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14 de fevereiro de 2010

lagos salgados e desastres antrópicos

os lagos salgado são corpos d'água formados por rios endorréicos que desaguam numa bacia. rios endorréicos são aqueles que correm para dentro do continente ao invés de desaguar no mar.
na bacia ocorre a formação de um lago, porém este lago só recebe água, sem haver qualquer saída exceto pela evaporação. desta forma, a água tem sais e minerais que se tornam cada vez mais concentradas, tornando a água salgada.

em regiões semi-áridas este tipo de formação é altamente cobiçada, já que as águas doces dos rios poderiam alimentar campos de cultivo, complementando a economia local.porém, algumas vezes o sistema de irrigação em regiões semi-áridas pode não considerar consequencias ecológicas, econômicas, sociais e de saúde pública e acabam gerando catástrofes notáveis, o caso mais bem ilustrado da história humana é o do mar de aral.

mar de aral

o mar de aral se situa entre cazaquistão e uzbequistão, na ásia central e já foi considerado o quarto maior lago salgado do mundo, com extensão de 68 mil km² e 31m de profundidade, era alimentado por rios que formavam pelo degelo das montanhas da ásia central; porém, desde a década de 1960, parte dos rios foram desviados principalmente para irrigar plantações de algodão (conhecido como "ouro branco"), constituindo o maior projeto de desvio de curso de água da união soviética. apesar desse desvio ter permitido o florescimento do deserto, isso devastou o mar de aral. a consequência a longo prazo é que nos últimos 30 anos o lago perdeu mais de 60% de seu tamanho original.

fotografia de satélite de parte do mar de aral em três tempos distintos: 1973, 1987 e 2000, mostrando a progressiva redução do mar de aral (fonte) - clique para ampliar

a vazão de água recebida pelo mar de aral era de 50 km³ de água doce em 1965, e no início da década de 1980, esse volume caiu a zero! consequentemente os sais e minerais desse "mar" começaram a se concentrar cada vez mais, alterando toda ecologia do local e afetando negativamente as populações de peixes, reduzindo-as drasticamente.
a indústria pesqueira era bem forte na região empregando cerca de 60 mil pessoas, porém a redução dos rios que ali desaguavam fez esta indústria cair vertiginosamente, sendo extinta no início da década de 1980.

embarcação pesqueira abandonada nas proximidades do mar de aral. (fonte)

a redução do lago alterou também o clima e, consequentemente, as estações para cultivo encurtaram. na agricultura local o algodão não tinha mais o clima apropriado e o arroz passou a ser a alternativa imediata, exigindo demandas ainda maiores de água.

as consequencias secundárias desta tragédia ambiental é que os fortes ventos que sopram na ásia central retira e deposita dezenas de milhares de toneladas de partículas da bacia todo ano, encolhendo ainda mais o mar de aral, além disso, os ventos trazem fertilizantes e outros agroquímicos que além de contaminara bacia do lago ainda se torna um risco à saúde pública (já que os intensos ventos levantam estes tipos de partículas sendo posteriormente respirados pelos ex-pescadores desempregados) e ainda leva sais e minerais que inviabilizam ou dificultam outras áreas cultiváveis no entorno. 

o desemprego e a pobreza ainda força a economia local a depender de exportações de suprimentos que não podem mais ser adquiridos ali.

a secura e a última tentativa de salvar o lago
conforme o lago foi encolhendo, lagos menores foram se formando. e alguns desses "sublagos" chegaram mesmo a secar de vez. nessa iminente morte inevitável o banco mundial financiou pro cazaquistão construir (em 2005) uma barragem entre os dois lagos principais (norte e sul), para ao menos tentar salvar uma parte do que um dia foi o quarto maior lago salgado do mundo. esta é na verdade uma sentença de morte para a parte sul do lago, já que agora toda água que vem do degelo das montanhas agora fica restrito apenas à porção norte. pelo menos esta parte do plano está dando certo.

foto do mar de aral em 2009. a linha preta indica o tamanho original da década de 1960 (fonte)

para ter uma idéia de como o mar de aral encolheu na década passada confira esse link aqui. nesse link é mostrado a foto panorâmica anual do período entre 2000-2009, e dá pra ver como a porção sul (maior) já foi pro brejo (vide foto acima) , enquanto a pequena porção norte (das fotos abaixo) começa aos poucos a expandir a partir da construção da barragem em 2005.

porção norte mantido pelas barragens construídas em 2005. (fonte

da próxima vez que v. ouvir falar em irrigação para o boom agrícola de uma região semi-árida (e.g. rio são francisco) já sabe o que pode se esperar numa das piores hipóteses: perda de populações de animais, riscos de saúde pública, contaminação de água e solo por agrotóxicos e por aí vai

para entender mais profundamente o caso do mar de aral acesse aqui

fontes consultadas

13 de janeiro de 2010

paulicéia e suas verdanias

são paulo, a paulicéia, ainda apresenta algum verde em suas cercanias.
um dos que se destacam no cenário urbano é o hortoflorestal, formalmente conhecido como parque estadual alberto löefgren.
hoje a ligia me deu uma dica sobre um texto no conversa afiada, do paulo henrique amorim, falando do descaso por parte do governo estadual com as áreas públicas do parque.
um esgoto a céu aberto em pleno parque público é um risco muito grande de saúde pública, podendo contaminar por diversas doenças as pessoas que por ali transitam.
pra variar, o governo tucano não tá nem aí pro povo.

deixo o vídeo abaixo, e recomendo a leitura do post no conversa afiada, onde tem um texto de uma leitora indignada com a situação.


9 de dezembro de 2009

mata ciliar

"povo que vota nas coxas toma na bunda."
andré dahmer, cartunista

você sabe o que é mata ciliar?
segundo a legislação brasileira, mata ciliar é a vegetação que margeia cursos d'água.
o crescimento de uma vegetação aumenta a capacidade de escoamento de águas pluviais e fluviais; a emissão de raízes reduz as erosões, dentre outras vantagens que uma vegetação pode trazer em comparação ao solo nu ou impermeabilizado.

no lugar da mata ciliar dos cursos d'água da paulicéia temos asfalto.
o asfalto, por sua vez, não é lá um material muito apropriado para absorver as águas.
numa cidade como esta é fácil perceber o estrago o que o asfalto em detrimento de uma mata ciliar causa. uma vez que a água não tem como entrar no solo rapidamente podemos imediatamente perceber as enchentes. em médio prazo há eventos bem menos explícitos (e mais nocivos) tais como o reabastecimento insuficiente dos lençóis freáticos, formação de enxurradas e processos erosivos diversos.

se sua memória é uma merda porcaria, aqui vão algumas cenas de ontem na cidade.



o código florestal (lei nº 4771/65) faz algumas considerações interessantes a respeito da mata ciliar:
Art. 2° Consideram-se de preservação permanente, pelo só efeito desta Lei, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas:
a) ao longo dos rios ou de qualquer curso d'água desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja largura mínima será:
(...)2 - de 50 (cinquenta) metros para os cursos d'água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinquenta) metros de largura; (...) [segundo vi no google maps, as marginais pinheiros e tietê têm, respectivamente, cerca 20 e 50 metros de largura, enquadrando-se nesta categoria]
isto quer dizer que se fosse para manter a vegetação conforme este artigo do código florestal, deveria haver uma mata ciliar nas marginais de largura mínima de 50 m, o que seria maravilhoso e não haveriam enchentes nestas proporções. porém, um pouco mais adiante, ainda no código florestal:
Parágrafo único. No caso de áreas urbanas, assim entendidas as compreendidas nos perímetros urbanos definidos por lei municipal, e nas regiões metropolitanas e aglomerações urbanas, em todo o território abrangido, obervar-se-á o disposto nos respectivos planos diretores e leis de uso do solo, respeitados os princípios e limites a que se refere este artigo.
como tudo que é da burocracia pública eles nos mandam de um lado ao outro... pois bem, o plano diretor estratégico do município de são paulo tem diversas partes muito interessantes ao caso. infelizmente vou deixar esta parte da análise para o próximo post, para que este post não se torne obsoleto demais em relação à enchente de ontem.

as chuvas de fim de ano coincidem com as diversas obras que o governo está fazendo na cidade. muitos com ar eleitoreiro, onde quer que v. ande nesta cidade se deparará com obras que apenas estorvam a vida do cidadão comum.

o dinheiro mal gasto do governo traz diversos prejuízos diretos e indiretos: cerca de 100 pontos de alagamentos que impediam que as pessoas se movessem de suas residências aos locais de trabalho, cerca de 10 pessoas mortas, espalhamento de doenças e sujeira, paralisação de transporte público e privado, 70t de melancias perdidas no ceagesp, dentre tantos outros prejuízos mensuráveis ou não que ocorreram e que, sem dúvidas e infelizmente, continuarão a ocorrer.

ainda ontem pela manhã o prefeito do DEMO, kassab, disse isso aqui:



me mata de vergonha.

a solução, ou melhor, a forma para minimizar os danos seria a de implantar parques e outras áreas verdes ao longo dos cursos d'água para dar uma chance de que as águas escoem por solos que tenham tal capacidade, e não que corram pelos asfaltos, levando vidas consigo (estes que apenas viram estatísticas e não soluções).

é isso aí, votam nas coxas, tomamos na bunda.

pra rir pra não chorar, leia mais sobre o caos de ontem aqui e aqui