia evolutiva do homem e de antropologia.

17 de setembro de 2009

zoneamento agroecológico da cana

quinta-feira, dia 17 de setembro de 2009, foi lançado o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar (ZAE Cana) no Brasil. é uma iniciativa com muitos aspectos positivos, sim, mas nem por isso são apenas as mil maravilhas. aparentemente apresenta mais pontos positivos que negativos...

pra começar, eis o vídeo de lançamento do ZAE Cana:



o vídeo é lindo, isso é inegável: belas imagens, frases de impacto, uma musiquinha contínua, calma e com alguma identidade folclórica genuinamente brasileira...

então vamos ver... vou apontando alguns aspectos que achei relevante, tanto positiva como negativamente:

- a iniciativa é de entidades respeitadas que agiram sinergicamente como embrapa (empresa brasileira de pesquisa agropecuária), unicamp(universidade estadual de campinas), ibge (instituto brasileiro de geografia e estatística), cepagri (centro de pesquisas metereológicas e climáticas aplicadas a agricultura), conab (companhia nacional de abastecimento), inpe (instituto nacional de pesquisas espaciais), cprm (companhia de pesquisa de recursos minerais), além da participação dos ministérios do meio ambiente (MMA), de agricultura, pecuária e abastecimento (MAPA), de minas e energia (MME), ciência e tecnologia (MCT), do planejamento, orçamento e gestão, e da casa civil. o estudo foi detalhado abordando diversos aspectos, como as condições do solo e do clima de cada região, tudo tendo a cana como referencial.

- regulamenta políticas públicas para a ocupação de terras por plantações de cana-de-açúcar, delimitando seu cultivo apenas a áreas já degradadas pela agricultura intensiva ou semi-intensiva, lavouras especiais (perenes, anuais) e pastagens, limitando e ordenando sua expansão. além disso considerou-se características climáticas e do solo, relacionados com os requerimentos desta cultura, classificando cada um dos três tipo de uso da terra (agrícola, pecuária ou agropecuária) em aptidões agrícolas alta, média ou baixa. é possível verificar isso em mapas detalhados em nível nacional ou estadual aqui.

- algumas áreas foram excluídas do zoneamento:
1. as terras com declividade superior a 12%, observando-se a premissa da colheita mecânica e sem queima para as áreas de expansão. [acabar com queimadas para colheita é bem importante, já que os principais fatores de ecotoxicidade assim como de toxicidade humana, estão relacionadas às queimadas. a degradação do solo também é bastante reduzida se suspendermos a queimada. a mecanização da colheita também é um grande diferencial, pois dá condições de trabalho mais dignas ao passo que gera outro grande problema social: emprega mão-de-obra especializada em operar máquinas para colheita de cana em detrimento de mão-de-obra pouco ou nada qualificado que é/era utilizado na colheita manual, agravando ainda mais a situação de oportunidade de trabalho para classes mais baixas];

queimadas da cana para colheita, ainda bastante comuns no estado de são paulo

2. as áreas com cobertura vegetal nativa [ótimo! o que sobra de Cerrado e outros biomas tende a continuar intacto, pelo menos em relação a cana...];
3. os biomas Amazônia e Pantanal [esse ponto é um ponto crítico para gringos, creio eu, já que o que eles conhecem de brasil é que temos o que erroneamente é conhecido como o "pulmão do planeta". sabiam que os usineiros brasileiros usam como argumento o fato dos canaviais estarem distantes destes biomas para justificar a "sustentabilidade" da produção sucroalcooleira? pois é! os outros biomas nem são levados em consideração!] além da Bacia do Alto Paraguai;
4. as áreas de proteção ambiental e remanescentes florestais;
5. as terras indígenas [também acho ótimo não mexer com terras indígenas, apesar de que há índios muito mais "cara-pálida" que muitos de nós];
6. dunas;
7. mangues;
8. escarpas e afloramentos de rocha;
9. reflorestamentos e
10. áreas urbanas e de mineração.

- estabelece que o país dispõe de 64,7 milhões de hectares=647 mil km2 de áreas potenciais para ocupação por canaviais. isso corresponde a mais de 7 (SETE) vezes a área remanescente de mata atlântica ou 1,5 vezes maior que o que resta de Cerrado, isso sem mencionar os outros biomas menores (em extensão). considerando isso, restam"apenas" 7,5% do território nacional potenciais para o plantio de cana (se plantassem em toda área com potencial de plantio, seria praticamente um novo bioma pouquíssimo biodiverso e de origem antrópica). isso pelo menos é ótimo pelo fato de que não mais será preciso devastar novas áreas para este fim, uma vez que a vontade econômica dos governantes é de produzir cada vez mais cana.
o brasil é exemplo em alguns aspectos da produção de cana, pois somos capazes de utilizar o máximo da tecnologia a que temos acesso, produzindo muito mais do que seria esperado com a tecnologia vigente. só para ilustrar um fato que foi espantoso para mim quando fiquei sabendo, a lavagem da cana é feito com a água que extraem da própria cana, não necessitando de água de rios para isso.

- segundo o documento, um dos impactos esperados é a produção de biocombustíveis de forma sustentável e ecologicamente limpa. isso parece piada, pois uma coisa é querer reduzir os danos causados no ambiente nos processos de produção e uso dum combustível, mas dizer que se espera produzir um biocombustível limpo é uma mentira. o biocombustível é queimado e emite poluentes e isso já é o suficiente para que não seja limpo.
além disso, um dos grandes problemas da produção de biocombustíveis a partir de cana é a produção de vinhoto: para cada litro de bioetanol obtidos da cana, 14 litros de vinhoto são produzidos. esse grande volume é reutilizado para adubação do solo, mas boa parte acaba caindo em rios nas proximidades do canavial, e claro, sem tratamento.

- ao meu ver esta foi uma ótima forma de conter os ânimos de ruralistas como o ministro da agricultura reinolds stephanes, por que se dependesse dele, o país viraria um gigante deserto agrícola. e obviamente os ruralistas do pantanal e da amazônia devem se sentir injustiçados com isso.

- uma das intenções desse estudo é também a possibilidade de se conseguir créditos de carbono, e atrair investimentos nacionais e internacionais. ao meu ver o que fundamenta créditos de carbono são meramente aspectos econômicos e nada ambiental. não acho que concentrar as emissões de carbono seja mais benéfico que fragmentá-lo, ao contrário da lógica aplicada em fragmentos vegetacionais.

gostaria de conhecer um pouco mais de manejo de solo pois acredito que em longo prazo monoculturas danifiquem muito este recurso natural. por enquanto só fica a suposição quanto a isso.

mais uma vez friso que este zoneamento parece ser bastante positivo. os pontos fracos ficam no argumento de combustível limpo e do papo furado da sustentabilidade (que teoricamente deveria abranger as sustentabilidade ambiental, social e econômica). a cana brasileira tem em mãos boa fatia do mercado mundial, possibilitando esse tipo de iniciativa. este zoneamentos agroecológicos é bem completo e releva aspectos importantes para que possamos usufruir mais apropriadamente dos recursos naturais disponíveis, minimizando os danos desta atividade na escala em que é praticada (nesta escala, a principal vítima é o cerrado: uma área bastante extensa dela é tomada por atividades não apenas sucroalcooleiras, mas agropecuárias diversas).
já que é opção deste país a produção agrícola em nível industrial, o ideal seria que cada uma das principais culturas fosse feito um zoneamento agroecológico próprio, mas é pouco provável que haja interesses político e econômico tão engajados como no caso da cana.

7 de setembro de 2009

homogeneização antropogênica e extrapolações

uma das consequências mais graves da atividade humana é a redução de biodiversidade.
e uma das formas pelas quais isto ocorre, é pela introdução de espécies invasoras.
a definição que acho mais pertinente para o termo é que estas espécies são exóticas (ou seja, que não têm sua origem evolutiva no local de ocorrência; alguns preferem o termo não-nativa) E causam algum tipo de dano ecológico. os danos mais comuns seriam competição com espécies nativas, hibridização ou até mesmo extinção de populações de espécies locais (recomendo os artigos publicados na revista da SBPC indicados no fim do post).

a introdução de uma espécie exótica num ecossistema se dá de duas formas: natural ou facilitada/mediada pelo homem. como caso de introdução natural de espécie, podemos citar eventos geológicos como a união geográfica da américa do norte com a do sul. este evento ocorreu no período neogeno (também conhecido como período terciário) da era cenozóica, num evento geológico recente de poucos milhões de anos, permitindo intenso intercâmbio de faunas. outros casos mais comuns sãopela expansão da distribuição de determinada espécie. atualmente a constante alteração do uso da terra faz com que este processo seja imensamente facilitado.

portanto, o surgimento do homem acelera ou medeia invasões biológicas. esta introdução, por sua vez, pode ser intencional ou acidental.
interesses econômicos são as principais causas da introdução intencional de espécies exóticas como produção agropecuária ou o mercado de animais de estimação (tanto legal como ilegalmente).

aqui acho relevante fazer um pequeno adendo:
para pessoas que compram pets exóticos, desde peixinhos, tartaruguinhas e outros bichinhos que são amplamente adquiridos mundo afora: quando não se desejar mais ter o animal exótico, não se deve JAMAIS soltá-lo na natureza (o bem que v. nem sabe se fará ao bichinho, pois ele pode morrer na primeira hora de liberdade, pode causar males ecológicos notáveis... a política brasileira é um ótimo exemplo disso). há casos de extinções de populações inteiras na natureza por causa de atitudes como essa de ir à beira da estrada e soltar o bicho no meio do primeiro mato que o cara encontra na frente. o ideal então é contatar uma entidade competente (não sei, mas eu procuraria o ibama ou secretarias de meio ambiente para saber como proceder) para destinar o animal. há casos em que os animais são destinados a zoológicos ou centros de reabilitação, mas depende muito de cada caso. muitas vezes é melhor sacrificar o animal.


agora voltemos à programação normal:
um caso comum em que se introduz propositalmente uma espécie exótica é a introdução dos predadores naturais de espécies introduzidas previamente (pode-se dizer que, geralmente, se introduz um fator de desestruturação ecológica na tentativa de amenizar outro; aumentando problemas ao invés de resolver). casos clássicos são relatados na austrália.
a introdução de forma acidental é muito menos intuitiva, e é bem ilustrada no caso de embarcações, que levam animais marinhos na água de lastro. no Brasil, os casos mais antigos remetem à época da colonização de nosso país, com invasões biológicas de moluscos incrustados nas caravelas.

caravelas traziam colonizadores a bordo e moluscos no casco. foto

de qualquer forma, a entrada de espécies invasoras tende a homogeneizar a genética das espécies que ocorrem num determinado local. isso quer dizer que a biodiversidade sofre uma redução. sobre este fenômeno associado à atividade humana, diz-se que ocorre uma homogeneização antropogênica. as atuais atividades em nível global aceleram ainda mais tal processo.
eu considero que as cidades tenham papel fundamental na homogeneização, não apenas das espécies mas do ambiente, já que as cidades compartilham algumas características comuns como o fato de que conforme crescem, tendem a se edificar cada vez mais, além de aumentar a concentração demográfica da população humana como dos animais sinantrópicos que ocorrem ali. é claro que ainda restam características específicas de cada local. na cidade de são paulo e em proximidades, por exemplo, podemos ver facilmente animais (nativos/exóticos, domesticados/semi-ferais/ferais/silvestres) como bem-te-vis, sabiás-laranjeiras, avoantes, joões-de-barro, pardais, garças-brancas, pombos-domésticos, maritacas, cães, gatos, ratos, baratas, aranhas, etc..., além do próprio homem, sem grande variação das espécies predominantes na fauna local. isso obviamente é resultado da ocupação humana, que cria um "vegetação" homogênea (uma "selva de pedras"?!). hábitats sem variação ambiental invevitavelmente tem uma fauna pouco variada (isto é, pouco diversificada).

o papel ecológico dos componentes das cidades é bem homogêneo apesar de detalhes estéticos diferentes. a expressão humana assim como qualquer outro fator ecológico, é influenciada e influencia o ambiente ao mesmo tempo que é uma influência sobre outros seres: é a relação biótico e abiótico que define a ecologia.

são paulo, ambiente homogeneizado pela ocupção humana. foto

como ambientes urbanos são homogêneos, a expressão humana também tende a se homogeneizar. quero dizer que a cultura também sofre a homogeneização criada pelo próprio homem. músicas globais, filmes globais (não da rede globo, mas hollywoodianos!hahaha), idiomas globais. tudo isso tende a hibridizar com ou substituir culturas locais.
a diversidade de idéias parece diminuir cada vez mais. alguns sofrem mais com isso que outros, claro, mas no geral isso se dá em detrimento de folclores e artes, valores morais e familiares locais, etc... possibilitando a identificação de pessoas totalmente diferentes, mas em detrimento de regionalismos.

hoje em dia fala-se em cidadãos globais, preocupados com causas globais (a internet age como o melhor catalisador já inventado). o futuro do planeta e o estilo de vida a se seguir; tendências culturais de todas as artes nos locais mais bacanas. isso tudo tende a fazer com que idéias mais "adaptadas" sobrevivam. cada sociedade é um ambiente adequado para idéias diferentes, e mais uma vez surge a identidade local. perdem-se muitas cores e ganham-se poucas, é uma relação assimétrica, talvez desprovida de intenção. a homogeneização não ocorre apenas em cidades, mas em qualquer local que o homem ocupe e homogeneíze, afetando as diversidades biológica e cultural.

recomendações de leitura
- Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Impacto das espécies invasoras no ambiente aquático.
- Machado, CJS, Oliveira AES, Matos DMS, Pivello V, Chame M, Souza RCCL, Calazans SH, Silva EP, 2009. Recomendações para elaboração e consolidação de uma estratégia nacional de prevenção e controle das espécies exóticas no Brasil.

8 de março de 2009

campanha antibiopirataria

muitas vezes turistas que vão a lugares diferentes querem trazer souvenirs dos locais que visitam, e, por ignorância ou ambição, trazem espécimes diversos de animais, plantas, microorganismos... essas pessoas são biopiratas, e podem dar origem a catástrofes ecológicas, causando a invasão biológica moderna mais comum: aquela mediada pelo homem.

a invasão biológica é caracterizada pela entrada de um organismo exótico - (por exótico entende-se um organismo que não é originário de um determinado local, o oposto de exótico é nativo). organismos exóticos são muitas vezes capazes de dominar um novo ambiente, principalmente pela ausência de predadores específicos, a partir disto, toma nicho de animais nativos, podendo levá-los a extinções.
para se ter idéia, a invasão biológica é uma das principais causas de extinção de espécies no planeta, juntamente com perda de hábitat, dentre outros.

para reduzir alguns desses aspectos, muitas ongs fazem campanhas para conscientizar as pessoas de que não devem fazer isso, geralmente mostrando alguma faceta realmente desagradável. mas algumas vezes eles acertam e mandam muito bem na publicidade e criatividade.

segue abaixo o vídeo do international fund for animal welfare, de campanha contra a tomada de animais como souvenirs.



"se eles quisessem vir, eles viriam"

via p.o.v.

21 de setembro de 2008

globalizando a natureza

a principal causa de extinção de espécies animais é devido, primeiramente, à perda de habitat. conseqüências de desmatamentos, poluição da água, do ar, e todas as coisas apontadas por quaisquer ecochatos.

a segunda maior causa de extinção e perda de biodiversidade se deve à espécies exóticas invasoras (invasive alien species, em inglês). essas espécies desequilibram toda relação pré-estabelecida em um ecossistema, ocupa um nicho que era vago, consome recursos, e não é tão predado como deveria, acabando com a diversidade por não ser uma população naturalmente controlada.

mas nesse cenário antropizado-caótico nota-se que alguns padrões também estão se extinguindo, no caso as migrações em massa.

wilcove & wilkelski descrevem que migrações que há dois séculos era observável nas pradarias dos eua, não mais ocorrem devido às conseqüências de atividade humana. além disso há relatos de birdwatchers europeus e norteamericanos que dizem que as aves não têm retornado das migrações que fazem pra américa latina e áfrica. mas a questão não é que as espécies de aves não são mais avistadas, mas que se tornou muito mais difícil de avistá-las. o mesmo ocorre com outros animais, simplesmente ocorrendo em números menores que costumavam ocorrer.
estima-se que populações de animais que migram longas distâncias têm tido declínios severos. só para fins ilustrativos, na ásia, a saiga (um antílope migratório) reduziu em 95% o número de indivíduos em duas décadas.

quatro fatores não-excludentes são o que ameaçam as migrações: i) destruição de habitat, ii) criação de obstáculos e barreiras como barragens e cercas, iii) superexploração e iv) mudanças climáticas

vamos aos números, que as coisas se tornam mais chocantes.
anualmente ocorria migração de 160-226 milhões de kg de salmões, da europa para a américa. atualmente estima-se que apenas 12-14 milhões de kg de salmões participem do processo migratório. a migração neste caso é de grande importância para manter os ciclos de nutrientes de sistemas como rios, que recebem diversos derivados de nitrogênio e fósforo, trazidos do mar pelos salmões, que morrem após a desova. acabar ou reduzir drasticamente estes valores causa uma perturbação nítida na normalidade desse sistema, que se empobrece e suporta cada vez menos diversidade.

saber como ficaria se o sistema migratório de animais do serengeti extinguisse ainda fica por conta de especulações, mas as conseqüências ecológicas de uma tragédia dessa proporção seria igualmente grandiosa.

não sei qual o status dos processos migratórios observados no brasil, algum birdwatcher poderia dar uma palavra, seria de grande valia.
é um grande desafio científico, econômico e social que a proteção do fenômeno migratório traz, e é de grande importância para a integridade de muitos ecossistemas de nosso planeta.

em tempos de crises globais é bom salientar que não é só a economia que é global.
a natureza também é.

glossário:
- birdwatcher: observador de aves.

fontes consultadas:
- going, going, gone: is animal migration disappearing. david s. wilcove, martin wikelski, plos biology (2008)
- 100 of the world's worst invasive alien species. a selection from the global invasive species database. s. lowe, m. browne, s. boudjelas, m. de poorter. issg-ssc-iucn (2000)