29.3.09

é sempre lua cheia na cidade

ontem rolou a hora do planeta, promovida mundialmente pela wwf, esta foi a primeira participação da wwf tupiniquim neste evento.
segundo o site do wwf-br, o evento é um "ato simbólico (...) para demonstrar preocupação com o aquecimento global".
na paulicéia, os seguintes estabelecimentos/locais participaram oficialmente: ponte estaiada, monumento às bandeiras,viaduto do chá,estádio do pacaembu, teatro municipal, obelisco, parque do ibirapuera, fonte do parque independência, instituto butantan, museu de arte moderna, edifício copan, world trade center, sheraton hotel e sede da vivo.

apesar de alguns eventos terem sido promovidos aproveitando a pouca escuridão que se obtinha, muito provavelmente a maioria das pessoas que não tivesse conhecimento do evento, apenas estranhasse que alguns pontos estivessem menos iluminados que o normal.

por ser simbólico, muitas pessoas devem ter acendido velas por aí, para não iluminar, mas talvez parafina de velas seja bem mais poluentes que watts gastos eletricamente.

apesar do blecaute bem parcial da cidade ter sido em protesto aos danos indiretos da iluminação, aqui neste post falarei exatamente dos danos diretos que causamos com a iluminação.

poluição luminosa

a national geographic deste mês trouxe de brinde a edição de nov/08 em que a reportagem de capa era "o fim da noite", a matéria é escrita por verlyn klinkenborg, e logo de cara ele cita um fato evolutivo crucial pra existência de tanta luz: "se os seres humanos se sentissem de fato à vontade sob a luz da lua e das estrelas, atravessaríamos contentes a escuridão com o mundo da meia-noite tão visível para nós quanto ele é para um vasto número de espécies noturnas". o fato é esse mesmo, evoluímos de bichos diurnos e acendemos luzes para nos sentir mais a vontade.

a preocupação com a poluição luminosa começou devido às observações astronômicas, mas atualmente percebemos que o buraco é bem mais embaixo. boa parte da iluminação não é aproveitada onde deveria, pois a luz vaza para cima e para os lados, onde a iluminação pública não é útil para pessoas, que estão andando num nível abaixo dos postes.

acho que todos conhecem o fato de insetos se aglomerarem em fontes de luz, voando em torno de lâmpadas e holofotes. os fatores específicos que explicam este comportamento errático é bem complexo, envolvendo diversos efeitos, mas basicamente o que ocorre é que muitos animais se orientam a noite pela luz da lua, mas a invenção da luz gerou uma infinidade de fontes de luz tão ou mais fortes que o luar, desorientando tais animais.
a maioria destes animais ficam voando até a exaustão, quando, então, caem e morrem.

aquilo que popularmente chamamos de relógio biológico (e tecnicamente por relógio/ciclo/ritmo circadiano), que é responsável por respostas fisiológicas e comportamentais de acordo com as diversas situações que o ambiente proporciona, é também responsável por diversos aspectos do funcionamento normal do corpo, como ciclo sono/vigília, ciclos hormonais, atividades neurais, oscilações térmicas e tantas outras periodicidades que ocorrem em nosso corpo ao longo das 24h diárias. a iluminação gera alterações relevantes no funcionamento adequado, podendo levar a distúrbios como os de sono e até aumentar tendências a cânceres.

alterações desses ciclos obviamente ocorrem nos outros animais que também sejam expostos à luz. um dos casos que mais bem ilustra a gravidade da iluminação na fauna é o das tartarugas. as fêmeas de tartarugas fazem a desova em praias escuras, nos quais os filhotes, assim que eclodem, podem se orientar pelo luar, indo em direção ao mar. em áreas urbanas litorâneas, a luz da cidade confunde o bicho, e a luz, que é o gatilho biológico da tartaruga recém-nascida, a faz rumar para a cidade, lá são expostas a diversos perigos, desde carros, pessoas desatentas, animais domésticos, predadores oportunistas, e a morte por exaustão.

outro exemplo bem interessante são dos vagalumes, que necessitam da bioluminescência para a reprodução. mas sendo a iluminação artificial mais clara que a bioluminescência, estes animais não conseguem se comunicar eficazmente, reduzindo consideravelmente suas populações, podendo levá-las a extinção.

adaptações simples que evitem o vazamento da luz são possíveis, talvez tornando a poluição a luminosa o tipo de poluição mais fácil de remediar. bastando um desenho que otimize a luz para baixo.
toronto, canadá

em cidades superedificadas, os prédios iluminados a noite se tornam verdadeiros labirintos de luz. grupos como o flap (fatal light awareness program), programa de alerta para a luz fatal em inglês, tentam conscientizar e minimizar ameaças a aves que o meio urbano propicia. o flap estima que apenas na américa do norte, pelo menos 100 milhões de aves morram todos os anos em colisões com edifícios.

av. paulista

se compararmos a cidade de são paulo com grandes cidades do hemisfério norte, provavelmente não teremos tantos prédios altos (um skyline grandioso de prédios altíssimos de mais de 50 ou mais andares), tão comuns naqueles cantos do mundo, e provavelmente o impacto aqui seja menor, mas nenhum estudo do tipo jamais foi executado por essas bandas, sendo uma lacuna bem interessante que provavelmente ainda ficará aberta por um bom tempo.

uma das coisas que urbanização traz consigo é a fauna sinúrbica, animais especializados e adaptados ao meio urbano. morcegos que se especilizam em predar insetos sob luzes públicas é uma delas. e quando isto é novidade em algum lugar, estes animais provavelmente substituam a fauna original, reduzindo e até eventualmente extinguindo uma espécie do local. este se torna mais um tipo de invasão biológica promovida pelo homem e todo progresso urbano que levamos conosco, é nocivo a tantas outras formas de vida nativas.

efeitos de pilares de luz, devido ao reflexo de luz artificial
em locais bem gelados, para mais fotos, clique aqui


dentre tantos fenômenos belos como os pilares de luz (como na foto acima) ou catastróficos como a morte de milhões de animais, uma coisa é certa, a luz artificial noturna, como qualquer outra coisa, deve ser utilizada com moderação, caso contrário, poderemos ser nós quem veremos e viveremos as piores consequências de se adequar o ambiente que vivemos ao nosso bel prazer (e conforto), alterando tantos ciclos (circadianos e ultradianos), em tantas espécies (não apenas animais), que por milhões de anos permaneceram iguais, e que aos poucos a cronobiologia desvenda.

links relacionados
- ecological consequences of artificial night lighting - ucla institute of the environment and the urban wildlands group
- network features of the mammalian circadian clock - julie e. baggs, tom s. price, luciano di tacchio, satchidananda panda, garret a. fitzgerald, john b. hogenesch - plos biology (2009)
- of owls, larks and alarm clocks - melissa lee phillips, nature (2009)

Um comentário:

Jorge Ramiro disse...

Quando eu era jovem, adorava fotografia. Eu queria trabalhar como fotógrafo profissional. Agora trabalhando em adestramento de cães, eu ainda amo fotografia, eu tiro fotos, mas é um hobby.